Por que eletrificar a frota de ônibus aumenta a eficiência das cidades

Evento em São Paulo mostra como os centros urbanos brasileiros podem ficar mais limpos, saudáveis e economicamente interessantes

Existe um caminho para melhorar nossas cidades: seguir a tendência internacional de trocar os velhos e sujos ônibus a motor de combustão por modelos modernos elétricos. Com ônibus elétricos, a população das grandes cidades – principalmente a de baixa renda – ganha qualidade de vida imediatamente. As vias mais congestionadas de tráfego intenso passariam a ter ar mais respirável sem os escapamentos dos ônibus e menos poluição sonora sem os motores a combustão. Veríamos uma valorização dos imóveis ao longo justamente das avenidas mais importantes e também incentivo ao comércio de rua nessas vias subitamente mais civilizadas. A maior qualidade dos ônibus também incentiva a migração de parte dos usuários que hoje preferem ir de carro em nome do conforto. Tirar carros das ruas é bom para a eficiência das cidades.

Para Marcus Regis, coordenador da Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME), rede de mais de 30 instituições que incluem órgãos governamentais, agências, indústria, academia e sociedade civil a favor da eletromobilidade, a eletrificação de transportes é parte importante da solução para os desafios climáticos e socioeconômicos do Brasil. “As pessoas querem poder confiar no sistema. Hoje você tem sistemas de transporte público que não são confiáveis e a maior evidência disso é que, na primeira oportunidade, as pessoas se livram do sistema através de comprar um carro ou uma moto. Não tem como transformar um sistema de transporte usando combustível fóssil. Eletrificar faz sentido agora na medida que aumenta a confiabilidade do sistema”, explica.

Por que a transição elétrica não anda mais rápido? Pensando em custos, hoje o custo de aquisição de um ônibus elétrico é maior do que a opção a diesel, mas o elétrico é muito mais barato para se operar. A longo prazo, essa conta fecha com vantagens maiores ainda para os veículos elétricos porque eles trazem uma tecnologia que tem espaço para ficar mais eficiente. Apesar disso, o principal motivador para escolher o tipo de transporte para as cidades não pode mais ser o custo. Com o cenário atual de mudanças climáticas em curso, o motivador principal é simplesmente o fato de que não dá mais para usar diesel e gasolina na proporção que o mundo atual usa. A pergunta certa seria: como tornar a eletrificação mais barata?

Parte da resposta está agora em exibição em São Paulo. Nos dias 23 e 24 de junho, em São Paulo, a Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME) e TUMI E-Bus Mission realizam o evento “Eletrificação do transporte público no Brasil” a fim de destacar a relevância de incluir efetivamente o tema da eletrificação dos transportes públicos no contexto das atuais discussões climáticas e econômicas. Esse é um evento importante para dar mais espaço para a população geral se conectar ao debate sobre os caminhos para viabilizar a mobilidade urbana sustentável, incluindo aspectos como qualidade de vida e bem-estar urbano. O evento será realizado como parte do Parque da Mobilidade Urbana (PMU), no palco 5, é gratuito e aberto a participantes de diferentes setores que estejam interessados no tema.

Não só as cidades do Brasil, mas grande parte das cidades do mundo não foram feitas para as pessoas e sim para os carros. As cidades não são lugares de convivência, são lugares de trânsito, de passagem. Quando se pensa em eletrificação de veículos o carro não deve ser prioridade e isso por causa do papel que ele tem na sociedade. O carro em si não é visto como algo bom ou ruim, mas como parte de um sistema falido. Priorizar o transporte coletivo faz parte de um processo de devolver a cidade pensando nas pessoas.

Trocar os carros atuais por carros elétricos diminuiria emissões e barulho, mas não diminuiria o congestionamento e a falta de acesso que muitas pessoas têm a serviços públicos e oportunidades. Já ao priorizar o transporte público é possível emitir menos gases de efeito estufa, ocupar menos espaços, atingir mais pessoas e integrá-las em uma nova economia. É possível reinventar a maneira como se vive nas cidades e gerar mais e melhores resultados para a qualidade de vida da sociedade. “A mobilidade elétrica faz sentido quando coloca o transporte para trabalhar para as pessoas e não as pessoas para se adequarem ao transporte”, explica Marcus Regis.

Um sistema de energia bom para o clima é outro ponto crucial. Viabilizar isto exige uma coordenação grande e um cuidado com a proteção do meio ambiente, mas é possível de se fazer gradualmente. A energia elétrica tem seus custos, mas, olhando para um panorama mundial, o Brasil tem grande potencial para ter energia mais limpa. Não existe solução para eficiência econômica usando nem só a lógica do poder público, nem só a lógica do poder privado, ambas tem que participar para criar e implementar um modelo que funcione. Tornar um modelo de transporte viável para o sistema precisa envolver todas as partes interessadas na construção da mobilidade urbana no Brasil.

Por isso, para juntar todos os envolvidos nessa mudança, a PNME também lidera a campanha Via Elétrica, uma iniciativa que agrega diversos atores na busca pela eletrificação do transporte coletivo urbano, os ônibus. São redes, empresas, governos e organizações que trabalham para promover a transição energética na mobilidade das cidades e que, por esse motivo, têm gerado conhecimento e promovido a conexão entre partes interessadas a fim de viabilizar essa urgente transição.

A qualificação do debate e o compartilhamento de informações sobre este tema é um passo fundamental para construirmos soluções concretas e propostas de políticas públicas para a mobilidade elétrica em nosso país. A hora de o Brasil mudar sua rota de olho nas mudanças climáticas e no bem-estar social é agora.

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Este artigo foi publicado, originalmente, na coluna Ideias Renovaveis, da Exame.

Como vender os produtos sustentáveis da Amazônia

Negócios de impacto amazônicos participam da maior feira de produtos naturais da América Latina

Ativos da Amazônia têm, cada vez mais, sido usados na produção de alimentos saborosos, cosméticos e artesanato. A bioeconomia da maior floresta tropical do planeta tem um potencial que, ainda que não seja de todo conhecido, tem tudo para ser o motor de um desenvolvimento mais virtuoso para a região.

Já existem negócios e marcas que utilizam sabiamente esses ativos, gerando impactos positivos para a floresta e para as comunidades que nela vivem. Os chamados negócios de impacto se multiplicam na região amazônica, juntando inovação e saberes ancestrais.

E é com esse espírito que 32 dessas marcas estarão reunidas na NaturalTech, maior feira de produtos naturais da América Latina. O evento acontece em São Paulo de 8 a 11 de junho, no Anhembi, e é uma grande vitrine para os negócios.

Um estande de quase 100 m² abrigará os 32 negócios que integram a iniciativa Amazônia em Casa Floresta em Pé. Lá o visitante vai encontrar chocolate com cacau nativo, café agroflorestal, castanhas, sucos, guaraná, suplementos alimentares, farofas, tucupis, geleias, molhos, pimentas, óleos, pescados, biocosméticos, artesanato, acessórios, dentre outros produtos naturais.

A feira é uma oportunidade para promover a troca de experiências entre produtores, redes varejistas e consumidores finais, o que trará visibilidade e contribuirá para ampliar a presença desses produtos no mercado. Segundo a organização da NaturalTech, o mercado de produtos naturais, probióticos, integrais, fitoterápicos e tratamentos complementares cresce cerca de 4,4% ao ano, o que faz o Brasil ocupar o quarto lugar no ranking de faturamento mundial.

Na edição de 2019, última presencial realizada antes da pandemia da covid-19, a NaturalTech recebeu compradores, chefes de cozinha e gastrólogos, fornecedores de produtos e serviços do setor, profissionais de saúde, imprensa, universidades, escolas técnicas, órgãos de governo e consumidor final.

E foi justamente durante a pandemia que surgiu a iniciativa Amazônia em Casa Floresta em pé, voltada a buscar soluções de mercado para negócios de impacto amazônicos, que tiveram suas vendas reduzidas ou cessadas com a impossibilidade de deslocamento e as dificuldades com logística.

Surgida em 2020, inicialmente contava com 16 marcas amazônicas e hoje, transformada em um programa de acesso a mercados para negócios de impacto com atuação na Amazônia, já conta com 35 marcas, das quais 32 participam da NaturalTech.

Em 2022 foi lançada uma chamada para negócios interessados em se integrar ao programa, e os 20 selecionados começaram em maio sua jornada de capacitação prática, que dura seis meses e inclui a participação na NaturalTech. O objetivo é preparar e fortalecer as estratégias de cada marca na participação de campanhas, feitas e eventos, bem como o aprimoramento da inteligência logística e comercial e a promoção do intercâmbio entre os empreendedores de impacto com atuação na Amazônia.

A iniciativa Amazônia em casa Floresta em pé é coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), pela AMAZ Aceleradora de Impacto e pela Climate Ventures. Tem como apoiadores Mercado Livre, a maior plataforma de e-commerce da América Latina, Fundo Vale, GIZ, CLUA, Instituto humanize e Instituto Clima e Sociedade.

Quem comparecer à NaturalTech poderá conhecer de perto toda a diversidade de produtos e sabores da Amazônia trazidos por essas marcas e a potência desse arranjo, que busca reunir atores estratégicos e agir de forma colaborativa para superar gargalos e aumentar as vendas e o acesso a mercados destes empreendimentos.

Este artigo foi escrito por Mônica Ribeiro, jornalista, antropóloga e consultora da AMAZ Aceleradora de Impacto. Publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Foto: (André Dib/ WWF/Reprodução)

Adaptação aos riscos climáticos oferece oportunidades nas cidades da América Latina

Países latino-americanos encontram oportunidades financeiras em planos para uma recuperação econômica que incluem soluções baseadas na natureza

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)1 publicado em fevereiro de 2022, não nos traz alento. A partir dele constatamos que, apesar dos esforços para reduzir os riscos, as mudanças climáticas ainda ocasionam consequências sérias e negativas na natureza, atingindo grande parte da população mundial, pois entre 3,3 e 3,6 bilhões de pessoas vivem em áreas vulneráveis aos eventos extremos. No contexto local, o Brasil tem sido impactado por fortes chuvas que, além de perdas econômicas, resultaram em perdas de vidas humanas. Segundo estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM), nos últimos três anos as inundações contabilizaram um prejuízo de R$ 55 bilhões2, e nesse período, 637 pessoas morreram por causa dos desastres ocorridos na mesma intensidade que as chuvas registradas.

É possível ter expectativas de que algo mudará? De fato, vimos que as mudanças do clima também nos trazem oportunidades financeiras, algo importante em um cenário de recessão mundial causada pela pandemia de Covid-19. Alguns países latino-americanos traçam planos para uma recuperação econômica que incluem soluções baseadas na natureza. Temos como exemplo a Colômbia, que trabalham para restauração de áreas degradadas, arborização urbana e redução do desmatamento, além de empregar US$ 4,7 bilhões para acelerar 27 projetos de energia renovável, criando 55 mil novos empregos. No Brasil, o plano de recuperação verde traria em 2030 um aumento acumulado de até R$ 2,8 trilhões no PIB, comparando com a tendência atual (business as usual)4.

Está claro que os riscos climáticos impactam fortemente os países na América Latina. Em 2021, 297 municípios utilizaram o CDP-ICLEI Track para divulgar seus perigos e oportunidades relacionados à mudança do clima. Essas cidades concentram cerca de 163 milhões de habitantes, o que significa 25% da população da América Latina e Caribe5.

Desse total, 274 municípios reportaram pelo menos uma ameaça, totalizando 1.188 riscos relacionados à mudança do clima. Alguns foram agrupados, diferindo-se do questionário original, para permitir um olhar mais amplo de quais são as vulnerabilidades latino-americanas. E assim, tempestades (30%), inundações (15%), calor extremo (14%), escassez hídrica e secas (14%) e perigos biológicos (9%) foram elencados como os riscos mais iminentes na região.

E como as cidades da América Latina estão aproveitando as oportunidades? Ao menos 224 cidades mencionaram 871 oportunidades, exemplificando novos modelos de negócios sustentáveis. A maioria dessas melhorias foram identificadas em categorias como Gestão de resíduos (13%), Eficiência energética (10%), Projetos de resiliência climática (10%), Gestão da água (9%) e Risco reduzido para o capital natural (8%).

Foram essas análises, baseadas nas informações divulgadas pelas cidades no CDP-ICLEI Track, assim como os resultados do último relatório do IPCC, que nos mostraram como os municípios da América Latina têm um papel importantíssimo na busca de soluções e o quanto são capazes de suportar esses impactos, trazendo soluções sustentáveis que contribuam para que alcancemos a neutralidade de carbono até 2050.

Este artigo foi escrito por Andreia Banhe, gerente-sênior e Hannah Corina é assistente de Cidades, Estados e Regiões de CDP América Latina. Publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.
Imagem: (Prefeitura de Itu/Divulgação)

Nova iniciativa conecta empresas e fundos a startups boas para o clima

Greentechs receberão mentoria e treinamento para negociar com investidores e potenciais clientes

Não são todos os fundos de investimento ou grandes empresas que conseguem – ou desejam – colocar recursos em núcleos de inovação na área de sustentabilidade. Isso ocorre porque esse movimento demanda mais do que aporte financeiro. Exige também a criação de uma cultura que precisa ser orgânica para se tornar sustentável. Afinal de contas, núcleos de inovação não dependem somente de ideias disruptivas, mas de uma visão global de áreas específicas, que pode se mostrar inviável para muitas empresas, especialmente quando elas estão dedicadas a atender as demandas de seus respectivos negócios.

No entanto, para reduzir esse gargalo e fomentar soluções e negócios verdes, existe uma aposta cada vez maior na associação de fundos de investimento de impacto ambiental e empresas a startups que prometem acelerar a transição para uma economia regenerativa e de baixo carbono, as chamadas greentechs.

E o mercado já está se adaptando para oferecer ambientes de negócios onde encontros desse tipo possam acontecer. Um exemplo é o Conexões Onda Verde, iniciativa focada na ligação e geração de oportunidades de negócios entre startups de clima, grandes empresas e investidores institucionais. Diferente de outros projetos do tipo, o Conexões possui uma agenda de atuação exclusivamente voltada a ideias que tenham impacto no combate às mudanças climáticas. A iniciativa, que tem inscrições abertas até o dia 27 de junho, é o resultado de três anos de atuação do Climate Ventures no desenvolvimento de startups pertencentes ao setor, sendo que o próprio instituto é uma plataforma de inovação especializada em conectar organizações, governos, investidores e empreendedores em busca de um futuro melhor para o clima. O Fundo Ipu – Water & Sanitation Venture Philanthropy , que reúne investidores sociais para apoiar negócios de impacto ou organizações sociais que estejam desenvolvendo soluções voltadas para o setor de água e saneamento, também é um dos realizadores da iniciativa.

Oportunidades de negócios e troca de experiências
As relações construídas através do Conexões visam a geração de impacto positivo ao meio ambiente, mas, acima de tudo, a oportunidade de realização de negócios verdes, por meio da captação de recursos e aumento da receita dos participantes. Outro forte elemento promovido pela iniciativa é a troca de cultura corporativa entre as empresas e as greentechs. Quem investe pode ganhar com as novas ideias de se fazer e pensar um negócio apresentadas pelas startups, enquanto aqueles que recebem o aporte são positivamente impactados pela cultura empresarial e alta profissionalização dos processos do dia a dia de organizações e instituições de grande porte.

Da experiência das grandes, os novatos podem retirar lições importantes para salvá-los do temido Vale da Morte, período compreendido entre a data de criação de uma empresa e o momento em que ela atinge seu equilíbrio financeiro. Um estudo elaborado pelo Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, em 2015, estimou que uma em quatro novas empresas brasileiras não passa do primeiro ano de vida, e metade não chega até o quarto ano após a sua fundação.

Do outro lado, grandes empresas nunca contaram tanto com as startups para encontrar soluções inovadoras para seus ambientes de negócios. De acordo com relatório da Inside Venture Capital, da plataforma Distrito, no primeiro bimestre de 2022, foram realizadas 34 operações de fusões e aquisições no mercado brasileiro de startups, 14 a mais do que no mesmo período do ano passado. Outro dado impactante revela que, somente em fevereiro de 2022, as startups brasileiras receberam UR$ 763 milhões em investimento.

Grande parte desse montante ainda é direcionada para as fintechs, como são chamadas as startups voltadas para soluções financeiras, para as retailtechs, de varejo, ou para as foodtechs, de alimentação. No entanto, em face da emergência climática, esse cenário deve mudar em escala progressiva. O Relatório do Instituto Smart Prosperity mostra que as greentechs devem receber até US$ 3,6 trilhões em investimento em todo o mundo, até 2030. Outro estudo, realizado em 2021 pela State of Climate Tech, da consultoria PwC, aponta o investimento de UR$ 87,5 bilhões em tecnologia climática entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro de 2021, representando um crescimento de 210% sobre o mesmo período anterior.

Ou seja, o cenário para as parcerias entre empresas, investidores e startups de clima nunca esteve tão favorável e otimista. O intercâmbio entre a nova visão de mundo projetada pelas startups e a experiência daqueles que dominam cadeias complexas envolvendo fornecedores e sistemas de produção e distribuição, revela-se como um ambiente rico e produtivo, fundamental para gerar resultados efetivos para ambos os lados.

Como vai funcionar
O Conexões Onda Verde irá selecionar até 20 startups com maior potencial de impacto climático e de geração de negócios em função de setores chave, que vão desde agropecuária, água e saneamento, até florestas e uso do solo. Ao longo de quatro meses, as startups terão a oportunidade de se relacionar com as empresas e investidores, além de receber acesso a conteúdo e mentorias preparatórias para os encontros. A iniciativa também irá oferecer um prêmio de R$ 50 mil para a startup de destaque. As empresas e os investidores receberão acesso a relatórios exclusivos, com dados de agendas das áreas das startups participantes, além da participação de rodadas de negócios e do Demoday, dia das apresentações finais das startups.

Empresas como Ferrero, Itaú e Neoenergia, e investidores como Positive Ventures, Mirova, MOV, Din4mo e VOX já garantiram participação na iniciativa, que conta com o Fundo Vale e Instituto Clima e Sociedade como financiadores.

A realidade nos mostra que é cada vez mais urgente alcançar uma economia inclusiva, circular e regenerativa. E para que isso aconteça de verdade, criar pontes entre aqueles que podem investir e aqueles que precisam de investimento é de extrema importância para um futuro sustentável.

Este artigo foi escrito por Daniel Contrucci, diretor executivo da Climate Ventures. Publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Foto: depositphotos

Como você pode salvar a Amazônia comendo carne

Novo indicador vai ajudar o consumidor a escolher onde comprar seu bife comparando os níveis de controle e transparência dos frigoríficos e supermercados

Os consumidores mais atentos já sabem que a criação de gado é o principal motor do desmatamento da floresta amazônica. Segundo estudos o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do projeto Amazônia 2030, pastos para o gado cobrem cerca de 90% da área total desmatada, e mais de 90% do desmatamento total é ilegal.

Com as mudanças climáticas cada vez mais visíveis e o mundo todo de olho na Amazônia, os consumidores brasileiros não querem mais carne associada ao desmatamento em seus pratos. Em pesquisa inédita realizada pelo Reclame AQUI, 57% dos participantes afirmaram que a informação clara sobre a procedência da carne é um fator relevante na hora da decisão da compra e 40% que já deixaram de comprar carne de fabricantes associados ao desmatamento ou violação de leis ambientais.

No entanto, ainda é difícil para a maioria das pessoas que vai a um supermercado ou açougue saber de onde vem aquela carne e se ela não impactou no desmatamento da Amazônia durante a sua produção. Para ter certeza de que aquele boi não pastou em áreas desmatadas ilegalmente, é preciso monitorar toda a cadeia produtiva, começando pela fazenda onde nasce o bezerro e seguindo por todo o caminho que o produto faz até chegar à mesa das pessoas.

Todas as pessoas que responderam à pesquisa do Reclame AQUI disseram que gostariam de ter acesso a indicadores transparentes sobre as políticas de sustentabilidade dos fabricantes de carne. A boa notícia é que, pela primeira vez, os consumidores terão uma ferramenta que vai ajudá-los a diferenciar uma empresa da outra: o Radar Verde.

Trata-se de um indicador que irá apontar para os consumidores quais frigoríficos e redes varejistas demonstraram melhor controle e transparência sobre sua cadeia de produção. A iniciativa foi lançada nesta quarta-feira (27/4) pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto O Mundo Que Queremos e será realizada anualmente.

Segundo a pesquisa do Reclame AQUI, que foi encomendada pelo Radar Verde, 58% dos consumidores brasileiros acham que a informação clara sobre a procedência da carne é um fato relevante na hora da decisão de compra. Além disso, 79% avaliam que quem vende a carne bovina (supermercados e frigoríficos) deve ser responsável por verificar se a produção causou ou está relacionada com o desmatamento. Por isso, o Radar Verde identificou 113 frigoríficos com unidades ativas na Amazônia e os 70 maiores varejistas do país, segundo o ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), um questionário para avaliar seu grau de transparência e controle sobre a cadeia de produção. Além disso, as empresas também terão que enviar evidências que comprovem as políticas descritas.

Esses dados vão gerar um índice, exposto em uma plataforma digital, que será uma ferramenta para os consumidores escolherem de onde querem comprar a carne que consomem; e para a sociedade como um todo compreender melhor sobre a cadeia produtiva da carne.

O novo indicador será fruto de uma avaliação anual que visa mostrar aos consumidores o quanto os estabelecimentos estão engajados no combate ao desmatamento da Amazônia e como esses estabelecimentos estão aprimorando suas técnicas de rastreio e auditoria ao longo dos anos. Uma empresa não será comparada com a outra, mas sim o aprimoramento de suas políticas anualmente. Participar da avaliação é vantajoso para a empresa porque é uma forma de demonstrar o seu avanço na aplicação de políticas e ações em compromisso contra o desmatamento na Amazônia Legal e também de acompanhar o seu próprio desenvolvimento anualmente através do índice.

Já temos, há anos, tecnologia para possibilitar esse controle. O próprio Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos (SISBOV), usado por produtores que vendem para mercados mais exigentes, como o da União Europeia, consegue, por meio de um dispositivo eletrônico um completo histórico de por onde cada animal passou ao longo da vida. E há outros exemplos de sucesso e sistemas próprios por meio dos quais algumas empresas já estão vendendo – e sem cobrar mais caro por isso – carne 100% livre de desmatamento. Mas, a experiência mostra que, enquanto tiverem quem compre, os produtores seguirão postergando as adaptações necessárias para a transparência da origem da carne.

É aí que entra o Radar Verde. Com o índice, o consumidor poderá exercer seu poder de compra consciente de quais empresas demonstraram maior ou menor transparência e controle na cadeia da carne que vendem. E as empresas, para não perderem esse clientes, vão ter que cobrar de quem vende para elas um controle melhor. Mais de 70% dos consumidores disseram que estão dispostos a deixar de comprar em supermercados e frigoríficos que não conseguem garantir a procedência da carne que vendem. O Radar Verde vai ajudá-los mostrando quem faz isso melhor.

Foto: Paulo Barreto/Reprodução

Este artigo foi escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Brasileiros lançam alimento funcional bom para a saúde e para a floresta

Empresários criam alimento que vale por uma refeição usando ingredientes sustentáveis da Amazônia fornecidos por pequenos produtores locais

As pessoas estão cada vez mais escolhendo consumir produtos de negócios que se preocupem com o futuro da humanidade, consumindo alimentos que garantem uma vida mais sustentável, com valor agregado. Apesar disso, essa mudança de mentalidade na nutrição mundial ainda precisa quebrar alguns paradigmas, como o de produzir monoculturas com base na derrubada de florestas e sem considerar questões socioambientais. Não se trata apenas de jogo de marketing: os negócios que irão prosperar no futuro são os que desde já promovam ganhos econômicos, ambientais e sociais, tudo ao mesmo tempo. Uma adaptação promissora e que já surte efeitos positivos é a que leva a produção agrícola para sistemas agroflorestais, baseados na integração, no equilíbrio e na preservação dos recursos naturais. Uma adaptação que significa evolução.

Foi sabendo dessa demanda por alimentos naturais, da importância de se produzir alimentos ricos para a saúde humana e ambiental e da necessidade urgente de parar de destruir, que os sócios Max Petrucci e Edgard Calfat criaram a MAHTA – Nutrição regenerativa da floresta. A startup se propõe a ajudar a reinventar o sistema de produção e consumo de alimentos no Brasil e no mundo, colocando a floresta amazônica como uma plataforma para essa reinvenção. Mais do que vender alimentos, o negócio visa a construção de um novo modelo mental fundado em uma ciência mais sistêmica do que simplesmente mecanicista.

O produto desenvolvido na Mahta é um alimento em pó feito de produtos da Amazônia, que substitui uma refeição. É um superfood (superalimento), termo criado para designar alimentos que dispõem de ingredientes com uma grande quantidade de nutrientes, muito maior do que a média. O processo de preparo desse pó é denominado liofilização, o mesmo utilizado pela NASA para nutrir seus astronautas em missões espaciais. O diferencial está na origem dos produtos: todos os ingredientes que compõem o produto são provenientes de comunidades tradicionais da região amazônica e de pequenos agricultores que operam no modelo SAFs (Sistemas Agroflorestais).

Insegurança alimentar e modo de produzir
Hoje o mundo produz alimento suficiente para alimentar toda a população humana. Apesar disso, segundo o relatório da ONU “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo” de 2021, um décimo da população global (até 811 milhões de pessoas) estava desnutrida em 2020. Isso é resultado da má distribuição e da destruição das cadeias tradicionais de produção (que geralmente respeitam os recursos naturais). Ainda segundo o estudo, os impactos negativos para a saúde humana e ambiental da produção descuidada de alimentos são grandes. Os sistemas alimentares são responsáveis por 70% da água extraída da natureza, causam 60% da perda de biodiversidade e geram até um terço das emissões humanas de gases de efeito de estufa. Produzir alimentos de forma sustentável, aproveitando a floresta em pé, conserva os recursos naturais, emprega mais pessoas, gera mais renda, gera uma renda mais distribuída, mantém laços tradicionais de conexão entre as comunidades e a natureza e ainda oferece uma diversidade maior de produtos

O propósito da Mahta ao produzir o superfood a partir de alimentos originários da Amazônia é reconectar a humanidade com a floresta, levando inovação para uma plataforma de suprimentos. “O que fazemos é combinar a sabedoria ancestral da floresta e de seus povos originários com produtos que melhoram a nutrição, a condição de vida das comunidades locais e a regeneração da floresta. Depois de um ano e meio de pesquisa, chegamos a um produto testado, avaliado, pronto para ser vendido e consumido e para começar a causar um impacto positivo em diferentes níveis”, explica Max Petrucci, sócio fundador. A Mahta adquire ingredientes como cacau, cupuaçu, açaí, coco, castanha-do-pará, taperebá, bacuri, graviola e cumarú, de pequenos produtores da Amazônia, como os da Associação dos Pequenos Agrossilvicultores e Cooperativa Agropecuária e Florestal do Projeto RECA, de Rondônia, e da Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam), do norte de Mato Grosso.

A abertura das vendas do superalimento da Mahta começou na quinta-feira (dia 14 de abril de 2022) no site oficial. Já no canal do YouTube, é possível assistir à websérie “Sistema Regenerativo da Floresta”, que fala dos princípios regenerativos necessários para gerar o impacto positivo para quem consome, quem produz e quem habita o planeta, ou seja, na cadeia socioambiental da Amazônia.

Foto: Max Petrucci e Edgard Calfat criadores da MAHTA (MAHTA/Divulgação)

Este texto foi, originalmente, publicado na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Pequenos produtores dependem de financiamento

O objetivo de redução de disparidades econômicas e sociais tem se perdido com o afrouxamento das regras para receber o benefício

O Brasil é central para a segurança alimentar, serviços ambientais e conservação das florestas e da biodiversidade. O país é o terceiro maior produtor agropecuário e o maior exportador líquido do mundo, segundo dados da FAO. Políticas adequadas para o financiamento da atividade rural podem contribuir para modernizar e intensificar a produção agropecuária, gerando maior eficiência no uso de recursos naturais. Desde a década de 1960, o crédito rural é a política brasileira mais relevante para o setor, sendo fundamental para o financiamento do agronegócio.

Pesquisas do Climate Policy Initative/Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CPI / PUC-Rio) sugerem que uma maior oferta de crédito rural muda as decisões de produção, levando a aumentos na produtividade da terra e a menor expansão da área destinada à agropecuária, reduzindo pressões por desmatamento. Essa análise mostra também que os impactos de maior intensificação agrícola e melhor uso da terra estão mais diretamente associados ao crédito direcionado a pequenos produtores.

Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os Fundos Constitucionais de Financiamento (FCFs) são relevantes para o setor rural ao prover crédito para produtores e municípios que não possuem fontes alternativas de recursos. Entre os anos agrícolas de 2013/14 e 2020/21, cerca de 78% dos municípios da região de abrangência do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE), 59% dos municípios do Fundo Constitucional do Norte (FNO) e 9% dos municípios do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) tinham esses fundos como principal fonte de crédito rural.

Os FCFs foram criados com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social dessas três regiões historicamente desfavorecidas, fortalecer pequenos e mini produtores e reduzir disparidades de renda intra-regionais. No entanto, os FCFs têm falhado em atender essas questões. Em um trabalho publicado recentemente pelo CPI/PUC-RIO, mostramos que as regras de definição de beneficiários prioritários, apesar de aparentemente alinhadas com os objetivos da política, são muito frouxas. Com isso, não existe uma priorização real na alocação dos recursos.

De fato, os FCFs consideram como produtores prioritários aqueles classificados até pequeno-médio porte, definidos como os que possuem renda bruta anual de até R$ 16 milhões. Usando dados do Censo Agropecuário de 2017, verificamos que 99,96% dos estabelecimentos das regiões dos FCFs possuem receitas que os qualificam como beneficiários prioritários. Dessa forma, praticamente todos os estabelecimentos rurais das regiões atendidas são enquadrados como prioridade.

A classificação de porte dos produtores nos FCFs difere significativamente daquela usada para as demais linhas de crédito rural. Pelo Manual do Crédito Rural do Banco do Central, os pequenos produtores são os que possuem renda bruta anual até R$ 500 mil, enquanto os FCFs consideram mini/pequenos produtores os que têm renda até R$ 4,8 milhões. Os produtores classificados como pequeno-médio pelos FCFs, categoria que não existe para as demais linhas de crédito rural, têm renda bruta entre R$ 4,8 milhões e R$ 16 milhões. Esses produtores de pequeno-médio porte são prioritários para o direcionamento de recursos dos FCFs, mesmo sendo considerados grandes pela classificação do Banco Central. Portanto, a priorização de produtores nos FCFs é perdida com critérios frouxos para a definição de porte.

Cabe destacar que esses critérios de priorização foram ficando mais permissivos ao longo dos anos, contribuindo para a concentração dos recursos dos fundos, evidenciada pelo aumento do valor médio dos contratos. Por exemplo, até 2010, a prioridade era dada para produtores até pequeno porte, definidos como tendo renda bruta anual até R$ 300.000. Em 2011, foi criada a nova classe prioritária de porte pequeno-médio e os beneficiários com renda bruta anual até R$ 16 milhões também passaram a ser considerados prioritários.

O segundo tipo de priorização dos FCFs é a espacial e apresenta problemas semelhantes. A maior parte dos municípios das regiões de abrangência dos fundos são classificados como prioritários. Há diversos critérios usados para priorização de municípios: semiárido, regiões integradas de desenvolvimento (RIDES), faixa de fronteira e municípios até média renda pela tipologia da Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR). No trabalho, constatamos que os municípios prioritários representam 97%, 93% e 56% do total de municípios do FNE, FNO e FCO, respectivamente. Novamente, a abrangência das prioridades espaciais dificulta a focalização dos recursos.

Ainda assim, os recursos dos FCFs são relevantes para localidades com pouca oferta de crédito. Em contraste com a região Centro-Oeste, onde a disponibilidade de crédito rural é maior, as regiões Norte e Nordeste têm poucas fontes de recursos para o crédito rural. De fato, 77% dos municípios da região de abrangência do FNE e 59% da região do FNO têm os FCFs como principal fonte de recurso.

É importante que a política pública tenha objetivos bem definidos e socialmente relevantes. Os FCFs buscam contribuir para o desenvolvimento econômico e social das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mas as regras frouxas para priorizar recursos dificultam a redução das desigualdades intra e entre regiões. Há, ainda, uma multiplicidade de regras e variações frequentes que geram imprevisibilidade da disponibilidade de recursos. Portanto, uma redefinição dos critérios e uma simplificação das regras podem proporcionar tanto uma melhor aplicação dos recursos como em uma melhor compreensão e avaliação do direcionamento da política.

Este artigo foi escrito por Priscila Souza, coordenadora de Avaliação de Políticas e Instrumentos Financeiros do CPI/PUC-Rio e Leila Pereira é Analista Sênior, do CPI/PUC-Rio. Publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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Radar Verde: Iniciativa que vai trazer mais transparência para a cadeia da carne será lançada no dia 27 de abril

São grandes as chances de que a carne que você – e o resto do mundo – come venha de um animal que pastou onde um dia já foi floresta amazônica. Isso porque boa parte das áreas de floresta desmatadas nas últimas décadas foram, inicialmente, destinadas a abrir espaço para o gado.

Os consumidores têm papel importante e podem ajudar a frear o desmatamento na maior floresta tropical do planeta exigindo que a carne bovina que comem não venha de áreas de desmatamento. Mas, para garantir a origem da carne, é preciso monitorar toda a cadeia produtiva, começando pela fazenda onde nasce o bezerro e seguindo por todo o caminho que o produto faz até chegar à mesa das pessoas. Por isso, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e O Instituto O Mundo Que Queremos estão desenvolvendo um novo indicador público de transparência e controle da cadeia de produção e comercialização de carne bovina no Brasil: o Radar Verde, que será lançado no dia no dia 27 de abril, às 9h30, com transmissão pelo Youtube.

Para participar do evento e também receber mais informações sobre a pesquisa e a iniciativa, inscreva-se aqui.

58% dos brasileiros querem saber se a carne que consomem está relacionada com o desmatamento da Amazônia

O Brasil é um dos maiores produtores globais de carne bovina. Mais de 40% do nosso rebanho está localizado nos estados que compõem a Amazônia Legal, e os brasileiros estão preocupados com isso. De acordo com uma pesquisa, encomendada pelo Radar Verde e realizada pelo Reclame AQUI, os brasileiros acham importante rastrear a carne que consomem.

Mais de 40% dos entrevistados responderam que já deixaram de comprar carne de fabricantes associados ao desmatamento ou violação de leis ambientais e 58% afirmaram que a informação clara sobre a procedência da carne é um fato relevante na hora da decisão da compra. Além disso, a maioria (79%) afirmou que quem vende a carne bovina (supermercados e frigoríficos) deve ser responsável por verificar se a produção causou ou está relacionada com o desmatamento.

Os consumidores também responderam sobre que tipo de garantia seria suficiente para que eles confiassem que a produção da carne consomem não está associada ao desmatamento. Todos afirmaram que gostariam de ter acesso a indicadores transparentes sobre as políticas de sustentabilidade dos fabricantes de carne.

O déficit de transparência e controle dessa cadeia produtiva deve afetar cada vez mais as vendas das empresas. Entre os mais de 9 mil consumidores que responderam à pesquisa, 4.008 disseram que já deixaram de comprar carne de fabricantes publicamente associados ao desmatamento e 43% afirmaram que a marca da carne é um fator importante na hora da escolha.

Caso a rastreabilidade fosse regra, 73% dos consumidores disseram que deixariam de comprar em supermercados e frigoríficos que não conseguem garantir a procedência da carne que vendem e que a produção não causou desmatamento.

Mais dados inéditos serão revelados no lançamento oficial do indicador.

Metodologia da pesquisa
A pesquisa foi aplicada pelo Instituto Reclame AQUI nos dias 16, 17 e 18 de novembro de 2021 e respondida por 9.832 usuários. O formulário de perguntas foi publicado no site do Reclame AQUI em todas as áreas de acesso aos consumidores, exceto na área de reclamações. Puderam responder à pesquisa todos os consumidores que acessaram a plataforma.

O Radar Verde
Idealizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e O Instituto O Mundo Que Queremos, o indicador vai mostrar para os consumidores quais frigoríficos e redes varejistas têm melhor controle e transparência sobre sua cadeia de produção, a fim de garantir que a carne que vendem não causou desmatamento na Amazônia, nem direta, nem indiretamente.

Programação do evento de lançamento

Acabar com a grilagem é o melhor jeito de salvar a pecuária e a Amazônia

O roubo de terras públicas, que gera o desmatamento, ameaça a reputação dos frigoríficos e desestimula os fazendeiros a investir em produtividade

O desmatamento na Amazônia é o efeito colateral de uma grande operação de roubo de terras públicas. Os invasores (também chamados de grileiros) usam o gado para ocupar a área desmatada e dar a ela uma aparência de terra produtiva. Esse gado em área invadida entra na cadeia de fornecimento das grandes empresas de carne do Brasil. Quem cria gado em terra pública invadida concorre de forma desleal com pecuaristas que atuam em terras próprias e sujam a imagem do setor agropecuário. É fundamental acabar com a grilagem e expulsar os bandidos das cadeias de fornecimento de carne para que a pecuária brasileira possa se desenvolver. Além disso, é necessário evitar que as terras públicas na região continuem sendo alvo de um ciclo de invasão, desmatamento, anistia à ocupação ilegal e titulação da terra.

Entre 2019 e 2021, o desmatamento médio na Amazônia brasileira cresceu 56,6% em comparação às taxas 2016-2018, como mostra Paulo Moutinho em “Destinação de Florestas Pública: Um meio de combate à grilagem e ao desmatamento ilegal na Amazônia”. A pesquisa é mais um estudo elaborado pela Amazônia 2030, iniciativa de pesquisadores brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia, e mostra que nos últimos três anos, mais da metade do desmatamento ocorreu em terras públicas.

Os desmatadores também atacam Unidades de Conservação (como Parques Nacionais e Reservas Extrativistas) e Terras Indígenas. Mas o principal alvo dos bandidos são as florestas que ainda não ganharam nenhum tipo de proteção, mesmo que no papel. As chamadas Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs). Ao todo, 30% de toda a destruição florestal ocorreu em áreas com situação fundiária indefinida. São florestas que aguardam destinação – e enquanto isso sofrem com grilagem avançando a passos largos. Até 2020, 3,4 milhões de hectares tinham sido desmatados ilegalmente.

Logo, para que esse combate seja promissor, não basta apenas pensar em políticas fundiárias: é necessário eliminar da legislação incentivos para a grilagem e a destruição florestal. Muitos dos mecanismos que ajudam os bandidos estão nas leis sob o pretexto de ajudar a regularização dos pequenos produtores, como apontam os pesquisadores Brenda Brito, Jeferson Almeida e Pedro Gomes, no estudo: “Legislação Fundiária Brasileira Incentiva Grilagem e Desmatamento na Amazônia”.Ao contrário do que pensa o senso comum, regularizar terras recém-ocupadas e desmatadas tem efeito oposto ao que se busca. O ajudar os invasores, estimula: mais invasão de terra pública e maior desmatamento futuro. É como colocar um prêmio na mão de quem é culpado: é parabenizar desmatadores e reforçar o ciclo de grilagem.

Sem falar que essa mecânica de destruição e grilagem também é ruim para a pecuária. Primeiro, os grileiros usam bois para ocupar a terra e o gado acaba entrando na cadeia de fornecimento das grandes empresas. Nenhum frigorífico brasileiro consegue hoje dizer que está livre de desmatamento ilegal ou grilagem entre os fornecedores, embora estejam em diferentes graus de empenho em tentar se livrar deles. O resultado disso são pressões por boicote à carne do Brasil, a exemplo dos supermercados europeus e fabricantes de alimentos que deixaram de vender carnes bovinas brasileiras após denúncias de destruição da Floresta Amazônica.

Para intensificar a pecuária e evitar a necessidade de mais desmatamento, é preciso tirar a competição de quem invade terras públicas. Paulo Barreto, responsável pelo estudo “Políticas para desenvolver a pecuária na Amazônia sem desmatamento”, pesquisa que também faz parte do Amazônia 2030, defende que o único jeito de tornar viável o aumento da produtividade da pecuária é, justamente, se livrar do crime, da grilagem, de fornecedores ilegais que usam o boi para ocupar terra pública invadida, grileiros que lucram ao vender a terra ou usando-a sem pagar aluguel.

A região pode produzir mais sem desmatar, empregando técnicas e recursos financeiros já disponíveis. Para isso, são necessárias políticas públicas que possam frear o desmatamento e garantir que a pecuária na região se torne mais eficiente. É preciso aumentar sua produtividade e começar a usar os pastos degradados que já existem no Brasil. O tamanho dessa região equivale a todo o sul do Brasil, mais São Paulo e Rio de Janeiro, e não é usada porque vale mais a pena invadir terra pública nova. É simples: atualmente, a grilagem dá mais dinheiro do que aumento da produtividade da pecuária.

Para criar segurança na região, a titulação de terras deve reconhecer o direito daqueles que aguardam há décadas pelo recebimento de um título de terra, cumprindo os outros requisitos legais. E punir as quadrilhas que ocupam terras públicas. Trata-se de separar a demanda legítima da que é ilegal. De um lado, titular áreas ocupadas de acordo com a lei. Além disso, é fundamental alterar as leis estaduais que permitem que uma terra invadida e desmatada hoje possa ser transferida legalmente amanhã para os criminosos.

Enquanto for competitivo, atraente, e legalmente garantido, vai ser muito difícil – para não dizer impossível – convencer alguém a aumentar a produtividade da área existente ou reaproveitar a área desperdiçada.

Iniciativas como a campanha Seja Legal com a Amazônia ainda vão além no sentido de propor quem pode fazer algo a esse respeito. Para elas, esta é uma discussão que precisa envolver também o setor financeiro: de bancos a fundos de pensão. Isso porque existe um papel fundamental desses atores na proteção da Amazônia, e que não exclui ganhos financeiros. Ao investir em uma terra na região, o investidor corre o risco imenso de financiar a compra de uma terra pública, manchada pelo desmatamento ilegal, uma vez que não há garantias no que diz respeito à regularização ambiental e fundiária de uma propriedade nas atuais condições. Contaminar oportunidades de investimentos com desmatamento ilegal não é interessante para absolutamente ninguém e todos os envolvidos na cadeia precisam assumir sua cota de responsabilidade.

Este artigo foi escrito por Alexandre Mansur e, originalmente, publicado na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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Riscos climáticos e o futuro do setor de seguros e previdência

SUSEP lança consulta pública para fomentar atuação mais sustentável do mercado segurador

Rebeca Rocha, Miriam Garcia e Gustavo Pinheiro*

O recente ‘boom do ESG’ surgiu como uma resposta à forma como a degradação ambiental tem afetado o sistema financeiro: estima-se que eventos climáticos catastróficos, potencializados pela mudança do clima, tenham causado perdas ao setor de seguros superiores a US$ 105 bilhões em 2021, apenas nos Estados Unidos.

Os riscos relacionados à mudança do clima já são uma realidade, e reguladores em todo o planeta já acordaram para os potenciais impactos sistêmicos da crise climática. Há uma corrida em curso no sistema financeiro global, e os avanços regulatórios começam a ser acompanhados pelos reguladores brasileiros.

Em setembro do ano passado, o Banco Central promulgou um pacote de regulações para a integração de riscos climáticos, sociais e ambientais pelas instituições financeiras. Três meses depois, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fez um primeiro movimento para orientar a divulgação de informações por empresas listadas em bolsa sobre aspectos ESG.

O setor de seguros brasileiro agora dá o primeiro passo através da consulta pública lançada pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) no fim de 2021 e que apresenta requisitos de sustentabilidade a serem observados pelas sociedades seguradoras, entidades abertas de previdência complementar (EAPCs), sociedades de capitalização e resseguradores locais. O prazo para contribuições para a consulta pública se encerra na próxima segunda-feira (07/03).

A minuta de circular proposta pela SUSEP é positiva ao integrar riscos relacionados à clima, sociais, ambientais e de sustentabilidade ao arcabouço de gestão de riscos de seus regulados. O texto também trata da Política de Sustentabilidade e das diretrizes para o Relatório de Sustentabilidade que deverá ser publicado pelas reguladas. O nível de exigência varia de acordo com o porte da instituição, e também determina requisitos obrigatórios e facultativos.

A SUSEP cumpre seu papel ao criar apetite institucional para a integração da gestão de riscos e a identificação de oportunidades. Responde ao desafio de preparar o setor para os impactos da crise climática e assim contribuir para a estabilidade financeira. A formalização das práticas ESG inaugurará uma dinâmica de incentivos e possibilitará a responsabilização de atos em desconformidade.

A regulação proposta segue recomendações da Força-Tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), criada no contexto do G-20 para a divulgação de informações mais completas e estruturadas para riscos climáticos. Todavia, tal qual feito pelo Banco Central, adota-se o princípio de “TCFD ampliada”, em que o framework é adaptado à divulgação dos demais riscos, uma inovação brasileira.

O alinhamento das regulações financeiras à TCFD é essencial, mas não suficiente. Apesar de positiva, não está alinhada aos padrões de ambição recomendados pela ciência. Na trajetória de divulgação de informações corporativas, riscos climáticos são a porta de entrada para uma compreensão mais profunda dos impactos dos negócios sobre as pessoas e o planeta.

Na versão atual, apesar da menção a projeções de longo prazo, não é sinalizada ou encorajada a definição de planos de transição compatíveis com o cenário de 1,5ºC, conforme recomendado pela melhor ciência disponível. Tal condição é indispensável para que alcancemos os objetivos do Acordo de Paris, limitando o aquecimento global ao teto de 1.5oC até o fim deste século e evitando as piores consequências da mudança do clima. Este limite deve ser perseguido para otimizarmos as chances de limitar perdas e danos para os ecossistemas, a sociedade e a economia. Requer que todos os atores econômicos alcancem emissões líquidas zero (net-zero) até 2050, e requer que na segunda metade do século a economia global seja capaz de capturar parte dos gases de efeito estufa da atmosfera do planeta.

O texto proposto pela SUSEP também peca ao não obrigar a divulgação das metas utilizadas pelas reguladas para avaliar e gerir riscos e oportunidades relacionados às mudanças climáticas. Tampouco requer a divulgação da performance da instituição no cumprimento de suas metas. A divulgação de metas pelas reguladas é fundamental para a transparência e o monitoramento de ações climáticas e deveria ser incluída na versão final da regulação a ser promulgada.

O informe de oportunidades no relatório de sustentabilidade também foi colocado como opcional, seguindo um perigoso precedente estabelecido pelo Banco Central. A TCFD baseia-se no binômio risco-oportunidade e na falta de detalhamento sobre que oportunidades o negócio identifica na transição para uma economia de baixo carbono lega aos investidores e outros usuários da informação divulgada uma imagem incompleta da situação e sobre a estratégia da empresa.

O caminho da regulação

A SUSEP foi o primeiro regulador brasileiro a comprometer-se a promover o diálogo sobre a TCFD e a atender às suas recomendações, poucos meses depois de seu lançamento. Plataformas de divulgação ambiental corporativa, como o CDP, também estão alinhadas às recomendações desde 2018. Especialmente as reguladas de maior porte já se encontram familiarizadas com essas exigências e poderiam inclusive antecipar os prazos de implementação propostos pela SUSEP.

A publicação da circular da SUSEP para integração dos riscos de sustentabilidade, com destaque para os riscos climáticos, é um primeiro, forte e claro sinal para o mercado de seguros sobre a necessidade de se buscar uma economia descarbonizada e resiliente. Apesar disso, ainda há necessidade de aprimoramento do texto proposto, eliminando lacunas, evitando brechas e fortalecendo os instrumentos que promovam a ação climática alinhada à melhor ciência disponível.

Ao promover a efetiva integração desses riscos nos processos de gestão e de governação das reguladas, a SUSEP fomentará tomadas de decisão ótimas, que consideram as variáveis sociais, ambientais e climáticas. Isso mitigará riscos e ampliará as oportunidades para que o mercado de seguros se desenvolva no país evitando as armadilhas da crise climática.

O desafio colocado para o setor de seguros neste século é sem precedentes, a regulação é o primeiro passo de uma jornada que se desenvolverá com a implementação das novas regras e sua revisão periódica para adequação aos desdobramentos da crise climática. O futuro do setor depende das decisões dos reguladores e da qualidade da implementação pelas reguladas.

*Rebeca Rocha é analista de Finanças Sustentáveis do CDP América Latina; Miriam Garcia é gerente sênior de Políticas Públicas do CDP América Latina; e Gustavo Pinheiro é coordenador do Portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Este artigo foi publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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