Cerimônia de premiação do Melhores ONGs 2021 já tem data

Anúncio das 100 melhores organizações do terceiro setor do país será no dia 9 de dezembro, com transmissão pelo youtube do Futura

Quem está ansioso para conhecer o resultado da edição 2021 do Prêmio Melhores ONGs agora já tem uma data pela qual esperar: a cerimônia está marcada para o dia 9 de dezembro, às 18h, com transmissão pelo youtube do Canal Futura. É durante o evento que finalmente serão conhecidas as 100 melhores, os destaques nas categorias especiais, além da melhor ONG entre todas.

A novidade deste ano é o reconhecimento da melhor de cada estado. Já são reconhecidas: a melhor de todas, as 100 melhores do país, a melhor de cada causa, as dez melhores de pequeno porte e a melhor entre elas.

Em 2021, apesar da continuidade das dificuldades impostas pela pandemia, tivemos um número recorde de inscrições: 1033 organizações. Dessas, 527 passaram para a segunda fase. Nesse momento, nossa banca avaliadora, formada por professores, doutorandos, mestrandos da FGV, jornalistas e lideranças sociais, está avaliando as respostas dos questionários da segunda fase para então decidir quais são as organizações que mais se destacaram nesta edição.

O Prêmio
O Prêmio Melhores ONGs é realizado pelo O Mundo que Queremos, pelo Instituto Doar e pelo Ambev VOA, com apoio de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Humanize e do Futura. Reconhece, desde 2017, o trabalho fundamental prestado pelas instituições não-governamentais no Brasil e também funciona como um farol para orientar doações, alcançando grande visibilidade no setor, na medida em que se consolida como a principal referência em ONGs no país.

A intenção, além de reconhecer a relevância dos trabalhos prestados, é incentivar boas práticas em quesitos como governança, transparência, comunicação e financiamento, contribuindo também para a melhoria na gestão de todas as participantes. Por isso, desde 2019, todas as organizações participantes, inclusive as que não passaram da primeira fase, recebem devolutivas detalhadas com dicas práticas para melhorarem suas gestões.

Foto: Pessoas foto criado por kroshka__nastya – br.freepik.com

Em ação inédita, árvore ameaçada de extinção consegue refúgio na Embaixada da Noruega

Jatobá de seis metros de altura foi levado à porta da embaixada em mobilização contra a aceleração do desmatamento

Brasília, 21 de setembro de 2021 – Um jatobá de seis metros de altura, espécie ameaçada de extinção, teve seu pedido de refúgio aceito na manhã desta terça-feira na Embaixada da Noruega. A iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e do Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Social buscava chamar a atenção pública mundial para a destruição em curso acelerado dos biomas brasileiros, em especial da Floresta Amazônica.

A árvore foi levada à entrada da embaixada, onde Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib, leu uma carta com um pedido de socorro. O apelo foi aceito e o jatobá foi transportado para dentro do espaço da representação norueguesa. Trata-se de um acolhimento simbólico para representar a luta de ambientalistas pela preservação da nossa floresta.

Segundo definição do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (ACNUR), refugiados são aqueles que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição, como também devido à grave e generalizada violação de direitos e conflitos. A escolha pelo pedido de refúgio na Embaixada da Noruega é por ser o primeiro país a proibir o desmatamento.

“Esse pedido de refúgio pode parecer estranho ao homem branco que vive apartado do mundo natural e se considera acima das árvores, mas a ancestralidade sempre ensinou que o sentido da vida é o coletivo. Esse pedido é um clamor pela vida de todas as espécies ameaçadas por uma visão corrompida e ultrapassada de convívio com a natureza”, alertou Sonia Guajajara.

As espécies de plantas e animais dos biomas brasileiros, nesta ação representadas por um jatobá, estão sob ameaça. Estudo recente publicado na revista científica Nature revela que o fogo na Amazônia, provocado pela ação humana, pode ter atingido 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas da floresta tropical. O desmatamento fora de controle aproxima a maior floresta tropical do mundo do seu ponto de não retorno. Se o ritmo atual de devastação for mantido (ou aumentar), este “ponto de não retorno” pode chegar já em algum momento entre 15 a 30 anos, como vem alertando o climatologista brasileiro Carlos Nobre.

“Esse inusitado pedido de refúgio mostra a gravidade da situação de milhões de árvores e outras formas de vida que estão sendo exterminadas sem ter a quem recorrer no Brasil, onde autoridades responsáveis por sua proteção muitas vezes estão aliadas aos destruidores. Cabe a nós, cidadãos, nos posicionarmos em defesa dessa e de milhões de árvores em busca de uma solução, que começa pela implementação da ‘5 medidas emergenciais de combate ao desmatamento’; o que permitirá que milhões de árvores, nossas florestas e seus habitantes possam viver em paz no Brasil, prestando seus relevantes serviços climáticos para nós e todo o planeta”, afirmou Sérgio Guimarães, Secretário Executivo do GT Infraestrutura.

A ação visa também justamente retomar as “Cinco Medidas Emergenciais para Combater a Crise do Desmatamento na Amazônia”, propostas por mais de 60 organizações e coletivos da sociedade civil brasileira. Elas incluem, além da moratória ao desmate, o endurecimento das penas aos crimes ambientais, inclusive o bloqueio de bens dos 100 maiores desmatadores da Amazônia; a retomada imediata do PPCDAm — o plano de controle do desmatamento que vigorou por cinco mandatos presidenciais até ser engavetado por Jair Bolsonaro; a demarcação de terras indígenas, a titulação de territórios quilombolas e criação de 10 milhões de hectares em unidades de conservação; e a reestruturação do Ibama, do ICMBio e da Funai, desarticulados e aparelhados pelo atual governo.

A íntegra do documento está publicada no site www.arvorerefugiada.com.br e chama para a assinatura de uma petição pelo fim do desmatamento. A campanha tem ainda o apoio da Climate Reality Brasil, organização com o objetivo de informar a sociedade sobre os efeitos das mudanças climáticas no planeta, e da Amazon Watch, organização sediada na Califórnia que trabalha há 25 anos junto a povos indígenas no Brasil, Peru e Equador na proteção da Amazônia.

“Nosso meio ambiente está sob ataque de pessoas e estruturas que deveriam protegê-lo. Precisamos chamar a atenção para essa tragédia em curso, e mobilizar muito além da comunidade internacional para reverter esse cenário”, disse Renata Moraes, gerente do Climate Reality Brasil.

Conheça mais no site www.arvorerefugiada.com.br

Imagens: Estevão Ciavatta

Três negócios com ideias inovadoras contra o desperdício

As finalistas regionais da competição ClimateLauchpad mostram soluções para o uso mais eficiente de recursos naturais e econômicos

Para enfrentar uma situação de crise econômica como a atual do Brasil, uma medida sempre bem-vinda é acabar com os desperdícios. Todo tipo de desperdício, inclusive o de recursos naturais. Usar os recursos de forma eficiente – seja matéria-prima, energia ou mesmo tempo das pessoas – está intimamente ligado a um melhor resultado econômico. A boa notícia é que os empreendedores têm soluções criativas para reduzir vários desperdícios. Seus negócios promovem um uso mais inteligente do que temos. Ajudam a garantir maior retorno hoje, melhor qualidade de vida agora e geram mais segurança para nosso futuro.

Três startups com negócios contra o desperdício foram as vencedoras da final nacional da ClimateLaunchpad, a maior competição de negócios verdes do mundo. A competição é organizada no Brasil pela Climate Ventures, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). A disputa envolve cleantechs (tecnologias limpas) de 57 países e tem o objetivo de destravar o potencial e fomentar ideias de negócios que tenham impacto positivo no clima. Vale a pena conhecer o que fazem essas empresas inovadoras e como elas promovem o uso mais eficiente de preciosos recursos.

Bioflore – Uso eficiente da terra
A Bioflore, por exemplo, é uma startup que conecta produtores rurais com terras para reflorestar e empresas que buscam compensar suas emissões de carbono e garantir maior sustentabilidade em sua cadeia de produção. Através de uma plataforma desenvolvida pela startup se tem acesso a informações sobre clima, solo e espécies possíveis de plantar no local a ser reflorestado, estratégias de plantio, relatórios e conhecimento sobre o que as espécies potenciais para a região podem gerar de produtos florestais não madeireiros. Heitor Filpi, CEO da Bioflore, explica que, ao conectar os produtores com as empresas, o negócio possibilita viabilizar a regularização ambiental com modelos agroflorestais que não só geram renda para esses produtores, mas também conseguem suprir demandas de alimentos. Um exemplo é do trabalho que o negócio faz com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Bárbara (MG), intermediando o fornecimento de alimentos por parte dos agricultores familiares para as merendas das escolas públicas do município. Diminuindo assim a necessidade do sindicato buscar grandes quantidades de alimentos em grandes centros de distribuição, o que seria um estímulo para o desperdício de comida, com a perda de alimentos estocados.

Nibble – Menos desperdício de resíduos
A startup Nibbler, de São Paulo, ataca o excesso de lixo doméstico. Os fundadores da empresa, Guilherme Coube e Isabela Gomes, desenvolveram, dentro do programa de Engenharia Avançada do departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Escola Avenues São Paulo, o projeto Nibbler. É um eletrodoméstico que tritura lixo residencial, mistura os fragmentos com uma resina e permite a impressão de objetos em 3D. Hoje, muito do que colocamos na lixeira reciclável acaba sendo contaminado e não pode ser aproveitado. Mas com a máquina da Nibbler, uma porcentagem maior de lixo é aproveitada, já que ele foi desenhado para aceitar diversos tipos de materiais e de contaminação. Assim, é possível reduzir o descarte de resíduos sólidos, promover um modelo de descarte circular e a criação sustentável de novos materiais. A máquina da Nibbler poderia ser usada em escolas, universidades e residências, mas o projeto foi desenvolvido inicialmente com o foco no mercado de cooperativas de catadores. Com o uso do eletrodoméstico, seria viável a criação e a venda de objetos e, consequentemente, um aumento da renda das cooperativas.

SaveAdd – Sem comida jogada fora
SaveAdd é uma startup de soluções tecnológicas, que usa um aplicativo com inteligência artificial para identificar, diagnosticar e gerir sobras de estoque em empresas que lidam com alimentos, como supermercados ou redes de restaurantes. Com a SaveAdd, as empresas podem vender ou doar sobras, evitando o desperdício e convertendo custos logísticos, de manutenção, descarte e destruição, em melhor aproveitamento de produtos e matérias primas para ONGs, instituições e pequenas empresas. O que gera receita, lucro e valores de forma sustentável. Segundo Salvador Iglesias Ramalho, cofundador e CEO da startup, o negócio ajuda a combater o desperdício ao reduzir as barreiras que inviabilizam as decisões e a continuidade de práticas para o aproveitamento daquilo que ainda não é lixo. “Geramos assertividade e otimização de resultados com base nos algoritmos, além de controle e segurança através da auditoria de contratos inteligentes, junto com todos os registros necessários”, afirma.

A Bioflore, a Nibbler e a SaveAdd agora vão seguir para a final regional da ClimateLauchpad, prevista para ocorrer nos dias 24 e 25 de setembro, em um evento online. Irão competir com startups da Argentina, Barbados, Canadá, Colômbia, Jamaica, México, Suriname e Uruguai. Os quatro negócios mais bem avaliados da final regional vão apresentar seus pitches no Shark Tank Colômbia e México, uma apresentação de negócios a potenciais investidores. Por fim, as 14 melhores ideias verdes vão competir na final global, em outubro, e a vencedora leva para casa o prêmio de 10 mil euros.

Este artigo foi escrito por Larissa Magalhães e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis, na Exame.

Imagem de ElisaRiva por Pixabay

Nosso presente para a Amazônia

Uma coalizão de empreendedores evoca o poder do consumo individual para aumentar o valor econômico da floresta

O Dia da Amazônia é celebrado anualmente em 5 de setembro. Em pé, a maior floresta tropical do mundo, que abriga uma vasta diversidade biológica, povos e saberes ancestrais, nos dá uma série de presentes todos os dias. Ela atua na regulação do regime de chuvas, sequestra carbono e equilibra o clima do planeta. De suas entranhas brotam saberes ancestrais dos povos que lá vivem. Ativos de sua biodiversidade dão origem a medicamentos e cosméticos. Isso sem falar dos incríveis e potentes sabores de alimentos que se originam somente por lá.

Na medida em que as políticas ambientais são mais incisivamente negligenciadas, proporcionalmente vemos crescer o desmatamento ilegal, ao mesmo em que aumenta a pressão de práticas como garimpo em terras indígenas e grilagem de terras públicas. O resultado não poderia ser outro: destruição, queimadas, violência, atraso econômico e queimadas.

É tempo de pensar o que cada um de nós pode dar de presente para a Amazônia.

Hoje existem empreendedores que já cuidam da floresta porque percebem toda a riqueza material e imaterial que ela gera. Eles oferecem produtos que deixam um impacto positivo na Amazônia e em suas populações. Contribuem para manter a floresta em pé ao endossar modos sustentáveis de produção, que envolvem comunidades ribeirinhas e tradicionais, gerando trabalho e renda ao mesmo tempo em que conservam a floresta.

O consumo individual é uma ferramenta potente para ajudar a Amazônia. Cada um de nós pode se unir a esse movimento. Para além de exigirmos medidas de comando e controle pelos órgãos fiscalizadores, incentivar quem mantém viva a floresta é presentear a região – e o Brasil – através desse movimento crescente de empreendedorismo que gera impacto positivo. É nesse contexto que surge a campanha Da Amazônia para você, do Mercado Livre em parceria com o movimento Amazônia em Casa Floresta em Pé. O objetivo é justamente impulsionar os produtos dessa nova economia que cuida da floresta, tornando-os acessíveis em poucos clicks e enviados para todo o Brasil.

O movimento, nascido no ano passado, quando empreendedores amazônicos viram suas vendas despencar por causa da pandemia, é a reunião de organizações para buscar novas formas de escoar a produção desses negócios. Começou com a co-criação do Mercado Livre, que ofereceu orientação e soluções logísticas, de comercialização e inclusão digital. Hoje, o movimento agrega dezenas de parceiros, como a AMAZ, Idesam, Climate Ventures e Plataforma Parceiros pela Amazônia, além do Instituto Conexsus, Instituto Auá, Central do Cerrado e Centro de Empreendedorismo da Amazônia.

Em 2020, 16 negócios participaram da campanha com o Mercado Livre. Agora, no segundo ano, já são mais de 30, totalizando centenas de produtos. As marcas, que oferecem sabores e saberes únicos da maior floresta tropical do planeta, comercializam produtos variados como: molho de tucupi, farinha de cará roxo, compota de jambu e de vitória régia, semente de Puxuri, além de artigos de moda sustentável e artesanato indígena.

Apoiar os negócios de impacto que surgem na e da floresta contribui para conservá-la e gerar renda para suas populações. Que tal esse presente Amazônia, que tanto nos dá todos os dias?

Foto: Hoje existem empreendedores que já cuidam da floresta porque percebem toda a riqueza material e imaterial que ela gera (Celso Abreu/Divulgação)

Este artigo foi escrito por Larissa Magalhães e Alexandre Mansur e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renovaveis, na Exame.

Como será a nova economia boa para o clima?

A transformação radical na forma como produzimos bens e serviços também oferece oportunidade de geração de renda e criação de empregos

“A partir de amanhã ninguém usa carro”. Até hoje não tivemos nenhum governo que dissesse algo assim. Mas, com as restrições impostas pela pandemia, entre abril e junho de 2020, as emissões globais caíram pela primeira vez nas últimas décadas. A ameaça do vírus alterou os modos de vida das pessoas em todo o mundo. Está na hora de fazermos algo parecido com relação à crise climática. O exemplo do carro pode parecer um exagero, mas o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), deu um alerta vermelho para toda a humanidade: temos muito o que fazer e pouco tempo para agir. A crise climática está se acentuando e os eventos extremos vão se tornar cada vez mais frequentes se não diminuirmos nossas emissões agora.

O raciocínio do professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de vários livros sobre economia verde, Ricardo Abramovay, é de que a nossa economia precisa passar por mudanças drásticas. Ele explica que o modelo atual de produção não só é destrutivo para a natureza, como não satisfaz as necessidades básicas de parte importante da população mundial, que ainda vive com fome, sem saneamento e acesso à saúde e à educação. Ao pensarmos sobre isso, o que nos vem à mente é que precisamos produzir mais, para gerar mais recursos e empregos que ajudem a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. “Mas o jeito que a humanidade sabe produzir até agora é emitindo gases do efeito estufa”, lembra o pesquisador.

Para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, segundo o professor, há 30 anos atrás, a matriz energética mundial dependia em 86% de combustíveis fósseis. De lá para cá, houve uma enorme mobilização governamental, científica e até no meio empresarial e, mesmo assim, hoje a nossa dependência dessa fonte de energia ainda é de cerca de 80%. “Em 30 anos, diminuímos 6%. Agora, até 2030, temos que fazer com que esse número caia pela metade, ou seja, para uns 40%. É um desafio extraordinariamente importante e difícil de ser alcançado, porque exige mudar a matriz energética global”, afirma Abramovay e ressalta que, apesar de as fontes renováveis estarem em ascensão em todo o mundo, ainda somos dependentes de carvão e as empresas petrolíferas continuam investindo nessa fonte numa quantidade superior à necessária para a transição que precisamos fazer.

“Do ponto de vista das empresas produtoras de combustíveis fósseis, é como se a crise climática ou não existisse ou fosse ser enfrentada por meio de tecnologias que não estão prontas, como a captação de carbono, que ainda é cara e difícil”, afirma Abramovay. Isso precisa parar. Como? Olhando para as oportunidades. Quais são elas? Para o professor, que falou sobre o assunto no novo episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, elas estão no fato de que a Europa Ocidental, os Estados Unidos, a China, a Índia, o Japão, todos os jogadores mundiais que contam nessa história, estarem “fazendo um imenso esforço de pesquisa científica e tecnológica para chegar à soluções capazes de reduzir as emissões de gases do efeito estufa.” Ele ressalta que a precificação do carbono, cobrando uma espécie de imposto de quem emite, ainda está dando os primeiros passos, mas deve ser uma realidade num futuro não muito distante. E que, além disso, fazer essa conversão da economia global em direção à redução de gases do efeito estufa também é oportunidade de geração de renda e criação de empregos. “É uma reviravolta na economia.”

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial nenhum país fixou para sua economia um objetivo diferente do de fazer com que a economia crescesse. Abramovay explica que a política macroeconômica sempre foi a estabilização, porque ela ajudava a chegar a esse objetivo. No entanto, com a crise climática, isso mudou. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde a vitória de Joe Biden, a economia está planejada para o combate às mudanças climáticas. “Pela primeira vez na história, temos um tema referente à relação entre sociedade e natureza no âmago das políticas e da gestão econômica. Esse é um fato importante de esperança porque alguma coisa interessante vai sair daí no plano global”, afirma. “Todas as autoridades das organizações multilaterais estão gritando forte que o que a gente está fazendo não está à altura dos desafios que estão sendo colocados”, completa.

No entanto, Abramovay lembra que não se muda um modelo econômico por decreto. “Estamos lidando com uma situação de alta complexidade em que decisões governamentais e de direções empresariais são fundamentais, mas se inserem num contexto que vai muito além da capacidade de elas provocarem por si só as transformações necessárias”, explica. Para ele, todos precisamos nos perguntar o que queremos da nossa vida econômica. E a resposta não pode mais ser o óbvio crescimento. “Esse raciocínio não pode mais ser desse jeito. A gente precisa saber para onde a economia tem que crescer e que meios ela tem que usar.” O professor ressalta ainda que, não poderemos continuar consumindo como sempre, mesmo que a tecnologia nos ajude a reduzir as emissões.

Nesse sentido, a infraestrutura também precisa mudar, passando a ser pensada a partir dos serviços que gera. Abramovay vai lançar, em breve, um trabalho sobre esse assunto e adianta que essa é outra área que está em transformação. Ele ressalta dois aspectos: o primeiro é que atores importantes, como o Banco Mundial, o G-20 e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já estão falando com frequência sobre soluções baseadas na natureza; a segunda é que ele chama de “o fim da era do concreto”. Nesse cenário, o foco não é mais só construir, mas “usar de maneira inteligente a natureza para poder, por meio desse uso, lançar as bases permanentes para a satisfação das necessidades humanas.” Os mega projetos devem perder espaço. “O que mais precisamos é de projetos dispersos, localizados, em diferentes áreas, mas que precisam ser apoiados em conhecimentos sofisticados e avançados para satisfazer as necessidades da população em energia, mobilidade, saúde e etc.”

Todas essas mudanças já estão em curso, mas o relatório do IPCC vem para nos dar o senso de urgência que a situação pede. “Estamos caminhando na direção, mas a crise está correndo e nos deixando muito atrás”, ressalta Sérgio Guimarães, Secretário Executivo do GT Infraestrutura. Será que os tomadores de decisões públicos e privados estão prontos para fazer o que precisa ser feito? Para o futuro de seus próprios países e negócios, deveriam.

Este artigo foi escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renovaveis, na Exame.

Foto: Rio de Janeiro – Viagem inaugural do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Carioca, no centro do Rio (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Refrigeração: indústria pode ter vantagens ao antecipar prazos da etiquetagem do Inmetro

Norma aprovada pelo Inmetro prevê 10 anos para melhorar eficiência energética de equipamentos, mas quem quiser sair na frente não precisa esperar

Após um hiato de 15 anos sem revisão, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) publicou, no início de agosto, a portaria que atualiza a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) para os refrigeradores. No entanto, pela nova regra, os equipamentos brasileiros levarão outros 10 anos para que sejam tão eficientes quanto os de outros países em desenvolvimento. Esse é o tempo do período de transição para passar a vigorar a meta da nova etiqueta no Brasil. A Rede Kigali, que defendeu regras mais ambiciosas durante o período de consulta pública, acredita que, mesmo após a conclusão do processo, é possível antecipar as metas para apoiar e unir a revigoração da indústria brasileira de refrigeradores e a produção de equipamentos mais eficientes com preços acessíveis aos consumidores.

“Fabricantes e instituições competentes de governo precisam costurar e negociar uma política com esse fim, para sair da recorrente e contraproducente discussão que coloca preço e eficiência energética em lados opostos”, afirma Rodolfo Gomes, diretor executivo do IEI Brasil, uma das organizações que compõem a Rede Kigali. A Rede fez publicamente esse convite para os fabricantes e associações e irá atuar para incentivar esse debate. Segundo os especialistas da Rede, a antecipação dessa meta pela indústria pode trazer muitos benefícios principalmente relacionados à competitividade.

Exemplos de fabricantes de refrigeradores de outros países mostram as vantagens de se adotar a eficiência energética como critério. O México, que se harmonizou com as políticas de eficiência energética dos Estados Unidos (EUA), fez com que as exportações desses aparelhos aumentassem mais de 12 vezes entre 2000 e 2019, de 401 milhões de dólares para 5 bilhões. Essas exportações não vão apenas para os EUA e Canadá, mas também para outros mercados da América Latina, especialmente América Central e Caribe. Essa defasagem também contribuiu para que o Brasil perdesse o título de maior produtor de refrigeradores das Américas, posição que ocupava até dez anos atrás, quando nossa indústria era a quinta maior do mundo. No entanto, essa produção caiu 25% nos últimos anos e hoje países como o México e a Indonésia superam o Brasil na produção desses equipamentos.

Produtos mais eficientes podem ajudar a superar crise energética
Em um momento de crise energética, é fundamental oferecer aos consumidores produtos mais eficientes, que promovam uma economia significativa no valor pago nas contas de luz ao final do mês. Oferecer produtos com maior eficiência energética pode, inclusive, ser decisivo para estimular o marketing das empresas e conquistar uma parcela da população preocupada com o meio ambiente. Isso porque a eficiência energética nos aparelhos traz benefícios inclusive no combate às mudanças climáticas, pois reduz as emissões de gases de efeito estufa e de outros impactos ambientais produzidos pela geração de energia.

Refrigeradores “A” no Brasil em 2031 seriam “C” na Europa hoje
Hoje os refrigeradores brasileiros que estão no patamar da categoria “A” da etiqueta, a mais eficiente, não podem ser vendidos em vários países, como Quênia, México ou Estados Unidos, porque são considerados ineficientes nesses mercados. A meta da nova etiqueta do Inmetro para daqui a 10 anos para a categoria “A” é, atualmente, a categoria “C” da etiqueta europeia, por exemplo. Assim, se os fabricantes aguardarem o período proposto pelo Inmetro, em 2031 os equipamentos vendidos aos consumidores brasileiros como mais eficientes, na categoria “A”, estarão novamente com um padrão defasado em relação ao resto do mundo.

Sobre a Rede Kigali
A Rede Kigali é composta pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), International Energy Initiative – IEI Brasil, CLASP, consultoria Mitsidi, Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) e rede de jovens Engajamundo. Tem como propósito promover a eficiência energética como um instrumento para atingir múltiplos benefícios para a sociedade brasileira e para o consumidor. A eficiência energética, e as políticas e os mecanismos que a promovem, são tratados pela Rede Kigali não como um fim em si mesma, mas como um meio com diversos objetivos, entre eles oferecer para os consumidores aparelhos mais baratos e mais econômicos no consumo de eletricidade e dinamizar os setores econômicos envolvidos com a realização de investimentos em inovações tecnológicas, geração de emprego, aumento da produtividade e competitividade.

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