Tecnologias universitárias brasileiras podem ajudar o clima

Uma programa da associação mineira Wylinka e selecionou as 11 invenções acadêmicas com maior potencial para o mercado

As consequências do Efeito Estufa são devastadoras e já estão acontecendo: derretimento das calotas polares, elevação do nível do mar, alteração de correntes marítimas e atmosféricas e ampliação da desertificação. Os cientistas já alertam há anos para o fato de que não podemos continuar elevando o volume de CO2 na atmosfera, com desmatamento e queima de combustíveis fósseis, por exemplo. O motivo é que esses e outros gases aumentam o índice de radiação e calor que é retido na Terra e somos nós que vamos pagar essa conta. Mas existem muitas forma de reduzir as emissões. O Brasil é um celeiro de ideias. Muitas delas estão nos centros de pesquisa das universidades brasileiras. Um novo programa selecionou as 11 inovações tecnológicas com maior potencial para chegar ao mercado. O programa é coordenado pela Wylinka, uma associação baseada em Belo Horizonte, criada para acelerar inovação científica e tecnológica

É o caso de um ônibus elétrico criado no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia(Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Liderado pelo pesquisador e professor Paulo Emílio Valadão de Miranda, e resultado de mais de 36 anos de pesquisa no Laboratório de Hidrogênio da universidade, a tecnologia consiste em um ônibus híbrido.

O ônibus tem um motor elétrico e um gerador de eletricidade movido a hidrogênio. Você pode carregar na tomada para carregar as baterias. Ou pode carregar o tanque de hidrogênio, que gera eletricidade para o motor. E ele aproveita a frenagem e as descidas para recarregar as baterias também. Um estudo, divulgado pela equipe de pesquisa, mostra que o setor de transportes contribui com cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa na região metropolitana do Rio de Janeiro. O veículo desenvolvido contribui para diminuir essas emissões, diminuindo o impacto do meio de transporte na nossa saúde.

A tecnologia já gerou quatro pilotos – produtos em escala real usados para validar a eficácia da tecnologia. Um deles já foi testado na Vila dos Atletas durante as Olimpíadas de 2016, realizadas no Rio de Janeiro. Para que a proposta avance, agora é necessário o estabelecimento de um arranjo produtivo para a fabricação de uma nova versão do protótipo, que permita o teste de uma pequena frota dos ônibus em ambiente real de utilização. Para isto, os pesquisadores estão em busca de parcerias e investidores dispostos a apostar no projeto. Eles são fundamentais para satisfazer requerimentos regulatórios e padronizados de fabricação, uso, manutenção, pós-venda e reciclagem, assim como para a fabricação e testagem em ambiente real de frotas.

Bioetanol produzido a partir de leite

Outra tecnologia que pode encurtar o caminho até a mitigação das mudanças climáticas é liderada pela professora e pesquisadora Mônica Lady Fiorese, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. A ideia consiste em utilizar permeado (ingrediente lácteo com alto teor de lactose) como matéria-prima para produzir bioetanol. Isso resolve dois problemas: de resíduos poluentes e de energia.

É fácil entender. A indústria de concentrados, isolados, e hidrolisados proteicos possui a geração de um resíduo chamado permeado de soro de leite desproteinizado. Esse resíduo é 100% líquido e possui uma alta carga orgânica de poluentes. O custo para se tratar o permeado acaba por ser extremamente oneroso e de difícil tratamento. Ao enxergar a possibilidade de usar a matéria-prima para razões mais nobres do que o simples descarte, o grupo de pesquisa aceitou o desafio de produzir diferentes produtos utilizando o permeado na forma líquida, dispensando o processo de secagem, que é mais comumente utilizado. Foi nesse contexto que os pesquisadores desenvolveram uma rota de produção de bioetanol, combustível renovável.O projeto foi desenvolvido por meio de uma parceria de mais de 8 anos com uma empresa da região, produtora de concentrados proteicos. Hoje, a equipe de pesquisa consegue produzir cerca de 80g/L de bioetanol a partir de uma concentração de 200g de lactose por litro de permeado. Com isto, conseguem transformar um resíduo com alta carga poluente em uma nova fonte de energia.

DeepTech Clima

Mapear os desafios tecnológicos da economia de baixo carbono no Brasil e buscar soluções nas universidades brasileiras é a missão do projeto DeepTech Clima, liderado pela Wylinka em parceria com o Instituto Clima e Sociedade. A iniciativa também fez um diagnóstico dos principais desafios para o desenvolvimento dessas tecnologias e quais as principais recomendações para que elas gerem valor para a sociedade. Com duração de 6 meses, o projeto focou no setor energético brasileiro (setor que apresenta grande potencial de ser impactado por disrupções tecnológicas) e mapeou ao todo 94 tecnologias. Destas, foram selecionadas 11 com maior potencial de resolver os desafios do setor no Brasil. Segundo Ana Carolina Calçado, diretora presidente da Wylinka, o DeepTech Clima foi pensado para conectar o potencial de desenvolvimento de soluções da ciência, tecnologia e inovação brasileiras aos desafios socioambientais e econômicos atuais. “Entre esses desafios, buscar a diminuição da emissão de gases que causam prejuízo ao clima é um dos mais urgentes”, explica.

Todas as 11 tecnologias mapeadas serão apresentadas no dia 30 de setembro, às 18h, no webinário “Novas fontes de energia: a ciência brasileira como propulsora do desenvolvimento”. Na oportunidade, a Wylinka também irá lançar um Ebook com os resultados do DeepTech Clima. Inscrições para o webinário, que contará com especialistas da FINEP, da Agência de Inovação da USP, do Instituto Clima e Sociedade e da Wylinka, podem ser feitas pelo link.

Este artigo foi originalmente escrito por Thaísa Pimpão e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Ônibus da Coppe, da UFRJ: ônibus tem um motor elétrico e um gerador de eletricidade movido a hidrogênio (Coppe/UFRJ/Divulgação)

Como o Brasil pode virar uma grande potência na economia de baixo carbono

A Conexão Pelo Clima On reunirá empresas que apostam nas oportunidades da transição para uma economia com baixas emissões e zero desmatamento

Imagine um analista de economia na Coreia do Sul no início dos anos 1960 chegando em uma reunião importante com investidores, empresários e representantes do governo e dizendo que, num futuro próximo, eles deixariam de ser um dos países agrários mais pobres do mundo para se tornarem uma superpotência tecnológica.

Nem todo mundo daria ouvidos a ele. Afinal, naquela época, a economia do país asiático era baseada em pesca e agricultura e muita gente achava que era melhor continuar fazendo isso. No entanto, houve quem apostasse numa indústria baseada em uma tecnologia completamente nova, chamada eletrônica. Hoje, o que era uma aposta virou realidade.

A Coreia do Sul é referência e exporta para todo o mundo. Tudo isso só foi possível porque o país resolveu agir na hora certa, dando incentivos para a instalação de indústrias e investindo em educação e pesquisa de ponta.

O Brasil de 2020 vive um momento decisivo também. Enquanto muita gente ainda acha que o caminho é investir na exportação de frango, carne e soja, está em curso uma revolução que vai virar o mundo de cabeça para baixo. Os países mais desenvolvidos do globo já declararam publicamente que a retomada econômica pós-pandemia será verde e quem continuar ignorando as mudanças climáticas não terá espaço. Essa é a hora para começarmos a dar mais atenção às vantagens competitivas que o nosso país possui para se tornar o rei desse novo mundo, baseado em uma economia verde. Isso mesmo, o Brasil tem tudo para virar uma das maiores potências do mundo em economia de baixo carbono. Isso pode ser a melhor oportunidade da história para darmos um salto de desenvolvimento.

Somos um dos países com maior número de empreendedores com negócios verdes. A Climate Ventures mapeou, entre 2018 e 2019, mais de 500 negócios que promovem a economia regenerativa de baixo carbono. E não é por acaso. Tantos jovens criativos são resultado de vivermos em um local com recursos de sobra. Temos condições de ter uma matriz energética totalmente limpa, além das hidrelétricas, com mais investimento em energia eólica e solar.

Podemos apostar em veículos movidos à álcool e biomassa. Abrigamos a maior biodiversidade e a maior floresta tropical do planeta. Temos material para produzir plástico de biomassa. Graças a isso, podemos produzir alumínio, cimento, bebidas, bicicletas, quase tudo com menos emissões do que outros países. Isso sem falar que temos muita terra, suficiente para abastecer o mercado interno e ainda produzir para exportação, se considerarmos que a pecuária de baixa produtividade no Brasil ocupa 200 milhões de hectares e parte desse território poderia ser destinado à produção agrícola, sem desmatar mais nada.

Um estudo, divulgado no último mês de agosto pelo WRI Brasil e pela iniciativa New Climate Economy, mostra que a adoção de medidas para uma produção mais verde pode render para a nossa economia pelo menos R$ 2,8 trilhões a mais no nosso Produto Interno Bruto (PIB), além de gerar mais de dois milhões de empregos. O trabalho destaca os ganhos econômicos que andam juntos com a diminuição da poluição, como menos gastos em deslocamentos e saúde, além de mais produtividade desses trabalhadores. O WRI também calcula que a emissão e os empréstimos de títulos verdes está em expansão e atingiu, em 2019, um recorde global de US$ 202 bilhões. O Brasil, segundo esse trabalho, acompanhou as tendências internacionais, mas atingiu apenas uma fração de seu potencial.

A Conexão Pelo Clima, maior evento de negócios verdes da América Latina, é o espaço onde as pessoas capazes de tornar o país essa superpotência se encontram para fazer negócios. A primeira edição, realizada em 2019 com o nome Feira Conexão Carbono Zero, já se consolidou como um evento referência, fomentando parcerias e mobilizando recursos para soluções que visem transformar os modelos de negócios num caminho para reverter a mudança climática. Em 2020, O Mundo Que Queremos, CDP Latin America e Climate Ventures se juntaram para que esse continue sendo um espaço único de conexão rumo à uma economia de baixo carbono.

A segunda edição da feira presencial está agendada para 2021. Enquanto isso, esse ano teremos o Conexão Pelo Clima On, que reúne lideranças do setor para uma sequência de seminários online, que querem inspirar e influenciar as agendas de governos e da iniciativa privada para investir e fomentar bons negócios pelo clima. Serão dois painéis, que vão tratar de dois temas fundamentais para o Brasil em 2020.

O primeiro dia (21/09) será dedicado às florestas e ao campo, tratando de desafios relacionados à produção de alimentos, o uso sustentável da terra e a valorização das florestas vivas. No segundo dia (22/9) o foco são os desafios ligados às cidades, abordando a chamada “agenda marrom”, com debates sobre energia, indústria e planejamento urbano sustentável. Essa é uma oportunidade para quem quer encontrar seu espaço na nova economia do clima, e ajudar o Brasil a aproveitar essa chance única.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Navios de carga no Porto de Paranaguá: o grande potencial do Brasil é para exportar produtos bons para o clima (André Zabel/Flickr)

União entre governos, sociedade e setor privado é resposta para recuperação verde

Alinhamento de pauta ambiental e econômica é consenso mundial. Conexão Pelo Clima ON foi oportunidade para debater como fazer

A retomada econômica verde é a saída para tirar o Brasil da crise socioeconômica e esse foi o assunto da Conexão Pelo Clima ON, edição online da maior feira de negócios da América Latina. Convidados que são referências no setor participaram de dois dias de painéis visando encontrar soluções conjuntas para inspirar e influenciar as agendas de governos e da iniciativa privada. O evento, realizado nos dias 21 e 22 de setembro, é fruto de uma parceria do Instituto O Mundo Que Queremos, CDP Latin America e Climate Ventures.

“Nesse momento, o debate sobre meio ambiente, mudanças climáticas e economia se estreitou. É como se tivesse ficado mais racional”, comentou a Diretora Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Ana Toni, em fala de abertura do evento. Para ela, a Conexão Pelo Clima se consolida como um espaço para concretizar todas essas boas intenções, fazendo isso virar ação. “A economia de baixo carbono não é mais um tema ambiental, é um tema econômico, de sobrevivência e de urgência”.

Agricultura, florestas e uso da terra

O primeiro dia de evento foi dedicado ao tema “Agricultura, florestas e uso da terra”. Estêvão Ciavatta, CEO na Pindorama Filmes e mediador do debate, começou destacando que a Amazônia tem hoje quase um milhão de quilômetros quadrados desmatados e frisou que as unidades de conservação e terras indígenas são fundamentais para preservação desse bioma tão importante: “Quem freia, de fato, o desmatamento e cuida da floresta é quem vive dentro dela”, afirmou.

Um dos macrodesafios desse tema é parar de alimentar a dicotomia de que o agronegócio é inimigo da preservação. Por isso, o primeiro painel contou com a participação da Gerente de Sustentabilidade da Cargill, Renata Nogueira, da Diretora Executiva da IDH Brasil, Daniela Mariuzzo, do Diretor executivo da Plataforma Parceiros pela Amazônia e Diretor de novos negócios do Idesam, Mariano Cenamo e da Gerente de Sustentabilidade da Natura, Luciana Villa Nova.
“As empresas precisam seguir a regulação e fomentar boas práticas, mesmo em relação ao desmatamento permitido, impulsionando a economia de baixo carbono e o pagamento por serviços ambientais”, afirmou Renata Nogueira, trazendo o desmatamento — legal e ilegal — para o centro do debate. Para ela, cumprir o Código Florestal e engajar os produtores nesse processo são peças-chave para que o Brasil tenha uma produção agrícola mais sustentável.

Assistência técnica, crédito e conhecimento são outras peças desse quebra-cabeças, segundo Daniela Mariuzzo. Para ela, esse é um setor que foi concebido em cima de grandes mitos, que atrapalham a construção das soluções e, para desfazer isso, o debate qualificado é fundamental. “Se queremos resolver qualquer problema, precisamos entendê-lo. Que a gente saia deste diálogo com mais perguntas que respostas, consiga diminuir os mitos e trabalhe com fatos. E consiga, com base nisso, construir as nossas soluções”, afirmou.

Para Mariano Cenamo, um maior protagonismo do setor privado também é cada vez mais urgente. “Precisamos, mais do que nunca, de uma nova geração de negócios, pequenos ou grandes”. Para ele, o debate é urgente porque o Brasil pode perder cada vez mais a sua relevância na agenda econômica internacional. “Estamos passando por boicotes porque a sociedade está cobrando, ninguém quer mais desmatamento. É um chamado muito forte e nós temos que nos posicionar”, provocou.

Como podemos fazer isso de forma sustentável? Luciana Villa Nova deu algumas ideias contando sobre o trabalho que a Natura tem feito na Amazônia nos últimos 20 anos. “Vamos lidar com muitos desafios, mas precisamos olhar a natureza não como uma fonte de recursos a ser explorado, mas de uma forma mais integradora, utilizando a tecnologia a nosso favor e alterando os hábitos de consumo da sociedade, alertando para o que ela está comprando. A responsabilidade é dividida”, alertou.

Investimento, adaptação e infraestrutura
Um dos destaques do segundo dia de evento, dedicado ao tema “Investimento, adaptação e infraestrutura”, foi a fala de abertura de Christiana Figueres, ativista e ex-secretária executiva da United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC). Para ela, a América Latina está em uma posição privilegiada e tem tudo para sair na frente. “Países que têm uma matriz energética mais limpa, como Costa Rica e Brasil, está mais perto do futuro”, afirmou. Para ela, não é preciso escolher entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. “Podemos e devemos fazer os dois ao mesmo tempo. Não é só uma oportunidade, mas também uma necessidade urgente”.

Em seguida, Maria Eugênia Buosi, sócia da Resultante ESG, conduziu um painel com a presença do ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, da sócia da Mauá Asset Management, Carolina Costa, do 2º High Level Climate Action Champion COP25, Gonzalo Muñoz, do Secretário de Meio Ambiente de Jalisco, Sergio Montero e do fundador do Sistema B na América Central, Ernesto Moreno.

Segundo Ricupero, não há justificativa para que um país como o Brasil não aproveite todo o seu potencial verde. ”Os governos precisam trabalhar juntos e têm um papel estratégico.Se quisermos realmente chegar a uma economia carbono zero, a primeira coisa que o mundo tem que fazer é precificar o carbono,” afirmou.

Por sua vez, Gonzalo Muñoz afirmou que a humanidade já está entendendo o novo contexto. “O mundo começa a dar sinais de que essa agenda não é só dos grandes, mas também fundamental para os pequenos”. Ele destacou que não é preciso só reduzir, mas também sequestrar e regenerar a natureza. A boa notícia é que, de acordo com ele, várias empresas e governos já estão se movimentando nesse sentido para cumprir os acordos internacionais. “Estamos começando a juntar todo mundo”.

Sergio Montero trouxe o exemplo de Jalisco, no México, que tem tido um protagonismo importante. Para ele, os governos precisam trabalhar juntos para alcançar a descarbonização. “Em Jalisco, estamos trabalhando com cooperação intermunicipal. Sem isso é impossível gerar condições para o desenvolvimento de todos os atores do território”, relatou.

Para financiar essa agenda, o mercado financeiro precisa entender como. Essa foi a tônica da fala de Carolina Costa, também convidada do painel. Para ela, o mercado tem que entender onde investir. “A economia verde tem que financiar negócios verdes. No entanto, as metas precisam ser materializadas”. Carolina destacou ainda a importância de um olhar atento para as tecnologias que vão mudar a regra do jogo. “Elas vão ser determinantes para a economia de transição”.

“Somos todos consumidores”, lembrou o último convidado do dia, Ernesto Moreno. Por isso, ele acredita que é fundamental que os governos façam a sua parte, para que todos os atores tenham condições de tomar boas decisões e mudar os rumos do mercado.

Conexão Pelo Clima
Iniciativa inédita na América Latina, a primeira edição da Feira Conexão Carbono Zero, realizada em 2019, se consolidou como um evento referência de negócios pelo clima, fomentando parcerias e mobilizando recursos para soluções que visem transformar os modelos de negócios num caminho para reverter a mudança climática. Em 2020, o evento ganhou um novo nome, Conexão Pelo Clima e, devido à pandemia de Covid-19, um formato online saiu do papel. A segunda edição da feira está prevista para acontece em 2021.

Os dois dias de evento da edição 2020 ficam gravados e podem ser acessados a qualquer momento pelo canal do Youtube.

Foto:Unsplash

Plano Nacional de Energia 2050 precisa considerar desenvolvimento regional

Webinário vai embasar elaboração de uma proposta conjunta para orientar consulta pública

O Plano Nacional de Energia (PNE) 2050 está em fase de consulta pública. O documento é um planejamento de longo prazo do setor energético do país e vai servir como um guia, com orientações governamentais para o futuro e deixam claro para investidores e setores produtivos quais caminhos o país deve seguir. Estamos falando de definições a longo prazo e esse é o momento para discutir como é possível pensar em uma transição energética para o Brasil que seja justa, inclusiva, de baixo carbono e leve em conta as especificidades das populações de cada região. O assunto é tema do próximo webinário do Ciclo WebGTInfra, que será realizado nesta quarta-feira (16/9), às 16h, no canal do Youtube.

Elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a partir de diretrizes do pelo Ministério de Minas e Energia, o PNE 2050 precisa ser conhecido e debatido pela sociedade civil. Os efeitos das obras sempre aterrissam em territórios e, em geral, quem vive neles desconhece esses projetos. A ideia do webinário é, portanto, trazer para a EPE preocupações sentidas localmente a partir de grandes obras e pensar possíveis alternativas a esses problemas socioambientais historicamente vividos.

A ideia é que esse webinário embase a elaboração de proposta conjunta à consulta pública e ajude a despertar novos rumos, bem como a devida atenção em torno de modelos, estratégias e políticas sociais adequadas e adaptadas à realidade e ao contexto das comunidades locais. Após a consulta, o documento será encaminhado para a apreciação do Conselho Nacional de Política Energética.

Convidados

O debate será mediado por Alessandra Mathyas, do WWF-Brasil, e participarão os seguintes convidados: Thiago Barral, presidente da EPE; Armin Feiden, do Comitê Hidrológico Paraná III; Josefa de Oliveira Câmara da Silva, do Movimento Xingu Vivo e Conselho Ribeirinho de Belo Monte; e Cleo Francelino Aquino, também do Conselho Ribeirinho de Belo Monte. Assim, além da visão técnica, o webinário pretende ser um espaço que dê destaque às preocupações das comunidades que vivem nos territórios que sofrerão os impactos dessa política.

Ciclo WebGTInfra

O debate é o terceiro público do Ciclo WebGTInfra, promovido pelo GT Infraestrutura e parceiros, pensado para promover reflexões sobre sustentabilidade tendo sempre a infraestrutura como norte. A intenção é que os encontros sempre tratem do assunto priorizando a visão inclusiva das comunidades e populações da Amazônia.

SERVIÇO
O que: Ciclo WebGTInfra: Plano Nacional de Energia 2050: apontamentos para o desenvolvimento energético regional
Quando: 16/9, 16h
Onde: Youtube GT Infra
Inscrições: no link

“O melhor meio de ajudar os pobres é criar uma economia de baixo carbono”

Para escritor Jonathon Porritt, o mundo está disposto a nos ajudar. Mas a retomada da destruição na Amazônia sob o atual governo é tendência perturbadora

A melhor receita para acelerar a recuperação econômica e gerar empregos de qualidade é seguir o caminho da economia de baixo carbono. O Brasil está especialmente bem posicionado para isso. É o que afirma o autor britânico Sir Jonathon Porritt, diretor do Fórum for The Future, organização que promove a sustentabilidade no Reino Unido junto a empresas como Unilever, Capgemini, Aviva, Diageo e EDF. Porritt trabalha com campanhas e mobilização na área ambiental há mais de 45 anos. Diretor da Amigos da Terra nos anos 1980, e autor de vários livros, é uma voz influente entre formuladores de política pública ambiental no Reino Unido. Segundo Porritt, se o Brasil quiser, o mundo todo está disposto a ajudar.

Principalmente porque o Brasil guarda a floresta Amazônica, cuja manutenção é vital para evitar um apocalipse climático que ameaçaria a civilização humana. Ele lembra que, apesar de todo o crédito brasileiro na energia limpa, a retomada da devastação na Amazônia alimentada pelo desmanche ambiental do atual governo federal é “uma tendência extremamente perturbadora” e o risco de retaliações existe. Porritt dará uma aula especial ao vivo online em comemoração aos 40 anos da FIA, Fundação Instituto de Administração sediada em São Paulo.

A masterclass “Recuperação econômica e a retomada verde: como ser relevante no novo normal” acontece no dia 15 de setembro, das 18h às 20h (horário de São Paulo). Em entrevista a essa coluna, Porritt dividiu seus pensamentos sobre os riscos e oportunidades que a emergência climática abrem para o Brasil.

Exame – Alguns líderes de economias emergentes como o Brasil concordam com a necessidade lidar com as mudanças climáticas. Mas no fundo de seus corações eles não sentem urgência. Ainda acreditam que a mitigação das mudanças climáticas pode ser adiada enquanto não resolvemos questões mais demandantes como criação de emprego ou combate à miséria. O que o senhor diria para esses líderes?

Jonathon Porritt – Esse é um ponto de vista comum. Não só no Brasil. Inclusive aqui no Reino Unido! Tudo isso tem a ver com a questão de vermos ou não a tragédia no horizonte. Muitos dos piores impactos das mudanças climáticas não irão ocorrer em nossas vidas nos próximos anos. Por isso, é mais fácil deixar para lidar com isso depois e se concentrar no que impacta nossa vida agora. Mas obviamente essa escolha irá custar caro depois. Foi interessante ouvir as autoridades no estado americano da Luisiana usando o termo “invivível” (“unsurvivable” no original em Inglês) para descrever a situação trazida pelas mudanças climáticas. Essa é uma palavra que poderemos ouvir cada vez mais nos próximos anos, na medida que os extremos climáticos impõe um custo cada vez maior na economia e na qualidade de vida das pessoas. Não falo apenas de furacões, mas de incêndios florestais, enchentes, secas, ondas de calor etc. Por isso, precisamos reconhecer que o melhor meio de ajudar os pobres e gerar empregos é focar no que podemos fazer agora para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. E estabelecer uma economia baseada totalmente na prosperidade de baixo carbono.

Exame – Que medidas de curto prazo podem ser tomadas para garantir uma recuperação econômica boa para o clima em países como o Brasil?

Porritt – Como você sabe os países do mundo estão considerando formas de reviver a economia investindo em prosperidade de baixo carbono através de programas que eles estão chamando de “reconstrução melhorada”. O programa da União Europeia, de 750 bilhões de euros, é talvez o melhor exemplo. Pelo menos 30% dele será direcionado especificamente para novas oportunidades da economia verde. Isso também é importante para o Brasil. Gostei muito do relatório da WRI Brasil que descreve uma nova economia para o país. Ele foca em três áreas: infraestrutura, inovação industrial e agricultura sustentável. O relatório estima que é possível gerar R$ 2,8 trilhões até 2030, criando 2 milhões de novo empregos. Essa é a oportunidade real: entender que garantir uma economia de baixo carbono ajuda a gerar prosperidade real e novos empregos agora.

Exame – A administração federal atual do Brasil afirma que o país já fez demais pelo clima. Afirmam que o Brasil não foi compensado pela energia limpa, pela conservação de florestas e pela frota rodando com álcool. O que é possível dizer para convencê-los que seria necessário fazer mais?

Porritt – Isso é um importante ponto para reflexão. Não há dúvida que o Brasil fez muitas coisas que o mundo precisa saber. No entanto, a chave para isso é a Amazônia. É mais ou menos correto afirmar que apenas 20% da floresta desapareceu em 40 anos. Mas isso ainda é uma área vasta de floresta em termos absolutos. E o desmatamento voltou a crescer desde a eleição de Jair Bolsonaro. O ano de 2020 também tem sido ruim, com boa parte da destruição acontecendo acobertada pela pandemia. É fundamental que o desmatamento pare. E é fundamental que o Brasil trabalhe com o resto do mundo para tornar isso possível. Toda evidência indica que a atmosfera na Amazônia está secando significativamente nos últimos 15 anos. É uma tendência extremamente perturbadora.

Exame – Após anos de pressão internacional sobre o Brasil, alguns observadores questionam se as ameaças de boicote correm mesmo o risco de se materializar algum dia. O senhor acha que a pressão está perdendo a eficácia?

Porritt – Concordo que as pessoas ficaram cínicas porque as ameaças contra o Brasil nunca parecem se materializar. Mas eu teria cautela em assumir que será sempre assim. Existe um aumento claro nas preocupações dos bancos comerciais, que observam os riscos associados a financiamento para o Brasil e algumas indústrias-chave, como a agricultura intensiva. Pode ser interessante observar uma nova iniciativa no Reino Unido, como parte da nova Lei Ambiental esperada para outubro. O governo lançou uma consulta pública na “due diligence de risco florestal das commodities”. Sugere que novas leis garantirão que, para importar certas commodities como soja, óleo de palma, cacau, carne e couro, será preciso demonstrar que o fornecedor não participou na destruição de florestas. Cerca de 67% dos britânicos apoiam essa medida. Isso pode mudar todo o debate.

Exame – Existe uma fala prevalente nos países emergentes que as nações ricas destruíram seus recursos naturais primeiro a fim de se desenvolverem e só depois começaram a conservar o que sobrou. Essa é a narrativa correta?

Porritt – Esse é um argumento justo. E algo que eu comecei a apontar quando era diretor da Amigos da Terra aqui no Reino Unido nos anos 1980, trabalhando com colegas do Brasil. É correto dizer que muitos países ocidentais foram extremamente destrutivos em relação a seus próprios recursos naturais, e que isso foi justificado pela contribuição para a prosperidade. Em muitos aspectos, isso ainda continua. O impulso por crescimento econômico sem considerar o dano ambiental é tão grande quanto sempre foi. Mas não está certo assumir que os ambientalistas fazem campanha por isso. Não estamos criticando o Brasil por causa de um histórico brilhante em nossos próprios quintais. Longe disso. Pessoalmente, eu sou tão crítico do governo britânico do que do governo brasileiro. E nem me peça para falar dos Estados Unidos, onde temos um presidente tentando desmontar 40 anos de regulação ambiental para criar riqueza para um grupo ínfimo de pessoas já ricas. É justificado criticar tudo isso.

Esta entrevista foi originalmente escrita por Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: O autor britânico Jonathon Porritt (Divulgação/Divulgação)

Maior evento de negócios pelo clima da América Latina terá versão online

Iniciativa vai debater retomada verde como saída para tirar Brasil da crise socioeconômica

Um estudo divulgado pelo WRI Brasil e pela iniciativa New Climate Economy, no último mês demonstrou que uma recuperação econômica verde fará o Brasil crescer mais, nos próximos dez anos, do que o modelo de desenvolvimento atual. Isso poderá acrescentar ao PIB do país R$ 2,8 trilhões, além de gerar mais de dois milhões de empregos até 2030. Outro trabalho publicado na revista Nature Climate Change analisa que o investimento global numa recuperação verde no pós-pandemia pode diminuir pela metade o aquecimento global previsto para 2050. Essa retomada verde é assunto da edição online da Conexão pelo Clima ON.

O evento será realizado nos dias 21 e 22 de setembro, das 10h às 13h, e trará para o debate temas relativos à recuperação econômica verde no Brasil pós-pandemia, discutindo os caminhos urgentes da transição para uma economia de baixo carbono. Os dois encontros virtuais são gratuitos e podem ser acompanhados no canal do Youtube, com transmissão ao vivo também pela Revista Exame.

Programação
O primeiro dia (21/09) será dedicado às florestas e ao campo, tratando de desafios relacionados à produção de alimentos, ao uso sustentável da terra e à valorização das florestas vivas. No segundo dia (22/9) o foco são os desafios ligados às cidades, abordando a chamada “agenda marrom”, com debates sobre energia, indústria e planejamento urbano sustentável.

Alguns nomes importantes nacional e internacionalmente já estão confirmados como participantes dos painéis. Entre eles: Daniela Mariuzzo (IDH), Estêvão Ciavatta (Pindorama Filmes), Renata Nogueira (Cargill), Mariano Cenamo (Idesam), Gonzalo Muñoz Abagabir (High Level Climate Action Champion COP 25) e Sergio Graf Montero (Secretário de Medio Ambiente y Desarrollo Territorial de Jalisco/México).

Feira Conexão Pelo Clima
Iniciativa inédita na América Latina, a primeira edição da Feira Conexão Carbono Zero, realizada em 2019, se consolidou como um evento referência de negócios pelo clima, fomentando parcerias e mobilizando recursos para soluções que visem transformar os modelos de negócios num caminho para reverter a mudança climática.

Em 2020, o evento ganhou um novo nome, Conexão Pelo Clima e, devido à pandemia de Covid-19, um formato online saiu do papel. Embora a segunda edição da feira tenha sido adiada para 2021, o diálogo para alavancar a ação climática não pode parar. Por isso, foram convidadas lideranças do setor para uma sequência de seminários online, buscando inspirar e influenciar as agendas de governos e da iniciativa privada para investir e fomentar bons negócios pelo clima, com o objetivo comum de tornar o país menos desigual, mais competitivo e livre de desmatamento ilegal.

A iniciativa Conexão Pelo Clima é uma parceria do Instituto O Mundo Que Queremos, CDP Latin America e Climate Ventures, que se juntaram para oferecer um espaço de conexão rumo à economia de baixo carbono.

SERVIÇO
O que:
Conexão Pelo Clima ON 2020
Quando: 21 e 22 de setembro, das 10h às 13h
Onde: Youtube do Conexão Pelo Clima
Inscrições: https://conexaopeloclima.com.br/

A saúde das pessoas é a prioridade na Amazônia

A pandemia mostrou como a região é carente de infraestrutura. A preocupação com a saúde cria oportunidade para quem quer oferecer soluções na região

A chegada do novo coronavírus à Amazônia evidenciou o abismo que separa a infraestrutura da região das outras áreas do país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro são os locais com mais respiradores e leitos de UTI, enquanto os estados na região Norte figuram entre os menos equipados. Em Santarém, município polo do Tapajós, no oeste do Pará, só havia 1 respirador para cada 20 mil habitantes. A distribuição de médicos, enfermeiros e insumos, segue a mesma lógica: privilegia os estados Sul e Sudeste.

Isso sem falar que a região Norte também é a pior do país quando o assunto são as condições de higiene e saneamento básico, decisivas para o combate ao covid-19 e a muitas outras doenças. Os números são preocupantes em todo o país, onde 35 milhões de pessoas não têm acesso à água. Mas, dados do Instituto Trata Brasil mostram que, enquanto no Sudeste mais de 90% da população tem água tratada, no Norte esse número é de apenas 57%. Se falamos de rede de esgoto, a situação é ainda pior: pouco mais de 10% da população da região Norte têm acesso a esse serviço tão básico. Não por acaso, o Amazonas foi o primeiro estado brasileiro a entrar em colapso.

Diante desse cenário e com a pandemia avançado para o interior dos estados, a questão da saúde deve ser, mais do que nunca, tema prioritário nas eleições deste ano. Gestores públicos serão cobrados a falar sobre isso e a pressão por melhorias urgentes pode ser uma oportunidade para negócios que ofereçam soluções que atendam as especificidades da região. São investimentos necessários e que geram economia — a Organização Mundial da Saúde estima que, no Brasil, cada R$ 1 investido em saneamento pode gerar uma economia de R$ 4 na saúde.

Quem conhece a Amazônia e escuta as demandas das populações que lá vivem sabe que a infraestrutura básica é muito mais importantes que os megaprojetos caríssimos, que costumam ganhar atenção da mídia. Na prática, eles não atendem às comunidades locais e ainda servem para fomentar negócios que devastam a região. Pensar em oportunidades de negócios na Amazônia é pensar em soluções para a logística, saneamento básico e atendimento médico, antes de tudo. O motivo é simples: sem respostas aos problemas sociais, não é possível encaminhar soluções para a preservação ambiental, nem caminhos para um desenvolvimento regional sustentável.

Os desafios são imensos. Para começar, as populações estão distribuídas ao longo de rios e estradas em uma área muito grande, o que significa custos logísticos superiores a qualquer outra região do país. Por isso, quando pensamos em modelos de negócio e investimentos públicos em infraestrutura para a Amazônia, eles precisam ser adaptadas a esse contexto. Não basta apenas pegar o que está funcionando em outros lugares e levar para lá. Quem pensar nisso, vai ter atenção e fechar negócio. Esse tema será aprofundado no webinário “Sem social não tem ambiental: Saúde, Saneamento e as Políticas Sociais para o Desenvolvimento Regional”, realizado pelo GT Infraestrutura e parceiros, dia 2 de setembro, às 16 horas (horário de Brasília). O debate será transmitido pelo Youtube. A saúde da população na Amazônia é uma condição para o desenvolvimento sustentável na região e para a implantação de negócios duradouros. A saúde da floresta depende da saúde das pessoas, e vice-versa.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Por que planejar as cidades é tão importante?

As soluções de sustentabilidade funcionam melhor, são mais viáveis e têm mais sinergia quando implantadas em escala e no momento certo

Iluminação de LED, blocos fotovoltaicos, piso vazado no lugar de asfalto, irrigação inteligente, bicicletas compartilhadas, ciclofaixas, bancos de mudas, sistemas de controle de qualidade do ar e da água etc. Existem várias soluções para reduzir o nosso impacto ambiental e melhorar nossa qualidade de vida nas cidades. Todas elas funcionam muito melhor quando são pensadas com antecedência. Se elas são elaboradas de maneira conjunta, integrada, melhor ainda. Parece filme futurista, mas é exatamente isso o que acontece em uma cidade planejada de forma inteligente.

Já existem algumas delas sendo construídas aqui no Brasil. Uma delas é a smart city de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará. Planejada em uma área de 200 hectares para 18 mil pessoas, a cidade promete disponibilizar mais de 50 soluções integradas nas áreas de tecnologia, meio ambiente, inovação social, planejamento e arquitetura. Susanna Marchionni, CEO da Planeta Smart City, empresa responsável pelo empreendimento, explica que para que tudo funcione numa cidade assim, três coisas são fundamentais: planejar, treinar e engajar.

“Quando as smart cities começam a ser construídas, não têm moradores e tudo parece um exagero. Mas, depois, tudo faz sentido”, explica Susanna Marchionni. As cidades construídas pela Planet Smart City, são planejadas com faixas exclusivas separadas para carros, bicicletas e ônibus, por exemplo. Há quem diga que isso significa lotes perdidos, mas para fazer isso depois seria preciso derrubar casas. “A ciclofaixa anda pela cidade toda, o que significa que você pode morar em um extremo da cidade e ir para o outro de bicicleta, não precisa ter um carro.” Sem planejamento, nada disso seria possível.

Outro exemplo é a rede elétrica subterrânea, que oferece diversas vantagens ambientais, além de resolver o problema do roubo de cabos. Mas para fazer isso em uma cidade que já existe, é necessário quebrar tudo, o que torna o processo difícil e caro, ou seja, praticamente inviável. Isso até foi feito em algumas ruas nobres como a Oscar Freire, em São Paulo, e a Visconde Pirajá, no Rio de Janeiro, mas é pouco provável que aconteça em outros lugares, justamente porque é trabalhoso demais. Fibra ótica e qualquer tipo de cabeamento são outros exemplos. Tudo o que está embaixo do piso, se não for planejado antes, significa muita quebradeira depois.

Não dá para voltar no tempo, mas algumas soluções deveriam ser regra pelo menos nos projetos que começam do zero. “Se as prefeituras entendem o valor do planejamento, a qualidade de vida é outra”, defende Susanna. Em algumas cidades inteligentes, existe até o que eles chamam de “tubulação preventiva”, ou seja, são instalados canos a mais, para não seja preciso quebrar tudo, caso surja uma necessidade nova no futuro, como algum dano no sistema atual. Parece um gasto a mais, mas é uma economia a longo prazo. Nas smart cities, cerca de 40% do valor total gasto em infraestrutura fica no subsolo, que tenta antecipar o que a cidade vai ser.

Quando todas as soluções são instaladas desde o começo de um projeto, também há uma economia dos custos de implantação, já que tudo fica mais barato quando comprado em escala. Esse valor pode ser a diferença entre tornar uma solução viável ou não, pois pode deixar economicamente possível mesmo aquelas soluções tidas como caras. Outra grande vantagem de pensar tudo junto é a sinergia propriamente dita, porque uma solução ajuda a outra. E é também na etapa de planejamento que se garante que tudo funcione ao mesmo tempo, de maneira integrada.

Tecnologia é o meio, não o fim
Susanna explica que, numa cidade inteligente, a tecnologia é o meio e não o fim, que é o de proporcionar mais qualidade de vida para as pessoas, da forma mais sustentável possível. O planejamento é a base de tudo, mas, além de infraestrutura, ele precisa focar nas pessoas. Por isso, todo morador aprende, assim que se muda para uma cidade como essa, sobre as soluções smart e o que ele pode fazer com elas. “Você pode ter o melhor aplicativo do mundo, mas, se as pessoas não usam, é o mesmo que não ter. Temos, por exemplo, equipamentos de exercício que geram energia cinética, ou seja, dá para malhar e carregar o celular ao mesmo tempo. Mas as pessoas precisam saber como fazer isso.”

Nas comunidades planejadas pela Planet, tudo é integrado em um aplicativo, que funciona como um painel de controle da cidade e que pode, inclusive, integrá-la com outras smart cities. Assim, além da venda de lotes, a empresa lucra com a venda de serviços, que também tem parte do seu valor destinado à manutenção dos projetos sociais daquele lugar. Nas cidades do futuro ninguém vai comprar simplesmente um lote ou uma casa, mas sim todos os serviços compartilhados e benefícios que vêm junto com a escolha daquele local. “Você tem biblioteca e cinema gratuitos, o seu filho aprende a falar inglês, mas você tem deveres. Precisamos parar de pensar que aquilo que é público não é de ninguém, porque é de todos”, diz Susanna.

Mas, por enquanto, esse exemplo das cidades inteligentes ainda é um sonho para a maior parte do Brasil. “O que a gente tem é uma falta de planejamento”, afirma David Shiling Tsai, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Segundo ele, mesmo as cidades planejadas fizeram isso de maneira incompleta, como nos casos clássicos de Brasília, Belo Horizonte e Goiânia, em que o planejamento foi feito desde o início, mas não deu conta de atender às necessidades de uma população crescente. “Existe uma área planejada restrita, que pode até funcionar, e um abandono das ‘franjas da cidade’”, observa.

David também destaca que existem planejamentos e planejamentos. Brasília, por exemplo, foi planejada para carros, com grandes áreas espaçadas e rodovias largas. Por outro lado, este arranjo torna-se ineficiente para os sistemas elétrico, de saneamento e de transportes públicos. “Você precisa de mais fios, de mais canos e de pessoas se deslocando por distância maiores, gastando mais combustível e mais tempo no transporte”, explica. Ou seja, mesmo que uma tecnologia aumente a eficiência dos veículos em uma porcentagem significativa, esse valor já foi perdido no planejamento da cidade. “A gente só consegue evitar viagens se a forma de ocupar o território é pensada para isso. Por exemplo, com oportunidades de trabalho perto da moradia das pessoas.”

Isso tem tudo a ver com o desenvolvimento orientado aos transportes, da sigla DOT, já bem consolidada entre os urbanistas. O modelo consiste em estimular certos comportamentos, regulando, por exemplo, os tipos de edificações, limitando o número de andares em um prédio. O objetivo é controlar melhor o fluxo de movimentação de pessoas. Assim, o gestor sabe exatamente onde terá que investir na instalação de grandes corredores de transportes, justamente nesses espaços onde foi definido, previamente, que mais pessoas irão circular. O modelo de Curitiba e o atual plano diretor de São Paulo foram pensados levando em conta essa premissa.

Por último, precisamos ter em mente que não é possível fazer um planejamento estático, ele sempre precisará ser revisto porque, mesmo que bem feito, as necessidades mudam. O planejamento é uma atividade constante. A todo instante os gestores têm que estar pensando a cidade e se adequando à dinâmica urbana dela. E nós como cidadãos precisamos aprender a cobrar isso dos gestores públicos, para que as soluções como ciclovias ou iluminação inteligentes sejam mais eficazes.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

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