Comunicação para a transformação socioambiental

As soluções de sustentabilidade funcionam melhor, são mais viáveis e têm mais sinergia quando implantadas em escala e no momento certo

Iluminação de LED, blocos fotovoltaicos, piso vazado no lugar de asfalto, irrigação inteligente, bicicletas compartilhadas, ciclofaixas, bancos de mudas, sistemas de controle de qualidade do ar e da água etc. Existem várias soluções para reduzir o nosso impacto ambiental e melhorar nossa qualidade de vida nas cidades. Todas elas funcionam muito melhor quando são pensadas com antecedência. Se elas são elaboradas de maneira conjunta, integrada, melhor ainda. Parece filme futurista, mas é exatamente isso o que acontece em uma cidade planejada de forma inteligente.

Já existem algumas delas sendo construídas aqui no Brasil. Uma delas é a smart city de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza, no Ceará. Planejada em uma área de 200 hectares para 18 mil pessoas, a cidade promete disponibilizar mais de 50 soluções integradas nas áreas de tecnologia, meio ambiente, inovação social, planejamento e arquitetura. Susanna Marchionni, CEO da Planeta Smart City, empresa responsável pelo empreendimento, explica que para que tudo funcione numa cidade assim, três coisas são fundamentais: planejar, treinar e engajar.

“Quando as smart cities começam a ser construídas, não têm moradores e tudo parece um exagero. Mas, depois, tudo faz sentido”, explica Susanna Marchionni. As cidades construídas pela Planet Smart City, são planejadas com faixas exclusivas separadas para carros, bicicletas e ônibus, por exemplo. Há quem diga que isso significa lotes perdidos, mas para fazer isso depois seria preciso derrubar casas. “A ciclofaixa anda pela cidade toda, o que significa que você pode morar em um extremo da cidade e ir para o outro de bicicleta, não precisa ter um carro.” Sem planejamento, nada disso seria possível.

Outro exemplo é a rede elétrica subterrânea, que oferece diversas vantagens ambientais, além de resolver o problema do roubo de cabos. Mas para fazer isso em uma cidade que já existe, é necessário quebrar tudo, o que torna o processo difícil e caro, ou seja, praticamente inviável. Isso até foi feito em algumas ruas nobres como a Oscar Freire, em São Paulo, e a Visconde Pirajá, no Rio de Janeiro, mas é pouco provável que aconteça em outros lugares, justamente porque é trabalhoso demais. Fibra ótica e qualquer tipo de cabeamento são outros exemplos. Tudo o que está embaixo do piso, se não for planejado antes, significa muita quebradeira depois.

Não dá para voltar no tempo, mas algumas soluções deveriam ser regra pelo menos nos projetos que começam do zero. “Se as prefeituras entendem o valor do planejamento, a qualidade de vida é outra”, defende Susanna. Em algumas cidades inteligentes, existe até o que eles chamam de “tubulação preventiva”, ou seja, são instalados canos a mais, para não seja preciso quebrar tudo, caso surja uma necessidade nova no futuro, como algum dano no sistema atual. Parece um gasto a mais, mas é uma economia a longo prazo. Nas smart cities, cerca de 40% do valor total gasto em infraestrutura fica no subsolo, que tenta antecipar o que a cidade vai ser.

Quando todas as soluções são instaladas desde o começo de um projeto, também há uma economia dos custos de implantação, já que tudo fica mais barato quando comprado em escala. Esse valor pode ser a diferença entre tornar uma solução viável ou não, pois pode deixar economicamente possível mesmo aquelas soluções tidas como caras. Outra grande vantagem de pensar tudo junto é a sinergia propriamente dita, porque uma solução ajuda a outra. E é também na etapa de planejamento que se garante que tudo funcione ao mesmo tempo, de maneira integrada.

Tecnologia é o meio, não o fim
Susanna explica que, numa cidade inteligente, a tecnologia é o meio e não o fim, que é o de proporcionar mais qualidade de vida para as pessoas, da forma mais sustentável possível. O planejamento é a base de tudo, mas, além de infraestrutura, ele precisa focar nas pessoas. Por isso, todo morador aprende, assim que se muda para uma cidade como essa, sobre as soluções smart e o que ele pode fazer com elas. “Você pode ter o melhor aplicativo do mundo, mas, se as pessoas não usam, é o mesmo que não ter. Temos, por exemplo, equipamentos de exercício que geram energia cinética, ou seja, dá para malhar e carregar o celular ao mesmo tempo. Mas as pessoas precisam saber como fazer isso.”

Nas comunidades planejadas pela Planet, tudo é integrado em um aplicativo, que funciona como um painel de controle da cidade e que pode, inclusive, integrá-la com outras smart cities. Assim, além da venda de lotes, a empresa lucra com a venda de serviços, que também tem parte do seu valor destinado à manutenção dos projetos sociais daquele lugar. Nas cidades do futuro ninguém vai comprar simplesmente um lote ou uma casa, mas sim todos os serviços compartilhados e benefícios que vêm junto com a escolha daquele local. “Você tem biblioteca e cinema gratuitos, o seu filho aprende a falar inglês, mas você tem deveres. Precisamos parar de pensar que aquilo que é público não é de ninguém, porque é de todos”, diz Susanna.

Mas, por enquanto, esse exemplo das cidades inteligentes ainda é um sonho para a maior parte do Brasil. “O que a gente tem é uma falta de planejamento”, afirma David Shiling Tsai, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Segundo ele, mesmo as cidades planejadas fizeram isso de maneira incompleta, como nos casos clássicos de Brasília, Belo Horizonte e Goiânia, em que o planejamento foi feito desde o início, mas não deu conta de atender às necessidades de uma população crescente. “Existe uma área planejada restrita, que pode até funcionar, e um abandono das ‘franjas da cidade’”, observa.

David também destaca que existem planejamentos e planejamentos. Brasília, por exemplo, foi planejada para carros, com grandes áreas espaçadas e rodovias largas. Por outro lado, este arranjo torna-se ineficiente para os sistemas elétrico, de saneamento e de transportes públicos. “Você precisa de mais fios, de mais canos e de pessoas se deslocando por distância maiores, gastando mais combustível e mais tempo no transporte”, explica. Ou seja, mesmo que uma tecnologia aumente a eficiência dos veículos em uma porcentagem significativa, esse valor já foi perdido no planejamento da cidade. “A gente só consegue evitar viagens se a forma de ocupar o território é pensada para isso. Por exemplo, com oportunidades de trabalho perto da moradia das pessoas.”

Isso tem tudo a ver com o desenvolvimento orientado aos transportes, da sigla DOT, já bem consolidada entre os urbanistas. O modelo consiste em estimular certos comportamentos, regulando, por exemplo, os tipos de edificações, limitando o número de andares em um prédio. O objetivo é controlar melhor o fluxo de movimentação de pessoas. Assim, o gestor sabe exatamente onde terá que investir na instalação de grandes corredores de transportes, justamente nesses espaços onde foi definido, previamente, que mais pessoas irão circular. O modelo de Curitiba e o atual plano diretor de São Paulo foram pensados levando em conta essa premissa.

Por último, precisamos ter em mente que não é possível fazer um planejamento estático, ele sempre precisará ser revisto porque, mesmo que bem feito, as necessidades mudam. O planejamento é uma atividade constante. A todo instante os gestores têm que estar pensando a cidade e se adequando à dinâmica urbana dela. E nós como cidadãos precisamos aprender a cobrar isso dos gestores públicos, para que as soluções como ciclovias ou iluminação inteligentes sejam mais eficazes.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Divulgação

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