Porque a Amazônia precisa estar no centro do debate eleitoral

A recuperação econômica e a segurança do Brasil dependem do uso sustentável da floresta
Se existe uma certeza sobre as eleições deste ano é que a economia será o principal fator para decidir o voto. Com a crise entrando na casa de todo mundo, roubando conquistas das últimas décadas, essa é a principal preocupação do brasileiro. Diversas pesquisas consistentemente mostram que os temas mais relevantes para o eleitor este ano são inflação, desemprego e custo de vida. Todo mundo já entendeu que o mais importante agora no palanque da campanha é garantir que vai botar comida no prato, segurar a conta de luz, gerar emprego e trazer os investimentos de volta para o Brasil. O que pouca gente entendeu ainda é que para cumprir estes quatro desafios, a Amazônia precisa estar no centro do debate. O Dia do Meio Ambiente é agora 5 de junho. Mas o dia decisivo para o meio ambiente e o desenvolvimento do Brasil será o primeiro turno das eleições.

Por que a Amazônia deve ser o tema eleitoral deste ano? Começando pela comida no prato. A Amazônia é a fábrica de chuvas do Brasil. Pesquisas científicas já mostram como o desmatamento está reduzindo a precipitação nas principais áreas agrícolas do Brasil, ameaçando redução nas safras e aumento nos preços dos alimentos. A última crise hídrica do final do ano passado já deu um aperitivo disso. Além de garantir a comida no prato do resto do Brasil, a floresta também provê a mesa da população local com itens básicos e tradicionais como peixe, farinha, açaí, pimenta, palmito, etc. A crise hídrica também mostrou como a Amazônia gera as chuvas que alimentam as turbinas das nossas hidrelétricas, evitam a ligação das termelétricas e mantém a conta de luz sob controle.

Seguindo em nossas lista de preocupações do eleitor, para o Brasil gerar empregos em quantidade e qualidade para dar um futuro melhor para nossos jovens, a floresta Amazônia é praticamente nossa única esperança. A Amazônia é o nosso grande diferencial no resto do mundo. Com a floresta, podemos criar produtos únicos, capazes de competir nos mercados globais. Com o cacau da Amazônia, já há produtores fazendo alguns dos melhores chocolates do mundo. Grandes empresas de cosmética e higiene pessoal exportam produtos com ingredientes únicos da floresta. Nossa biodiversidade é uma fonte inesgotável de produtos e marcas sem igual no planeta. A madeira do Brasil foi praticamente proscrita dos mercados globais, por causa da má fama trazida pela exploração ilegal. Mas o uso sustentável pode abastecer os mercados do mundo, de forma inesgotável, gerando mais renda e empregos por hectare do que qualquer outra atividade econômica.

Finalmente, se mostrarmos que estamos fazendo nosso dever de casa para voltar a reduzir o desmatamento na Amazônia, abriremos o cofre do investimento internacional. A maior ameaça à humanidade (depois apenas do arsenal nuclear russo) são as mudanças climáticas. O maior fator isolado no planeta para para segurar o aquecimento global é a manutenção da floresta amazônica. Os países estão dispostos a pagar por isso. O maior programa do mundo de transferência de dinheiro para um país se desenvolver e preservar é o Fundo Amazônia, que foi suspenso pelo governo atual. Todos os outros grandes fundos de ajuda multilateral estão condicionados à redução das emissões. Nós conseguimos reduzir 80% do desmatamento entre 2008 e 2012 enquanto o PIB do Brasil cresceu como nunca e nossas exportações agrícolas idem. Temos tudo para fazer melhor agora.

Além disso, a forma mais eficiente e barata para tirar carbono da atmosfera é plantar árvores. A Amazônia brasileira tem o maior e melhor estoque de terras disponíveis para isso. De tudo que foi desmatado, cerca de 90% está abandonado ou subutilizado. Essa terra ensolarada, equivalente a área da Alemanha, é vista como o melhor negócio para as empresas reflorestarem e ganharem créditos de carbono. A gente só precisa criar condições de segurança para isso.

Segurança, por sinal, é uma preocupação importante do eleitor brasileiro depois da economia. Com razão. Diante da falta de governo na região nos últimos anos, a Amazônia foi invadida pelos bandidos. As grandes facções criminosas do Sudeste criaram bases na Amazônia e hoje dominam as rotas de tráfico internacional por lá. Essas quadrilhas também estão ligadas ao garimpo clandestino em terras indígenas, à madeira ilegal e ao roubo de terras públicas (também conhecido como grilagem), maior causa do desmatamento na região. Por causa disso, a violência explodiu na região. Se a Amazônia fosse um país, estaria em quarto lugar no ranking mundial de assassinatos. Precisamos restabelecer a ordem nessas áreas, sob o risco de termos em breve grandes territórios fora de controle, que ameaçam a integridade de todo o país, como já aconteceu na Colômbia e agora ocorre no México.

Por tudo isso, a Amazônia precisa estar no centro do debate eleitoral. É por isso que estamos lançando a campanha Amazônia no Centro (amazonianocentro.org.br). A partir de agora até a votação, forneceremos informações e conhecimentos para o eleitor entender que deve escolher candidatos comprometidos com o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Para garantir nossa recuperação econômica no presente e o nosso progresso no futuro.

Este artigo foi publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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Evento em SP reúne especialistas para discutir eletrificação dos transportes públicos

A Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME) e TUMI E-Bus Mission realizam, nos próximos dias 23 e 24 de junho, em São Paulo, o evento “Eletrificação do transporte público no Brasil” a fim de destacar a relevância de incluir efetivamente o tema da eletrificação dos transportes públicos no contexto das atuais discussões climáticas e econômicas. Durante os dois dias de programação, diversos especialistas irão discutir os caminhos para viabilizar a mobilidade urbana sustentável, especialmente nos grandes centros, compreendendo que este é um debate que vai além da preocupação com a eficiência do transporte e dos deslocamentos pois abarca aspectos como qualidade de vida e bem-estar urbano, assim como influencia no desenvolvimento econômico do país.

O evento será realizado no contexto do Parque da Mobilidade Urbana (PMU) e é aberto a participantes de diferentes setores que estejam interessados na discussão do tema da mobilidade elétrica. Os painéis, que acontecem no Palco 5 – Parque da Independência, tratarão especificamente de transportes públicos e visam agregar conhecimento técnico para reiterar a relevância da eletrificação como uma ferramenta no processo necessário e urgente de repensar a mobilidade urbana como um vetor de combate às mudanças climáticas e de incentivo à uma economia mais verde e sustentável.

Urgência climática e socioeconômica
A necessidade de discussão da mobilidade não é nova, a mobilidade sustentável tem se consolidado cada vez mais como um dos caminhos para fortalecer a retomada de uma economia mais justa e sustentável.

O setor de transporte é um dos maiores consumidores de energia e o maior responsável pelas emissões de gases de efeito estufa nas cidades, contribuindo também em grande parte para os problemas de poluição, que são especialmente críticos nos grandes centros urbanos. A perda de tempo nos deslocamentos é também um problema cada vez mais comum que contribui para a redução de produtividade e de oportunidades para grande parte da sociedade.

Considerando os diferentes impactos negativos que podem ser mitigados a partir de uma política pública consistente de mobilidade, é cada vez mais indiscutível que os projetos de mobilidade urbana devem ser entendidos como parte de um ecossistema maior, no qual estão também incluídas questões relacionadas à infraestrutura, saúde, verde e meio ambiente, cidadania, redução de desigualdades, além é claro, de transportes.

Neste contexto, para que sejam implementadas políticas públicas que acelerem a mobilidade elétrica e que fomentem sua articulação com outros setores, entre eles transportes, energia e indústria, é essencial a existência de políticas coordenadas a nível federal. Apenas com uma diretriz nacional clara e objetiva é que a mobilidade urbana poderá atuar verdadeiramente como uma ferramenta relevante no enfrentamento da crise climática e econômica, proporcionando um ambiente mais justo e sustentável para todos.

Entre os principais objetivos do evento, estão:

– Discutir os instrumentos de gestão do transporte coletivo nas cidades e as interfaces entre as diferentes esferas de poder público para alcançar uma gestão eficiente desse serviço;
– Discutir formas de financiamento possíveis para que a transição tecnológica se dê sem onerar os usuários do sistema de transporte coletivo;
– Discutir o papel da indústria e do mercado no ecossistema para acelerar a transição tecnológica dos veículos;
– Apresentar dados atuais da mobilidade elétrica que subsidiem de forma consistente a proposição de políticas públicas para o setor;
– Discutir quais as ferramentas existentes e necessárias para que os municípios consigam promover e sustentar o processo de eletrificação de suas frotas;
– Reforçar a importância da mobilidade elétrica na promoção global da economia verde e da justiça climática e o protagonismo do poder público federal nessa discussão.

Programação

23 de junho (quinta-feira)

14:00 – 15:30
Quais são as mudanças previstas na revisão do Marco Legal do Transporte Público Coletivo?

O que queremos abordar neste painel: Quais são os instrumentos de gestão do transporte coletivo nas cidades? Quais são as mudanças necessárias no modelo de contratação? Qual é o papel e a responsabilidade dos governos no âmbito estadual e federal? Como fazer uma gestão metropolitana eficiente?

Palestrantes: Sandra Maria Santos Holanda, Secretaria Nacional de Mobilidade e Desenvolvimento Regional e Urbano – MDR – Ministério do Desenvolvimento Regional / Conrado Grava de Souza, ANPTrilhos – Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos / Rafael Calabria, Coordenador do Programa de Mobilidade Urbana – IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor /Francisco Christovam, Presidente e Vice-presidente Urbano – NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos e FETPESP – Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo / Moderação: Marcus Regis, Coordenador – PNME – Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica

16:00 – 17:30
Como viabilizar a eletromobilidade do transporte coletivo no Brasil?

O que queremos abordar neste painel: Como será o financiamento e quais são as mudanças regulatórias e contratuais necessárias? Qual será o papel dos estados e municípios para eletrificação do transporte no Brasil? Qual será o modelo tarifário adotado e as garantias para o modelo de negócio? Teremos mão de obra e insumos necessários no Brasil para essa mudança?

Palestrantes: Carlos Eduardo Souza, Responsável e-city – Enel X / Marcel Martin, Coordenador do Portfólio de Transporte – iCS – Instituto Clima e Sociedade / Camilo Adas, Presidente – SAE / Moderação: Marcus Regis, Coordenador – PNME – Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica

24 de junho (sexta-feira)

10:00 – 11:00
Qual o papel das empresas para a transição da mobilidade sustentável? Qual o cenário para eletrificação do transporte público no Brasil?

O que queremos abordar neste painel: Qual é a perspectiva para eletrificação do mercado de transporte de carga e passageiros no Brasil? Quais são as oportunidades e desafios para a eletrificação desse mercado? Qual é o papel das empresas desse ecossistema para acelerar essa transição?

Palestrantes: Sérgio Avelleda, Consultor Sênior de Mobilidade – BYD do Brasil / Iêda Oliveira, Diretoria Comercial – Eletra / Moderação: Rodrigo Tortoriello, Sócio-Fundador – RT2 Consultoria

11:00 – 12:00
Lançamento do Tomo 1 do 2º Anuário da Mobilidade Elétrica

Palestrantes: Robson Cruz, Diretor da Barrasa & Cruz Consulting / Carmen Araújo, Brazil Managing Director ICCT / David Tsai, Instituto Energia e Meio Ambiente – IEMA / Ana Jayme, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC)

14:00 – 15:00
Quais os desafios e oportunidades para o financiamento de projetos de ônibus elétricos no Brasil?

O que queremos abordar neste painel: Quais são aspectos da concepção de projetos de ônibus elétricos no Brasil que impactam na modelagem financeira e no acesso a financiamento? Como os municípios vem encarando esses desafios? Como esses aspectos devem ser encarados pelos potenciais investidores no setor?

Palestrantes: Rodrigo Bruno, Consultor – Euromonitor International George Gidali, Diretor de Gestão de Receita e Remuneração da SPTrans / Leticia Diniz Dominguez Lima, Diretora de Gestão de Projetos Especiais de São José dos Campos / Daiane Masson, Diretora técnica – SUDERF – Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Florianópolis / Filipe Souza, Urban Mobility / Coordinator – BNDES Moderação: Cristina Albuquerque, Gerente de Mobilidade Urbana – WRI

15:00 – 16:00
A Transformative Urban Mobility Initiative (TUMI) e a ‘just transition’ no Brasil

O que queremos abordar neste painel: Qual o papel da mobilidade elétrica na ‘just transition’? Como o Brasil se coloca na promoção dessa transição global? As metas dos municípios refletem o processo de transição global? Como a TUMI E-Bus Mission está apoiando os municípios a avançarem na transição de frota?

Palestrantes: Cristina Albuquerque, Gerente de Mobilidade Urbana – WRI / Ana Terra, Mission Manager – C40 / Clarisse Cunha Linke, Diretora Executiva – ITDP – Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento / Eleonora Pazos, Head of Latin America Office – UITP – União Internacional de Transporte Público / Rodrigo Corradi, Secretário Executivo Adjunto do ICLEI América do Sul / Moderação: Jens Giersdorf, Management Head – TUMI, GIZ

16:00 – 17:30
Mobilidade Elétrica, Clima, Energia e Economia: oportunidades para o Brasil e como aproveitá-las

O que queremos abordar neste painel: Recentemente a revista The Guardian publicou uma matéria investigativa especial sobre como as grandes empresas de petróleo e gás planejam investir em dezenas de grandes projetos que ameaçam quebrar a meta climática de 1,5°C, o que demanda uma ação imediata por parte dos governos. Qual é a importância desse tema no Brasil? Qual é o papel dos atores para acelerar a transição da matriz energética do transporte coletivo? Quais são os desafios a serem enfrentados?

Palestrantes: Camila Gramkow, Oficial de Assuntos Econômicos na CEPAL Brasil / Walter de Simone, Diretor Instituto Talanoa / Milton Leite, Vereador na Câmara Municipal de São Paulo / Carlos Eduardo Souza, Responsável e-city Enel X

Foto: deposiphotos

Campanha defende ônibus elétricos limpos e confortáveis para a população

Um dos maiores problemas das cidades brasileiras é a falta de transporte público adequado. As pessoas, principalmente as que moram nas periferias, penam com falta de ônibus adequados. São poucos veículos, desconfortáveis, poluentes, barulhentos, jogando fumaça causadora de doenças respiratórias no ar. Enquanto isso, o mundo todo passa por uma revolução na mobilidade, adotando veículos elétricos. E o Brasil está ficando para trás. A nossa prioridade deve ser fazer a transição para os ônibus elétricos. Pensando nisso, a Plataforma Nacional de Mobilidade Elétrica (PNME) lança, nesta quinta-feira (09.06), a campanha Via Elétrica.

A iniciativa vai concentrar os trabalhos de redes, empresas, governos e organizações que trabalham pela transição energética na mobilidade das cidades e que, por esse motivo, têm gerado conhecimento e promovido a conexão entre as partes interessadas a fim de viabilizar essa urgente transição. A PNME é uma plataforma multidisciplinar que reúne mais de 30 instituições da indústria, governo, sociedade civil e academia para construir soluções concretas e propostas de políticas públicas para a mobilidade elétrica no Brasil.

Os veículos movidos a combustíveis fósseis já são tratados como coisa do passado em diversas partes do mundo, já que a eletromobilidade está diretamente alinhada com o esforço global de enfrentamento às mudanças climáticas. Para isso, especialistas em mobilidade urbana apontam que, no Brasil, é preciso acelerar a eletrificação através dos ônibus, ou seja, pelo transporte coletivo. “Esta é uma solução boa para todos, afinal, os ônibus do transporte coletivo são o meio mais utilizado pela maioria da população. Mesmo que a eletrificação de carros ocorresse por completo, ainda assim teríamos milhares de pessoas utilizando diariamente um transporte público poluente, cujos impactos negativos à saúde e à qualidade do ar seriam sentidos por todos: tanto quem anda de ônibus, quanto quem anda de carro”, explica Marcel Martin, coordenador do portfólio de Transportes do Instituto Clima e Sociedade (iCS), apoiador da iniciativa.

Segundo a ONU, a poluição atmosférica é hoje a primeira causa ambiental de adoecimento e mortalidade no mundo e provoca 7 milhões de mortes prematuras todos os anos. Ou seja, continuar dependendo de combustíveis poluentes é, além de atrasada, uma escolha perigosa e que afeta a todos, sem exceção.

Mas os benefícios de escolher uma energia limpa para os veículos em circulação no Brasil não ficam restritos à saúde pública, uma vez que os ganhos podem ser refletidos também na economia do país. A Europa e os Estados Unidos avançam na migração para a chamada indústria do futuro, em que a eletromobilidade é prioridade. Da mesma forma, todos os planos de desenvolvimento em países da União Europeia e na China incluem a eletromobilidade e a economia de baixo carbono como a solução não só para o enfrentamento das mudanças climáticas, mas também para o progresso econômico. Embora em países próximos, como Chile e Colômbia, avançam a passos largos na eletrificação das frotas, essa revolução acontece em ritmo ainda lento no Brasil. Entre os motivos que atrasam o nosso desenvolvimento está a falta de priorização de políticas públicas e de investimentos para acelerar o setor.

Cidades protagonistas
Segundo manifesto da campanha Via Elétrica, que pode ser acessado no site da iniciativa, os municípios são protagonistas neste processo já que têm o poder de regular as concessões de ônibus e, por isso, podem exigir que haja a transição energética das frotas. Mesmo em concessões existentes é possível promover a eletrificação, desde que o usuário não pague esta conta. Dados do International Council on Clean Transportation (ICCT) estimam uma redução de até 60% no custo operacional de ônibus elétricos em comparação com aqueles movidos a diesel.

Todo esse movimento na direção da eletrificação do transporte coletivo já impulsiona prefeitos e secretários de Transporte e Mobilidade a implementar políticas públicas que pavimentam o caminho para viabilizar a transição para frotas limpas. Os pedidos da campanha para dar escala à eletrificação dos ônibus nas cidades são para que:

– Haja maior oferta com preço justo de ônibus elétricos por parte dos fabricantes;
– Os fabricantes sejam responsáveis com seus compromissos para o enfrentamento às mudanças climáticas e ofertem produtos que sejam zero emissões;
– O governo federal faça parcerias com governos municipais e garanta políticas públicas e financiamento que promovam a eletrificação;
– Os municípios que já possuem metas de descarbonização estabelecidas as cumpram dentro prazo determinado;
– Os municípios que não têm políticas de descarbonização prevejam metas claras;
– O arcabouço legal do sistema de transporte por ônibus seja reformulado com o estabelecimento de um Marco Regulatório que promova a descarbonização do setor, transparência e qualidade dos serviços.

Saiba mais sobre a campanha no site oficial: www.viaeletrica.org.br

Prêmio Melhores ONGs divulga quem passou para a segunda fase de 2022

Lista de organizações que passaram já está no ar. Quem passou tem até o dia 13 de junho para responder o novo questionário

Já está disponível a lista das organizações que foram aprovadas na primeira fase da edição 2022 do Prêmio Melhores ONGs. A partir desta terça-feira (10/5) as organizações selecionadas podem começar a responder o questionário da segunda fase, uma avaliação mais detalhada que ajudará a banca a selecionar as melhores ONGs do Brasil. O prazo vai até o dia 13 de junho.

As organizações selecionadas vão receber um email da coordenação do Prêmio e devem responder EXCLUSIVAMENTE pelo link que chegar por lá.

Quer saber se a sua ONG está na lista? Confira aqui.

E quem não passou?

As ONGs que não foram selecionadas para a segunda fase devem receber uma devolutiva até o mês de agosto. A intenção desse feedback é que elas saibam em que pontos devem investir para chegarem mais fortes à edição de 2023.

3 dicas para quem passou

Fernando Nogueira, que é pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e, desde a primeira edição, coordena a comissão avaliadora do prêmio, dá três dicas valiosas para as que passaram:

1. Os documentos enviados na segunda fase são muito importantes. Não avaliamos a aparência ou diagramação, mas o conteúdo. Esses materiais precisam ser consistentes com a realidade, porte e desenvolvimento da organização. É interessante que as informações estejam bem organizadas, mas o fato de o documento ser elaborado por um profissional de design ou consultoria não conta pontos.

2. Para as respostas abertas, a principal dica é relê-las e verificar se elas realmente respondem tudo o que foi pedido. Uma boa ideia é pedir para outra pessoa ler aquilo que foi escrito, como um voluntário ou alguém do departamento de comunicação. Essa pessoa pode dar alguns feedbacks que ajudem a melhorar a clareza do documento final a ser enviado.

3. A consistência também conta pontos. Nossa banca avaliadora compara as respostas da primeira e da segunda fase para avaliar esse quesito. Várias das perguntas da segunda fase são continuações, com aprofundamento, de questões que começaram a ser levantadas na primeira. Se na primeira fase a organização respondeu que tinha um plano de comunicação, por exemplo, esse documento terá que ser enviado na segunda. Isso nos dá mais evidências sobre a qualidade e confiabilidade das informações. fornecidas pela ONG.

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Qual tecnologia irá nos levar para a era verde?

O Brasil precisa incentivar as inovações que nos deixarão prontos para aproveitar o melhor da transição econômica socioambiental

Por Gaston Santi Kremer

Tem-se como lugar comum que as grandes transições dos tempos modernos foram causadas por avanços tecnológicos vertiginosos. Da primeira à quarta revolução industrial, da máquina a vapor à internet das coisas, a ideia de que essas transições acontecem por saltos de inovação tecnológica que aparentemente se dão em um vácuo é amplamente difundida, passando a equivocada impressão de que esses avanços acontecem quase que independentemente do contexto social, institucional e econômico. Por outro lado, o Centro Yunus da Universidade de Griffith na Austrália, argumenta que para que as inovações tecnológicas contribuam para as grandes transições, ciclos de inovação social, pública e cívicas devem permear e ser permeados por esses desenvolvimentos de soluções.

Ao que tudo indica, incluindo o último relatório do IPCC, estamos em um momento crítico em relação a necessidade de uma transição em direção a uma era verde, sustentável e até regenerativa, a depender do interlocutor. É imperativo sair da armadilha de que o desenvolvimento tecnológico é a força motriz dessa transição tão imprescindível. Mas como? Em teoria e já em alguns casos práticos, existem exemplos de inovação tecnológica participativa e de processos sociais sendo permeados pelo desenvolvimento tecnológico. Transition Design, por exemplo, é uma resposta crítica ao Design Thinking, metodologia amplamente difundida por inovadores de todos os matizes. Essa nova escola do design se caracteriza como uma prática emergente baseada na proposição de que estamos inseridos em uma transição caracterizada por complexos desafios sociais, econômicos e ambientais. Sua premissa central: a prática do design tem um papel essencial para vislumbrar e dar origem a um futuro mais sustentável.

Distintos países, notadamente do norte do globo, têm desenhado suas transições levando em consideração essa complexidade, reconhecendo a interdependência que as soluções devem endereçar neste processo. Dan Hiller, por exemplo, é Designer estratégico na Vinnova, Agência de Inovação sueca. Seu trabalho consiste em “arrastar essas grandes questões, esses desafios sistêmicos, para baixo e tentando torná-los o mais tangíveis possível, para então descobrir o que e quem reunimos, a fim de abordar o desafio, bem como a forma que o trabalho pode assumir.” Exemplificando, ainda que de forma genérica, reflete seu papel na instituição com a seguinte digressão: “talvez você tenha o financiamento, mas precisa mudar uma política ou lei para desbloquear novos resultados, talvez você não precise necessariamente de novo financiamento para isso, mas precisa tanto de adesão política quanto de cidadãos a bordo, para que isso seja legítimo.” Outro conceito importante para navegar os tempos da transição vigente e que vem ganhando tração, especialmente na última década, é o de Mission Oriented Innovation (MOI). Recentemente esta mesma Vinnova, lançou um estudo abordando o tema no contexto sueco, assim como o Canadá lançou o seu Canada’s Moonshot: Solving grand challenges through transformational innovation. Este último conta com uma premissa que talvez seja denominador comum nas políticas inseridas no conceito de MOI: Como adotar uma abordagem mais holística para repensar as políticas de inovação do Canadá, centrando a inclusão, a equidade e a reconciliação?

E o Brasil com isso? Estamos preparados para esse momento de inflexão na história? Em 2016, através da CGEE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, foi lançado o estudo O Sistema de Inovação Brasileiro: uma proposta orientada por missões, de autoria de Mariana Mazzucato e Caetano Penna. Este estudo já preconizava, de forma muito pioneira no Sul global, a adoção de políticas de inovação que enderecem grandes missões da transição atual a partir de abordagem sistêmica, considerando nossos desafios e potencialidades socioambientais. Após oito anos, os desafios se aprofundaram, mas pouco avançamos na orquestração do sistema nacional de inovação. No último dia 9 de Março, no lançamento da “Série Projeto para um novo Brasil – Seminário Ciência, Tecnologia e Inovação”, da SBPC, a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco e ex-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lucia Melo, ressaltou a necessidade de missões de CT&I voltadas a objetivos definidos pela sociedade em parceria com os entes federativos. Algumas instituições vêm buscando, ainda que de forma relativamente isolada, adotar a lógica de missões, como a Fapesp em algumas linhas de financiamento e a própria ABDE, inclusive ambas realizando eventos contando com a participação da já citada rockstar de MOI, Professora Mazzucato.

É inegável de que estamos vivendo uma fase de transição devido ao acavalamento de crises e soluções. Para garantir que esse fenômeno enderece de forma sustentável e justa esta transição, uma abordagem holística de inovação deve ser adotada. Endereçar os grandes desafios dos nossos tempos através da lógica de missões permite a construção de futuros desejáveis. No Brasil, existe a profunda necessidade de articulação, participação, direcionalidade e financiamento para as inovações que darão conta do gigantesco potencial e dos complexos desafios que podem tornar-nos líderes da nova época que se avizinha. Os ventos de mudança já sopram fortes e é mais do que a hora de adaptar-nos para a transição que já começou.

*Gaston Santi Kremer é Diretor de Programas da World-Transforming Technologies (WTT).

Este artigo foi, originalmente, publicado na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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Cinco dicas para sua empresa ficar bem com o clima

Como atender às exigências dos consumidores, investidores e reguladores em relação às mudanças climáticas

Por Daniela Stump e Maria Fernanda Aguiar*

Lidar com os desafios colocados pelas mudanças climáticas será cada vez mais decisivo para o sucesso das empresas. Isso irá ocorrer seja por causa das escolhas dos consumidores ou das decisões dos investidores; seja pelos possíveis impactos gerados por eventos extremos; ou mesmo pelas normas que vêm sendo impostas pelos órgãos reguladores financeiros e de mercado. O desafio das empresas é incorporar as variáveis climáticas rapidamente em todas as áreas do negócio.

Aqui vão algumas dicas que podem ajudar as empresas a adotarem uma agenda para implementar sua governança climática, gerenciando riscos e oportunidades com base na ciência e em protocolos internacionalmente reconhecidos.

    Entenda o que é ser net-zero

Quando falamos em mudança climática, uma série de termos e expressões vem à tona: compromisso net-zero é um deles. É fundamental termos em mente o que significa esse conceito, que vai além de reduzir a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).

De acordo com o glossário do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC), o termo net-zero consiste no ponto de equilíbrio no qual a quantidade de GEE emitida é equivalente à quantidade removida da atmosfera. Para obter esse resultado e atingir a meta net-zero, as empresas devem inventariar e eliminar ao máximo as emissões de GEE, próprias e da sua cadeia de valor. As emissões que não puderem ser reduzidas devem ser compensadas por atividades que removam quantidades equivalentes permanentemente da atmosfera (por exemplo, por meio de atividades como o sequestro de carbono promovido por atividades de reflorestamento).

Com o objetivo a longo prazo de contribuir com a meta de se tornar net-zero até 2050, em linha com as recomendações científicas e do Acordo de Paris, é fundamental o engajamento de toda a cadeia produtiva. Para tanto, é preciso inventariar e realizar monitoramento de emissões indiretas de fornecedores e clientes.

Há iniciativas que auxiliam no processo de definição de metas visando a uma economia de baixo carbono, gerando mais segurança e credibilidade para o processo. Destacamos a iniciativa Science Based Targets (SBTi) que mobiliza empresas a adotarem metas baseadas na ciência para a redução de suas emissões de GEE. Uma empresa pode aderir à SBTi ao se comprometer a elaborar uma meta de redução de forma alinhada à ciência, devendo seguir as diretrizes e recomendações dessa iniciativa para sua elaboração, engajamento, validação e reporte.

    Trace um plano consistente para alcançar as metas compromissadas

Se você já conhece as fontes de emissões de GEE e as oportunidades existentes para reduzi-las (e, como último recurso, removê-las), é hora de traçar um bom plano para atingir as metas compromissadas de longo prazo e intermediárias.

A ciência diz que é preciso chegar a emissões líquidas zero até 2050. Portanto, é de se pensar que, em 2030, deveríamos estar no meio do caminho. No entanto, é preciso compreender que não necessariamente as mesmas decisões tomadas para a redução de emissões até 2030 contribuem para a meta de 2050. Veja o exemplo dado por Bill Gates no seu livro Como Evitar um Desastre Climático. Para alcançar reduções em 2030, uma decisão aparentemente acertada seria substituir as térmicas a gás por térmicas a carvão. Mas, considerando que as térmicas a gás deverão ainda estar operando em 2050, para que se amortize os investimentos realizados, a meta de zerar as emissões líquidas ficaria prejudicada. A melhor decisão aqui, de acordo com o autor, seria investir em fonte de eletricidade zero carbono confiável e de baixo custo e eletrificar o máximo possível.

As ações para alcance das metas devem ser estabelecidas de forma a serem mensuradas e verificadas por terceiros, tornando o plano passível de monitoramento pelos stakeholders. Nesse sentido, é interessante que a organização adote indicadores que estejam alinhados com ferramentas que têm sido utilizadas por investidores para realização de benchmarking, tais como a Climate Action 100+ Net Zero Company Benchmark.

    Engaje a alta liderança

O engajamento da liderança quando o assunto é transição para uma economia de baixo carbono é premissa básica. Embora o assunto passe por aspectos técnicos que demandam atenção da área operacional, os investimentos necessários para a redução da intensidade de carbono na cadeia produtiva não parecerão nada atrativos sem a visão estratégica a longo prazo. Há oportunidades na redução de emissões e na mudança da chave para uma produção mais limpa – mas elas precisam estar alinhadas a um modelo de negócios que consiga capturar o valor do carbono evitado com prazos compatíveis.

    Nomeie um(a) responsável pela execução do plano

A elaboração e a implementação de um plano para a redução de emissões de GEE deverão envolver, senão todos, diversos setores da empresa. O alcance das metas é tão importante quanto desafiador e não poderá ser tocado de forma lateral, sem uma concertação de esforços. Um manifesto assinado por investidores institucionais de peso, reunidos no The Institutional Investors Group on Climate Change (IIGCC) invocou as organizações a identificarem os diretores aos quais deve ser atribuída a responsabilidade pela execução e divulgação do plano. Fazendo um paralelo com outras áreas que demandam um ponto focal para a efetivação de ações corporativas, de hoje em diante não será incomum vermos a posição de Climate Change Chief Officer (CCCO) nas organizações.

    Comunique de forma consistente

Ponto fundamental após elaborar um plano de redução de emissões de GEE é o seu relato e acompanhamento de forma consistente e padronizada. Cada vez mais, investidores em todo mundo estão olhando e mensurando riscos climáticos de potenciais investimentos e setores. Por isso, é importante que a forma de relato seja coesa e siga diretrizes e metodologias internacionais. O Grupo de Trabalho sobre Divulgação Financeira Relacionada ao Clima (TCFD) oferece às empresas uma estrutura padrão para divulgar as dimensões dos riscos e oportunidades relacionadas ao clima.

Com base nas recomendações da TCFD, uma boa divulgação está pautada em uma série de fatores, dos quais cumpre destacar: (i) estratégia e governança: como riscos e oportunidades relacionados às mudanças climática influenciam a estratégia da empresa; (ii) padronização de declarações; (iii) divulgação de métricas e metas, com uma descrição da metodologia utilizada; e (iv) análise de cenários contemplando a gestão de eventuais riscos com a clara análise de como os diferentes cenários afetam a empresa.

Ao seguir as recomendações da TCFD, ganha-se em termos de confiança do mercado e dos investidores, demonstrando-se transparência e responsabilidade em relação ao papel da empresa em relação às mudanças climáticas.

*Daniela Stump e Maria Fernanda Aguiar são head e advogada da área ESG do DC Associados.

Este artigo foi, originalmente, publicado na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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O cometa mais perigoso vem devagar

E se o argumento do filme Não Olhe para Cima fosse ligeiramente diferente?

Imaginem se a gente mudasse um tiquinho o roteiro de “Não Olhe Para Cima”. No argumento original da produção do Netflix, Leonardo DiCaprio e Jeniffer Lawrence descobrem um cometa destruidor que irá cair na Terra em exatamente 6 meses e 14 dias. Na nossa versão alternativa, a história seria um pouco diferente. A astrônoma Kate Dibiasky (Lawrence) está vasculhando os céus no telescópio quando descobre um novo cometa. Emocionada, ela mostra para seu mentor, o astrônomo Randall Mindy (DiCaprio). Os dois reunem a equipe do observatório e começam a calcular a rota do cometa. Apavorados, constatam que as projeções indicam que o cometa, do tamanho do Everest, está em rota de colisão com a Terra. O impacto está previsto para ocorrer em aproximadamente 200 anos. Temos dois séculos para evitar a tragédia.

Kate e Randall tentam alertar a imprensa, mas ninguém dá muita atenção para uma catástrofe prevista para acontecer em 200 anos, quando nenhum de nós estará aqui para ver. Outras notícias mais imediatas têm prioridade. Os cientistas tentam alertar as empresas, mas que executivo se importa com alguma coisa num prazo tão longo? Os acionistas querem retorno. Mesmo os grandes fundos de investimento estão preocupados com prazos de no máximo 10 anos. Dois séculos? Quem se importa? Os governantes nem querem saber de problemas a mais. Já têm que se preocupar com o que afeta a próxima eleição. Ou no máximo a reeleição.

Estimuladas por interesses econômicos, começam as campanhas negacionistas. Nas primeiras décadas de aproximação do cometa, argumentaram que o cometa é parte da natureza. Que sempre esteve no mesmo lugar. Que não há evidências que esteja se aproximando. Nos anos seguintes, na medida em que os cientistas penosamente reuniam montanhas de evidências que o cometa se aproximava da Terra, os negacionistas – ou céticos – argumentavam que a aproximação fazia parte de um ciclo natural, com períodos de idas e vindas. Em breve, diziam, o cometa vai começar a se afastar e esses cientistas alarmistas serão desacreditados.

Finalmente, ficou evidente que o cometa estava se aproximando mesmo. Mas aí o discurso era que a aproximação ocorreria tão devagar que não haveria problema algum para nós. Gerações inteiras nasceram e cresceram vendo o cometa chegando. Para elas, aquilo fazia parte da vida. Não conheceram um mundo sem o cometa no céu. O cometa não assustava mais do que uma tempestade de verão.

Quando o cometa já estava tão perto que aparecia no céu do tamanho da Lua, passou a inspirar poetas e artistas. Alguns espertalhões começaram a vender lotes na superfície do cometa. Aquele corpo tão perto da Terra também já alterava os ciclos das marés. Algumas marés altas engoliam calçadas à beira mar, avenidas litorâneas ou mesmo casas de balneário. Os astrônomos continuavam tentando alertar que eram as primeiras consequências da lenta queda do cometa. Mas o mercado imobiliário não se abalava. Apenas construíam muros de contenção mais altos na beira das praias, ou pilastras para elevar as casas acima das ondas. Ter o mar mais perto, valoriza o imóvel, diziam os corretores.

Finalmente, o cometa se aproximou tanto que começou a perturbar a atmosfera da Terra. O sistema de circulação de ar quente e frio foi totalmente alterado pela atração gravitacional do cometa. Ondas de frio e tempestade de neve nunca vistas se abateram sobre algumas cidades. Chuvas torrenciais causaram grandes tragédias. Ninguém mais sabia quando haveria estiagem. Por mais que os cientistas apontassem o cometa se aproximando vagarosamente, continuamente, ameaçadoramente, boa parte da população estava preocupada demais em lutar pela sobrevivência, contra as intempéries, para se importar com o resto. Com tantos problemas aqui na Terra, quem são esses lunáticos querendo falar sobre o que vem do espaço?

Esse é o grande perigo do cometa que enfrentamos agora com as mudanças climáticas. Ele vem devagar demais para despertar pânico ou senso de urgência. Mas ele está caindo do mesmo jeito.

Este artigo foi escrito por Alexandre Mansur e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Imagem: Netflix/Divulgação

Qual é o risco ambiental dos produtores rurais brasileiros?

Levantamento nacional revela os estados mais avançados e os mais atrasados na implementação do Código Florestal. Por que isso é importante

O comportamento de consumo no Brasil acompanha os reflexos da preocupação global com questões ambientais. Hoje, consumidores brasileiros não querem mais saber apenas do produto final que chega até eles – o processo de produção se faz, por vezes, mais importante do que o próprio fim para a tomada de uma decisão de consumo. Diante disso, obedecer ao Código Florestal não é mais opcional para produtores rurais: se antes se ajustar a ele era uma questão majoritariamente burocrática, na busca de se livrar de multas e retaliações, atualmente é uma tremenda oportunidade de negócio. Explico o porquê: com a tendência de mudança no comportamento de consumo motivada pelas preocupações ambientais, se adequar ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) é uma garantia de entrar em mercados que exigem certificação. Além disso, empresários do campo que se alinham ao Código ganham mais oportunidades, já que passam a produzir produtos em harmonia com a floresta e agrofloresta, que são mercados com tendência de crescimento. Diante disso, uma pergunta se faz necessária: como será que anda a implantação do Código Florestal pelos produtores rurais brasileiros?

Não é de hoje que se fala em CAR. Instrumento usado para medir os esforços de governos e proprietários rurais para quitar suas pendências ambientais, o CAR está prestes a completar uma década – mas seus avanços ainda galgam o patamar ideal. Em 2012, quando foi criado pelo Novo Código Florestal, um objetivo muito claro se estabelecia com a ferramenta: o de registrar as características ambientais de um imóvel, a fim de indicar sua vegetação nativa conservada e/ou aquela que precisava ser recuperada. Porém, passados dez anos, sua implementação ainda é repleta de atrasos. Um levantamento recente feito por pesquisadoras brasileiras do CPI (Climate Policy Initiative), centro de pesquisa baseado no Rio de Janeiro e associado à PUC-Rio, põe à luz avanços e atrasos no que tange à implementação do CAR e do Plano de Regularização Ambiental (PRA) pelos produtores rurais. É um retrato mais completo de como os empresários do agronegócio brasileiro estão se ajustando ao cenário de cumprimento das leis florestais. De forma pontual e resumida, uma coisa é certa: apesar de ainda não estar no patamar ideal, é fato que alguns estados avançaram nas análises do CAR feitas pelos proprietários de terra. Em contrapartida, fazendeiros ainda demoram a passar para a etapa de regularização ambiental de suas propriedades. Para ser breve: há avanços, mas eles não eliminam o longo caminho que ainda se faz necessário percorrer.

Por se tratar de um processo realizado por órgãos estaduais, a implementação do CAR varia muito em todo o país. Performances relevantes, entretanto, merecem ser destacadas, como é o caso dos estados do Acre, Pará, Mato Grosso e Rondônia, os quatro mais avançados do Brasil no que tange à implementação do CAR. Os dois primeiros (Acre e Pará), são os detentores dos melhores índices no ano de 2021. Quando o tempo de avaliação é ampliado para o período total, Mato Grosso lidera. Roraima e Piauí estão do outro lado da balança, figurando entre os estados mais atrasados – não tendo, sequer, iniciado a etapa de análise dos cadastros. Os estados em questão também não regulamentaram o PRA, nem as regras de restauração de Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal.

A seguir, os principais destaques:

Acre – Teve um aumento de 48% do número de inscrições no CAR em 2021. O estado também triplicou o número de técnicos dedicados à análise dos cadastros e aumentou em 61% o número de termos de compromisso assinados, atingindo o total de 296. Com esse montante, tornou-se o segundo estado do país com mais termos de compromisso em execução.

Pará – Registrou um aumento expressivo no número de cadastros analisados, com um crescimento de 272%. Já o total de cadastros validados aumentou em 60% e o de termos de compromisso assinados em 88%. Apesar de ser o terceiro estado em número de termos de compromisso firmados (280) para recuperação dos passivos em APP e Reserva Legal, a área a ser restaurada, 22 mil hectares, é três vezes maior que a área a ser recuperada. Além disso, o Pará é o estado com mais técnicos dedicados ao CAR e PRA, contando com a colaboração de técnicos da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do estado (Semas) para análise de CAR e de empresas contratadas. Além disso, o estado lidera o número de cancelamento de cadastros sobrepostos à Terras Indígenas e Unidades de Conservação, tendo cancelado mais de mil cadastros irregulares.

Mato Grosso – Quando a análise é feita desde a implantação do CAR, Mato Grosso é o líder. Em termos absolutos, o estado se destaca dos demais por ter 51 mil cadastros com análise iniciada, o que representa 46% dos cadastros do estado, 6.158 cadastros validados e 454 termos de compromisso firmados para regularização ambiental dos imóveis rurais

Quais são os desafios?
De forma geral, a etapa de inscrição dos imóveis rurais no CAR já está bastante avançada em todo o país e não há indicativos de estagnação. A base cadastral aponta, inclusive, para um aumento significativo de novas inscrições em alguns estados. O processo de análise dos dados declarados também tem aumentado, mas já se reduz para um grupo mais seleto de estados, como Espírito Santo, onde aproximadamente 72% dos cadastros já passaram por essa etapa. Mato Grosso (46%), Acre (20%), Amazonas (20%), Pará (20%) e Rondônia (20%) também entram nessa lista.

Entretanto, o cenário positivo desse processo esbarra, sobretudo, na conclusão do mesmo. Isso porque a validação dos dados se constrói como um enorme desafio, já que as altas taxas de reanálise dos cadastros e dificuldades no contato com produtores impedem a finalização das análises. O Pará, por exemplo, estado que aparece positivamente em vários outros critérios, possui destaque negativo para esse: dos 47 mil cadastros que já foram objeto de análise, 45 mil estão aguardando resposta dos proprietários para retificação ou complemento de dados. Infelizmente, ele não é um caso isolado: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Paraná e Rondônia estão em situação similar.

Fica claro, com isso, que o desafio para se chegar à etapa final de regularização ambiental dos imóveis rurais é enorme. O desinteresse de produtores na adesão ao PRA impacta diretamente nesse processo e faz com que apenas uma parte dos cadastros já validados sigam para a etapa de assinatura de Termo de Compromisso (TC) para a recuperação dos passivos em APP e Reserva Legal. Nesse ponto, o Acre é um dos únicos destaques positivos: cerca de 60% dos cadastros validados com passivos no estado já possuem TC. Esse número cai para um terço quando falamos do Mato Grosso e do Pará, que atingem apenas 20%. Em Rondônia o resultado é ainda pior, com termos firmados correspondendo a somente 5% dos cadastros validados com passivos.

Na tentativa de melhorar esse cenário, 15 estados já promoveram a regulamentação do PRA e a maioria já adotou critérios e parâmetros para a restauração dos passivos em APP e Reserva Legal. Entretanto, a construção de uma base legal para regularização dos imóveis rurais ainda segue muito atrasada em nove estados (Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Sergipe e Tocantins) e nos impede de inativar o alerta de preocupação.

Foto: Prefeitura de Pelotas/Divulgação

Este artigo foi escrito por Alexandre Mansur e Tainá Cavalcante e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, na Exame.

Melhores ONGs anuncia destaque de 2021 e categorias especiais

Cerimônia oficial acontece no dia 9/12, pelo youtube do Futura. Melhores por estado e reconhecimento de maior torcida são as novidades desta edição

O resultado oficial do Prêmio Melhores ONGs 2021 acontece na próxima quinta-feira (dia 9 de dezembro), às 18h, com transmissão pelo youtube do Canal Futura. Os nomes das 100 organizações que mais se destacaram em 2021 já são públicos, mas é durante o evento que serão conhecidas as melhores por área de atuação, as 10 melhores de pequeno porte e a melhor entre todas. Entre as novidades deste ano estão o reconhecimento da melhor organização de cada estado e também da ONG que levar a maior torcida para a cerimônia.

Maior Torcida do Brasil
A campanha “Maior Torcida do Brasil” convoca as 100 melhores a chamar todos os seus apoiadores pra acompanhar a cerimônia de premiação, mostrando também que elas têm muita gente engajada com seus projetos. Quem levar mais gente, também vai ganhar prêmio.

O Prêmio
O Prêmio Melhores ONGs é realizado pelo O Mundo que Queremos, pelo Instituto Doar e pelo Ambev VOA, com apoio de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Instituto Humanize, da Fundação Toyota do Brasil e do Canal Futura. Reconhece, desde 2017, o trabalho fundamental prestado pelas instituições não-governamentais no Brasil e também funciona como um farol para orientar doações, alcançando grande visibilidade no setor, na medida em que se consolida como a principal referência em ONGs no país. Também incentiva boas práticas, contribuindo também para a melhoria na gestão de todas as participantes, incluindo as não premiadas.

As 100 Melhores ONGs para apoiar

O Prêmio Melhores ONGs 2021 acaba de anunciar lista das ONGs reconhecidas por suas boas práticas. Por que isso importa para o setor privado

Uma das consequências positivas do crescente interesse do setor privado de todo o mundo pelas questões sociais e ambientais (conhecidas no meio por ESG) é que as empresas estão começando a ver que podem ganhar muito planejando ações voltadas para essas causas e investindo em iniciativas que aumentem seus impactos positivos. Consumidores cada vez mais conscientes de seus papéis para mitigar as mudanças climáticas vão cobrar isso. O mercado global também. E as empresas que já fazem ou estão começando a fazer algo nesse sentido só têm a ganhar, não só em suas imagens, mas também em retorno financeiro.

Um dos desafios é que muitas das ações necessárias não estão dentro das capacidades dos negócios. A maioria das empresas não têm estrutura para isso, nem pessoas com esse tipo expertise em suas equipes. Nem deveriam. Está tudo bem que seja assim, cada negócio tem que ser especialista em sua área de atuação. Não faz sentido que uma indústria de alimentos, instituição financeira ou empresa de serviços seja grande especialista em causas ambientais e sociais. Até porque já existe gente muito qualificada que trabalha nessas áreas há anos e, além de conhecimento, tem legitimidade para isso. São pessoas que já conhecem e dialogam com os grupos que serão beneficiados pelas ações socioambientais e isso é importante, porque elas sabem o que cada comunidade realmente precisa. Não basta ter boa intenção, é importante entender o desejo do grupo que você quer ajudar. E respeitar sua autodeterminação. Nesse ponto (e não só nesse), as organizações do terceiro setor, ou ONGs, podem ser grandes aliadas das empresas.

O Brasil tem milhares de ONGs que, cada uma em sua área, têm conhecimento de sobra para compartilhar, adquirido com mais do que teoria, mas com muita prática. Elas têm ações em andamento nos territórios e setores onde atuam, mas a maioria depende de doações para continuar trabalhando, dinheiro que as equipes financeiras das ONGs arrecadam de pessoas físicas e jurídicas. Ao entrar com o capital, as empresas não estão apenas fazendo caridade, mas também podem ganhar muito, pois vão conseguir fazer melhor as ações de impacto positivo que querem e precisam.

Mas, como um empresário, que entende pouco do terceiro setor, pode saber em que organizações pode confiar e investir? É aí que entra o Prêmio Melhores ONGs, que reconhece, desde 2017, o trabalho prestado pelas instituições não-governamentais no Brasil, funcionando como um farol para orientar doações. Todos os anos, após uma criteriosa avaliação feita por professores, pesquisadores, jornalistas e lideranças sociais, o Prêmio anuncia as 100 melhores ONGs do Brasil. Na lista de 2021, que acaba de ser divulgada no site premiomelhores.org, é possível conhecer o nome das organizações reconhecidas por suas boas práticas em quesitos como governança, transparência, comunicação e financiamento. Qualquer empresário pode investir, tranquilamente, em qualquer organização que conste nessa lista.

O Prêmio Melhores ONGs — que é realizado pelo O Mundo que Queremos, pelo Instituto Doar e pelo Ambev VOA, com apoio de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Instituto Humanize e do Canal Futura — também cria critérios de gestão e boas práticas para o terceiro setor. Assim, contribui para a melhoria na gestão de todas as participantes, incluindo as que não são premiadas. A intenção é incentivar boas práticas e ajudar também as que não se destacaram este ano a se saírem melhor no ano que vem. Por isso, todas as ONGs que passaram para a segunda fase vão receber uma devolutiva detalhada dos seus pontos fracos e fortes. Para Fernando Nogueira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que coordena a banca avaliadora do Prêmio desde a primeira edição, a ação já tem dado resultados. “Vemos uma sequência de anos com melhorias significativas no nível das inscrições. São organizações cada vez mais profissionais”, afirma.

Uma novidade deste ano é que, por conta do grande número de inscritas, o Prêmio Melhores ONGs vai reconhecer também, pela primeira vez, as melhores ONGs de cada estado. Isso mesmo, apesar de esse ter sido um ano difícil, seguido de outro que já havia sido complicado, mais organizações se inscreveram. E chegaram mais fortes. Isso mostra que elas têm tido um reconhecimento dos doadores, das comunidades, das pessoas físicas e das empresas. A lista final, que será divulgada na cerimônia oficial (dia 9 de dezembro, às 18h, com transmissão pelo youtube do Canal Futura), é um ótimo guia para as empresas que preferem investir em organizações de sua própria região. Durante a cerimônia também serão anunciadas a melhor de cada causa, as dez melhores de pequeno porte e a melhor de todas. A organização que levar a maior torcida para o evento também vai ser reconhecida, o que é bom para quem está buscando saber que organizações têm mais pessoas engajadas com o trabalho. Sua empresa precisa investir em ESG? Fique de olho neste evento.

Este artigo foi escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

Foto: Pixabay