Podcast mostra desafios e oportunidades para a exportação de produtos da floresta amazônica

Escute no Spotify histórias de iniciativas que dão certo e podem inspirar um mercado crescente

A alta demanda internacional por produtos com impacto socioambientalmente positivo aliada a tendências de nicho, como o consumo de superalimentos, são razões pelas quais o foco na exportação é uma estratégia importante para negócios comunitários que comercializam produtos de origem florestal. Mas, pequenos produtores ainda enfrentam muitos desafios para acessar esses mercados.

O segundo episódio do podcast Isso Também é Floresta aponta caminhos para a construção de elos entre quem gera riqueza a partir da Amazônia e o mercado que quer consumir produtos florestais não madeireiros, criando e desenvolvendo cadeias sólidas e duradouras. As lições aprendidas pelo projeto Trilhas para a Exportação, fruto da parceria entre o Brazil Trade Facilitation Programme (Programa de Facilitação de Comércio no Brasil-Reino Unido), a Conexsus e o programa Partnerships for Forests (P4F), mostram que é fundamental para a jornada exportadora de empresas locais, assim como a história de sucesso de uma cooperativa de castanha do brasil, a Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam).

O Brasil ainda ocupa uma posição tímida no mercado internacional de produtos florestais não madeireiros, o que é incompatível para a realidade de um país que possui grande porção da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. Salo Coslovsky, pesquisador na Universidade de Nova York e membro da Amazônia 2030, tem liderado as discussões sobre o assunto e afirma que, apesar dos desafios, há exemplos de países com contextos similares ao Brasil, como Bolívia, Vietnã, Equador e Peru, que têm conseguido se destacar nos mercados externos. O pesquisador destaca que existe um mercado global gigantesco, interessado em comprar produtos, como castanha e açaí.

“É importante notar que a desconexão desses negócios comunitários com mercados ocorre apesar de um cenário mundial que aponta para a tendência crescente de busca por um consumo mais consciente, que respeite o meio ambiente e as pessoas, além do aumento pela busca de produtos mais saudáveis que está completamente alinhado com esses produtos da sociobiodiversidade, da agricultura familiar e do extrativismo”, observa Fabiana Munhoz, líder de acesso a mercados da Conexsus.

O episódio já está disponível e pode ser ouvido, na íntegra, no Spotify.

Entrevistados:
Lara Gurgel (Palladium | Brazil Trade)
Fabiana Munhoz (Conexsus)
Luzirene Lustosa (Coopavam)
Johann Schneider (Schneider Consult)
Salo Coslovsky (Universidade de Nova York e Amazônia 2030)

Isso Também é Floresta
O podcast original Isso Também é Floresta promove discussões atuais e urgentes relacionadas ao setor de uso da terra, mostrando que é possível gerar oportunidades econômicas em áreas florestais com desenvolvimento social e sem incentivo ao desmatamento ou à degradação da biodiversidade. Com foco no Brasil e destaque para a Amazônia,  cada episódio promove uma conversa entre especialistas e apresenta um caso prático com soluções já testadas – ou que estão sendo implementadas – em áreas de interface rural e florestal.

Os casos práticos apresentados nos episódios de Isso Também é Floresta são de projetos que receberam apoio do programa Partnerships for Forests (P4F). A incubadora e aceleradora de negócios florestais financiada pelo governo do Reino Unido por meio do Departamento de Desenvolvimento, Negócios Estrangeiros e Commonwealth (FCDO) atua em 13 países, desenvolvendo parcerias entre setor privado, setor público e comunidades locais que vivem e trabalham dentro e ao redor de florestas tropicais. Desde 2016, o programa trouxe quase um quarto de bilhão de hectares de terra sob manejo sustentável, gerando mais de £ 263 milhões (R$ 1,51 bilhão) em investimentos do setor privado em florestas.

 

É chegada a oportunidade de retomar o vínculo perdido entre as agendas de clima e biodiversidade

2022 terá duas conferências internacionais que podem alavancar mudanças sem precedentes para deter as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade

Já existem evidências contundentes sobre a interdependência entre clima, ecossistemas, biodiversidade e sociedades humanas. Isso sinaliza a importância de combater esses riscos de forma integrada. No mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, do inglês), órgão das Nações Unidas que compila conhecimento científico global sobre o tema, são expostas diversas dessas evidências.

Apesar de a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, do inglês) e a Convenção Sobre Diversidade Biológica (CDB) terem sido criadas na mesma ocasião, os regimes internacionais caminharam de forma apartada. Somente nos últimos anos a natureza recebeu destaque no debate formal sobre mudança do clima.

Na última Conferência sobre Mudança do Clima da UNFCCC (COP-26, ocorrida no Reino Unido), reconheceu-se mais explicitamente a interconexão entre a crise climática e a crise de biodiversidade. Para a Conferência no Egito, que acontecerá em novembro, espera-se que esse impulso à natureza seja mantido. Os preparativos para a Conferência têm despertado atenção para a importância de metas de mitigação e adaptação alinhadas aos benefícios sociais e de biodiversidade.

Portanto, é chegado o momento de países e atores não estatais se apoderarem das evidências do IPCC para definir metas climáticas que sejam não somente alinhadas a um futuro neutro em carbono, mas também positivas para a natureza. Há iniciativas que promovem mudanças de paradigma, mas é preciso que nos mobilizemos na escala e velocidade necessárias, para chegarmos a um mundo em que a natureza é restaurada e se regenera, em vez de declinar.

Quando se fala do Brasil, diversas são as conexões. Diferente de outros países, a maior parte das nossas emissões de gases de efeito estufa (GEE) vem do setor de uso da terra (44%). Fortemente associado ao desmatamento, esse dado mostra o potencial da natureza para alcançarmos os compromissos de mitigação e, ao mesmo tempo, de proteção da biodiversidade.

Em um estudo recente publicado pelo CDP, chegou-se à conclusão de que são particularidades como essa que fazem com que várias das nossas políticas federais e subnacionais para o clima já incorporem, mesmo que implicitamente, abordagens relacionadas à biodiversidade. Um exemplo é o alinhamento a Soluções Baseadas na Natureza (NbS, do inglês), que propõem proteger os ecossistemas ao mesmo tempo em que se pensa resiliência, bem-estar humano e desafios socioeconômicos.

Por tabela, os formuladores de políticas públicas têm parte do trabalho de casa feito. É preciso incorporar, em âmbito estratégico e intencionalmente, a biodiversidade às políticas de clima, tendo em vista essas abordagens de referência.

A forma como a COP-27 tratará a natureza deverá influenciar a próxima Conferência sobre Biodiversidade da CBD (COP-15), que acontecerá no mês de dezembro, em Montreal, e tem como principal desafio aprovar o Marco Global da Biodiversidade até 2030. Trata-se de uma oportunidade única de construímos uma agenda ambiental com uma lente integrada e equilibrada para os dois maiores desafios ambientais da humanidade: mudança do clima e perda da biodiversidade.

Este artigo foi escrito por Miriam Garcia (Gerente Sênior de Políticas Públicas do CDP) E REBECA ROCHA (Analista de Políticas Públicas e Finanças Sustentáveis do CDP) e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Exame.

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