Os moradores da Amazônia querem preservar para desenvolver

Uma pesquisa feita com os moradores da Amazônia mostra que eles querem preservar o meio ambiente para ter desenvolvimento. Sentem falta de saúde, segurança e emprego

Mais da metade dos moradores das cidades da Amazônia Legal acreditam que a questão ambiental na região piorou nos últimos anos. É o que mostram os dados da pesquisa “Decisores da Amazônia”, um estudo inédito feito pela Ideia Big Data para os Institutos O Mundo que Queremos e Clima e Sociedade. Foram ouvidos 1.400 moradores de diferentes municípios da região, dos quais 86% afirmaram que a preservação é condição fundamental para o desenvolvimento econômico.

Quem vive na região da floresta diz que a destruição ambiental é um prejuízo para a qualidade de vida de todos. A exploração irresponsável dos recursos naturais até gera empregos, mas eles são temporários. E muitos casos, um surto de exploração de garimpo ilegal, de madeira clandestina, uma obra temporária ou de algum outra tipo de extração predatória geram um aparente crescimento econômico, atraindo pessoas de vários cantos da Amazônia ou de fora dela. Mas depois de alguns anos, a atividade acaba, porque a lavra se esgota, a madeira sem manejo acaba, a obra fica pronta ou é abandonada, e os empregos não se sustentam.

A rede de serviços, como comércio, também cai junto. É uma economia limitada, uma vez que, assim que os recursos são saqueados e se esgotam, as pessoas precisam ir embora porque os empregos também acabam. A exploração precisa ser sustentável para que as pessoas possam ficar.

Outro dado relevante mostrado pela pesquisa é o de que praticamente metade das pessoas ouvidas têm a impressão que a população nunca é levada em conta na hora da tomada de decisões. Isso acontece porque muitas das infraestruturas construídas por lá não atendem à população local. Por exemplo, várias comunidades próximas a grandes hidrelétricas sofrem os impactos ambientais e sociais mas ainda não tem luz em casa, porque a energia gerada lá é mandada para outros locais, como a região Sudeste.

Saúde, educação e geração de emprego são as principais demandas dos moradores da Amazônia. As organizações do terceiro setor fazem um importante trabalho para suprir algumas dessas carências, o que explica o fato de os ambientalistas serem o grupo com maior grau de confiança na região, à frente de imprensa, políticos ou líderes internacionais.

Durante a pandemia da Covid-19, mais uma vez, muitas ONGs fizeram um trabalho fundamental, especialmente nas regiões de mais difícil acesso. O Greenpeace, por exemplo, disponibilizou seu avião, médicos e equipes de diversas áreas e, num esforço conjunto com outras organizações, conseguiu levar ajuda a centenas de comunidades indígenas na Amazônia Legal, doando alimentos e medicamentos, com o projeto Asas de Emergência.

No quinto episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, do GT Infraestrutura, eu conversei com o diretor executivo da rede, Sérgio Guimarães, sobre esses e outros dados da pesquisa. O episódio está disponível no Spotify. Que ela sirva para embasar decisões que ajudem a manter a floresta em pé. E que não gerem mais ilusões. Que tragam desenvolvimento de verdade.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado na coluna Ideias Renováveis, da revista Exame.

Foto: Durante a pandemia, Greenpeace usou avião para distribuir medicamentos e equipamentos médicos para populações indígenas na Amazônia (Marcos Amend/Greenpeace/Divulgação)

Por que a saúde é prioridade para os moradores da Amazônia

Uma pesquisa com 1400 moradores da região deixou claro que essa é a área mais carente para a população

Você sabe qual é a infraestrutura que as pessoas que vivem na região da Amazônia mais precisam? Se pensou em um desses megaprojetos como a construção de uma hidrelétrica ou de grandes rodovias, pensou errado. Três em cada quatro moradores da Amazônia Legal acham que a área mais carente em infraestrutura nos municípios da região é a saúde. Foi o que mostrou a pesquisa Decisores da Amazônia, realizada pela agência Ideia Big Data para o Instituto O Mundo que Queremos e para o Instituto Clima e Sociedade.

A pesquisa ouviu 1400 pessoas e evidenciou o abismo de infraestruturas básicas entre essa e as outras regiões do país. A pandemia já tinha deixado claro essa deficiência e, não por acaso, o estado do Amazonas foi o primeiro a colapsar. Além da falta de postos de saúde, insumos e profissionais, a região Norte também tem os piores números do Brasil em condições de higiene e saneamento básico e as respostas de quem mora lá mostram que a população sente muito essa carência. Portanto, não é uma surpresa que mais de 70% dos ouvidos pela pesquisa tenham falado justamente de saúde.

O que pode ser feito para resolver o problema? Atuando na região desde 1987, a ONG Projeto Saúde e Alegria pode dizer que conhece algumas respostas. Com um trabalho de mobilização social, a equipe do projeto traz as comunidades para o centro das decisões sobre os programas que implementa e, atualmente, atende cerca de 30 mil moradores de comunidades rurais de Santarém, Belterra, Aveiro e Juruti, no oeste do estado do Pará.

Uma das frentes prioritárias de atuação é justamente a saúde e o coordenador da ONG, Caetano Scannavino, é o convidado do quarto episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, onde conversa com o diretor da rede de mais de 40 organizações, Sérgio Guimarães, sobre o assunto. Uma máxima que eles vivem repetindo dá o tom da conversa: “sem o social não se resolve o ambiental.” Quem vive na floresta concorda — 86% das pessoas ouvidas pela pesquisa também disseram que a preservação ambiental é condição fundamental para o desenvolvimento.

O episódio está disponível no site do GT Infra e também no Spotify.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado na coluna Ideias Renováveis, da revista Exame.