Ladrões de terras públicas na Amazônia querem aproveitar coronavírus

Enquanto estamos presos em casa, circula no Congresso uma medida provisória que pode liberar a maior grilagem do país, prejudicando a economia legal

Os bandidos grandes não fazem home office. Enquanto estamos presos em casa para conter o avanço do coronavírus, circula no Congresso Nacional uma medida provisória que periga concretizar um dos maiores roubos da história do país. Ao premiar grandes quadrilhas criminosas, ela seria um desastre para o ambiente de negócios no Brasil, em especial na Amazônia.

É a Medida Provisória 910, editada pelo presidente da república no final do ano passado (aproveitando o período de distração do Natal). Sob o pretexto de ajudar na regularização fundiária, a medida não faz nada para desafogar os órgãos de terras sobrecarregados. O que ela faz é entregar terras públicas para quadrilhas de grileiros, bandos especializados em invadir e especular. Isso é particularmente nocivo para o futuro da Amazônia.

A Amazônia abriga diversas atividades econômicas: pecuária, mineração, madeira, agricultura, pesca, turismo, produção industrial, essências naturais, cacau, açaí. A lista é imensa. Os produtos da Amazônia são valorizados. A região já tem vários potenciais econômicos e pode oferecer oportunidades de desenvolvimento, geração de renda, lucro e empregos.

Tudo isso de forma racional, preservando os recursos naturais, mantendo de pé a floresta e conservando os rios, responsáveis pela manutenção do regime de chuvas em todo o continente e pelo equilíbrio do clima em todo o planeta. O problema é uma atividade econômica em especial, que é responsável pela maior parte do desmatamento ilegal, pela violência, pela corrupção e pelo clima geral de insegurança na região. Trata-se da indústria de roubo de terras públicas.

A maior parte das terras – onde estão as florestas – da Amazônia são terras da União e dos estados. Um dos negócios mais lucrativos na região é invadir essas terras, expulsar ou assassinar as populações locais, roubar a madeira, queimar o resto da floresta, forjar uma ocupação produtiva para pecuária e vender títulos falsos de propriedade. Ou simplesmente fazer pressão política para legalizar a invasão criminosa. Essa indústria de roubo de patrimônio público sustenta quadrilhas ricas e bem estruturadas. Ela mantém milícias armadas e comanda assassinatos em série. Naturalmente, afugenta os empresários que tentam investir de forma honesta na região.

As terras públicas, isto é, o patrimônio de todos os brasileiros, representam mais de 60% da área total da Amazônia. É lá onde a grilagem mais deixa rastros de destruição e prejuízos. Estamos falando de grupos que invadem, queimam, desmatam, falsificam documentos de posse e, depois, ganham milhões com a venda dessas áreas, que pertencem a todos nós. Essas pessoas são responsáveis por boa parte do desmatamento do território amazônico e por criar na região um ambiente de violência e corrupção, que intimida empresários, investidores e produtores.

Além da destruição dos recursos naturais, a ação dos grileiros mancha a imagem do agronegócio legal, aumenta a insegurança jurídica e a promove uma concorrência desleal de mercado, o que acaba afastando quem quer agir de acordo com a lei. Enquanto não acabarmos com a grilagem, não conseguiremos atrair bons negócios já que, na prática, estamos fazendo justamente o contrário. Em 2019, por exemplo, quando as queimadas e o desmatamento na Amazônia atingiram a maior taxa anual dos últimos dez anos, vários grupos de investidores que caminhavam para iniciar atividades econômicas na região, desistiram de fazer isso.

Portanto, adotar medidas para coibir a ação desses grupos criminosos, como manter as áreas de conservação do país e promover a destinação para conservação e usos sustentáveis das florestas públicas não destinadas, não só é melhor para o meio ambiente, como também mais lucrativo para o Brasil. Os ganhos são infinitamente maiores do que anistiar os bandidos.

O argumento furado de quem defende a MP da Grilagem é que os invasores, se legalizados, passariam a usar a terra de forma produtiva. Isso não é verdade. A terra já era produtiva antes. Uma das áreas com maior invasão é a Floresta Nacional de Jamanxin, no Pará, uma unidade de uso sustentável reservada especialmente para ser concedida a uma empresa privada que produz madeira e outros produtos da floresta de forma sustentável. Os criminosos impediram o uso econômico da área e só promoveram destruição para enriquecimento próprio.

Quem defende os bandidos sob argumento econômico também poderia pedir a anistia das quadrilhas de tráfico de drogas ou de armas, dos bandos de contrabandistas, alegando hipocritamente que eles geram emprego. Se um bando de criminosos invadir a Praia de Ipanema, cercar a área e lá criar um shopping de contrabando, quem vai defender que o terreno público seja entregue a eles?

Existem caminhos para acabar com o roubo de terras públicas na Amazônia. O primeiro passo não é anistiar mas punir os criminosos.. Para isso, temos várias formas. Uma delas é a Força-Tarefa Amazônia, do Ministério Público Federal (MPF), que trabalha muito, apesar da falta de estrutura, para acabar com a grilagem. Em atuação desde agosto de 2018, a Força-Tarefa já registrou pelo menos R$ 580 milhões em prejuízos documentados e mais de 80 pessoas indiciadas por crimes ambientais. Entre os acusados de desmatamento ilegal e grilagem está, por exemplo, um ex superintendente do Ibama no Acre, que ajudava grandes pecuaristas da região a fraudar documentos, o que, para os procuradores, escancara o quanto o Estado tem sido omisso.

Outro argumento fajuto para a MP da Grilagem é que ela favoreceria a regularização de pequenos produtores. Em nota da assessoria de imprensa do MAPA, Teresa Cristina afirma que a medida pode beneficiar 300 mil famílias e que a área média dos terrenos a serem regularizados é de 80 hectares. Só que a MP da Grilagem aumenta a área para regularização sem necessidade de nenhuma vistoria (o que facilita a fraude) para até 2,5 mil hectares. Estamos falando de áreas gigantes, ocupadas em escala industrial por quadrilhas especializadas.

O MPF tem avisado o quão ruim é a iniciativa do governo com essa Medida Provisória. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou uma nota técnica ao Congresso Nacional, ressaltando que a MP 910 coloca em risco uma série de bens jurídicos constitucionalmente tutelados, como o acesso justo e legítimo à terra, mediante reforma agrária, e os direitos de grupos étnicos e culturais. A nota também evidencia, entre outros pontos, que a flexibilização dos requisitos para a regularização fundiária aumenta o potencial de gerar condutas criminosas de invasão de terras públicas e questiona a necessidade de uma medida provisória para tratar desse assunto.

Outra carta, assinada conjuntamente pela 2ª Câmara (Criminal), 4ª Câmara (Meio Ambiente e Patrimônio Cultural), 5ª Câmara (Combate à Corrupção) e pela 6ª Câmara (Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais), também apresenta inconstitucionalidades na edição da Medida Provisória.

Segundo o documento, a flexibilização proposta, além de criar um cenário de estímulo a novas ocupações, ainda promove o acirramento de conflitos no campo. “Trata-se da jurisdicização do estado de natureza, com impacto desproporcional sobre agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais e sobre o meio ambiente, com toda coletividade que dele depende”.

Para a procuradora federal e coordenadora da Força-Tarefa Amazônia Ana Carolina Haliuc Bragança, o Estado tem, historicamente, falhado em suas políticas de proteção ao meio ambiente, reforma agrária e proteção à comunidades tradicionais. Ela afirmou, durante o Seminário “Amazônia: Desmatamento, Crime Organizado e Corrupção”, realizado no mês de fevereiro em Brasília, que essa incapacidade do poder público resultou em mais de milhares de hectares desmatados, mortes, desaparecimentos e casos de tortura, relacionados a disputas entre madeireiros, pecuaristas, grileiros, assentados e comunidades tradicionais nestas áreas. “Nenhum ator econômico foi efetivamente atendido, seja pelos projetos de regularização fundiária para atividade agropecuária, seja para uma eventual concessão de áreas para, por exemplo, manejo florestal. É uma área em que o estado, claramente, falhou em todas as políticas públicas”, concluiu.

Várias entidades ligadas ao meio ambiente também emitiram notas técnicas que apontam os riscos da aprovação definitiva dessa proposta. O Instituto Democracia e Solidariedade ressaltou os impactos negativos que a MP pode causar na Amazônia, com pelo menos mais 1,7 milhões de hectares desmatados ilegalmente somente por grilagem nos próximos cinco anos na Amazônia, perda que equivale a duas vezes a Região Metropolitana de São Paulo. “É preciso alertar à sociedade, ao setor privado e ao governo para o fato evidente de que ao premiar (com titulação facilitada) quem ocupou ilegalmente e desmatou ilegalmente, ou seja, não cumpriu o Código Florestal a partir de julho de 2012, a MP estará sinalizando que o crime de ocupação de terras públicas e desmatamento ilegal na Amazônia compensa”.

Já o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) pontua que a medida vai na contramão do que precisa ser feito para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Parte da destruição que ocorre na floresta amazônica é causada por pessoas que visam lucrar com a terra pública, pois invadem as nossas florestas e as desmatam esperando que o governo emita o título de terra cobrando valores abaixo do mercado.

Essa prática garante altos lucros com a venda do imóvel após a titulação. Assim, se aprovada, essa MP premiará com um título as invasões recentes (2011-2018) e poderá estimular um novo ciclo de ocupação, apostando que novas invasões também possam ser anistiadas no futuro. Além disso, a MP pode aumentar o risco já existente de perda de investimentos no Brasil, por conta da degradação ambiental na Amazônia”.

Um grupo com mais de cem organizações não governamentais divulgou uma carta no dia 13 de abril pedindo para o Congresso derrubar a MP. “Estamos sempre abertos para discutir regularização fundiária. Mas não é o caso dessa medida provisória”, diz Mario Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica. “Essa medida provisória estimula a farra da invasão de terra em larga escala no Brasil inteiro.

Punir o crime é fundamental, mas não é o suficiente. Precisamos garantir que os criminosos não sejam premiados. Foi partindo desse princípio e com o objetivo de barrar a MP da Grilagem que Greenpeace, GT Infraestrutura, Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Observatório do Clima (OC) e WWF Brasil se uniram na campanha #MP910NÃO. A iniciativa pede que as pessoas falem sobre o assunto e divulguem nas suas redes sociais o movimento, cobrando dos parlamentares que façam a sua parte para não entregar nossas terras.

Para os porta-vozes da campanha, a real solução passa pela busca de alternativas que defendam os interesses nacionais, tragam justiça social e preservem o meio ambiente. As organizações deixam claro que não precisamos de uma nova lei, mas de investimentos e trabalho para fazer valer a lei que já existe hoje (nº 11.952/2009) e dá direito à terra para que mais de 190 mil pequenos produtores possam trabalhar.

No site da campanha, o cidadão envia um e-mail para parlamentares pedindo que sejam pensadas outras soluções que de fato estejam à serviço dos interesses do Brasil e que protejam nosso patrimônio natural. O prazo final para votação da MP 910 no Congresso é maio. Mas como algumas votações estão acontecendo mais rápido, existe o risco de essa MP destrutiva passar sem a devida atenção. Nós estamos presos em casa, ocupados em lutar contra a epidemia. Legalizar o roubo de uma grande parte das terras do país não vai ajudar ninguém agora.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Amazônia: MP 910 entrega terras públicas para quadrilhas de grileiros (Wilson Dias/Agência Brasil)

Por que uma startup está contratando 800 pessoas no meio da pandemia?

Na contramão da crise provocada pelo coronavírus, uma empresa de call center em casa mostra como negócios para as pessoas e para o clima podem prosperar

Enquanto empresas se preparam para enfrentar a maior crise de sua história, uma dupla de empreendedores brasileiros está contratando e anunciou a abertura de 800 vagas. Eles estão na contramão da recessão provocada pela pandemia de coronavírus. Quando os amigos Ricardo Galdino e Geraldo Brasil tiveram a ideia da JobHome, em 2017, obviamente não imaginavam que pouco tempo depois o mundo iria enfrentar uma pandemia. Nem que as medidas de distanciamento social impostas para conter o avanço no número de casos de coronavírus iria obrigar as pessoas a ficarem em casa.

Mas eles já sabiam que o trabalho em casa era uma tendência promissora. E foi de olho nisso que os sócios fundaram a primeira empresa brasileira especializada em call center 100% home office. Ao criar um software, que permite a gestão tanto de projetos, quanto de operadores remotamente, eles anteciparam o que agora é uma necessidade.

A maior parte dos call centers ainda não tem sistemas home office. As justificativas mais comuns para que esse trabalho continue sendo presencial são os protocolos que, por segurança, só podem ser acessados de um local físico. Mas bastou um momento de necessidade para que as empresas percebessem que há soluções para isso. É o caso do serviço oferecido pela JobHome. Agora, por imposição de um vírus, pelo menos 800 operadores estão sendo contratados pela empresa e passarão por treinamento à distância. “Em 15 dias fechamos em negócios o que a gente demoraria o ano inteiro”, afirma Ricardo Galdino. “São empresas que estavam postergando o home office, o que acabou sendo inevitável nesse momento”, detalha.

Em um cenário onde sair de casa é um risco para a saúde coletiva, o home office se apresenta como alternativa para proteger as pessoas, fisicamente e financeiramente. Em casa, elas também podem cuidar dos filhos, já que as escolas também estão fechadas. A longo prazo, esse modelo de trabalho também pode ajudar a descentralizar a renda no país, que hoje ainda está concentrada basicamente nas grandes capitais, de modo que, remotamente, trabalhadores que moram em qualquer região podem ser incluídos.

Outra vantagem é dispensar um traslado desnecessário. Em média, um trabalhador de call center, por exemplo, perde entre uma hora e meia e duas horas de deslocamento, transtorno que pode ser evitado. De acordo com dados da JobHome, só em 2019, foram 57.856 horas a menos no trânsito, o que significa 53.9796 quilos em redução de emissões de gás carbônico.

O desejo de todos é que a pandemia seja controlada o mais rápido possível e que as pessoas possam voltar a sair de casa o quanto antes. Porém, a experiência de atravessar uma pandemia pode render algumas descobertas. A mudança de perspectiva das empresas, que até então eram resistentes com o home office, pode ser uma delas. O teste forçado pode fazer com que muitos empresários percebam este como um caminho a ser incluído nos planejamentos a longo prazo.

Eles vão perceber que é uma alternativa interessante no que diz respeito à produtividade e qualidade de vida do funcionários, mas também que precisam de ferramentas para implantar o modelo de forma eficiente. “É preciso ter muito cuidado e entender que home office não é só mandar o funcionário para casa, com computador e telefone. A parte de gestão precisa estar muito bem preparada para monitorar tudo isso”, explica Ricardo Galdino.

Além disso, segundo ele, o mercado tem espaço para todos. “Não vejo o fato de mais empresas investindo nisso como concorrência, mas como negócios que estão nos ajudando a disseminar o que a gente acredita. Estamos falando de uma mudança de hábitos que é melhor para as cidades, para o planeta, que é o que a gente precisa agora: pensar coletivamente”.

O home office, claro, é bom também para o clima porque há menos emissão de gases na atmosfera. A conta é simples: menos transporte, menos poluição. Com poucos dias de medidas de contenção, já é possível notar até mais estrelas no céu de São Paulo. Além de render boas fotos para o Instagram, isso é sinal de que a atmosfera está mais limpa. A qualidade do ar também tem melhorado, de acordo com plataformas de monitoramento e secretarias de meio ambiente locais. Fenômenos também têm sido notados em outras grandes cidades de todo o mundo: Itália e China divulgaram recentemente quedas notáveis na emissão de poluentes no primeiro mês de distanciamento social.

Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS), defende outro aspecto positivo da questão. Para ele, o momento é de dar uma resposta urgente à questão de saúde pública, em primeiro lugar. Como fazer isso? “Há bons exemplos de articulação público-privada que mostram que num momento de grande pressão, a sociedade brasileira consegue se organizar coletivamente, com empresas e pessoas se engajando em campanhas de solidariedade”, observa.

Já podemos começar a pensar nos impactos de longo prazo que essa mudança de mentalidade trará para diversos setores, incluindo a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono. “Pelas razões erradas, isso agora está acontecendo muito rapidamente. A gente gostaria que fosse por consciência, por alinhamento do investimento com os valores humanos, conformidade com os acordos internacionais, como o Acordo de Paris”, afirma.

Gustavo Pinheiro lembra que os setores que investem em trabalho remoto e tecnologias de comunicação já estavam crescendo e, neste momento, apenas estão experimentando um salto. “A digitalização, inclusive do trabalho, é algo que já está em curso há, pelo menos, 30 anos. O que está acontecendo é que estamos vendo, em semanas, coisas que talvez fossem levar anos para serem realizadas”. Ele explica que, de modo geral, a economia digital emite menos gases do efeito estufa do que a economia tradicional e ainda tem o benefício de rodar com qualquer energia.

Grandes empresas de tecnologia, como Apple, Amazon e Facebook, já se preocupam há alguns anos em fazer uma transição para energias renováveis, pelo menos para abastecer todas suas operações digitais. E esse é outro fator importante que torna a indústria digital mais limpa e faz a gente torcer para que essas mudanças tenham chegado para ficar.

A operadora Jaqueline Isabella da Silva Orestes trabalha na JobHome há quatro meses e já relata uma mudança de vida. “No regime presencial minha vida era uma correria e tanto, eu passava mais tempo na rua do que em casa com a minha família e fazendo as minhas tarefas. Quando chovia, já chegava cansada no trabalho o que, claro, impactava na minha produtividade”. Para ela, o novo regime de trabalho mudou tudo. “Voltei a fazer faculdade e consigo dar a atenção necessária para a minha filha de três anos. Trabalho com mais ânimo e disposição”. Ela vê com bons olhos as tendências de mudança no mercado. “É bom tanto para a empresa quanto para o funcionário. As empresas precisam começar a pensar fora da caixinha e esse momento está aí para nos provar isso”.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Ricardo Galdino (esq) e Geraldo Brasil (dir), fundadores da JobHome (Divulgação/Divulgação)

Oito megatendências ecológicas para o mundo pós coronavírus

A epidemia será uma das experiências mais traumáticas da história moderna. Mas, com sorte, poderemos sair dela mais preparados para os desafios ambientais

O desenrolar da pandemia de coronavírus ainda é um mistério. Mas podemos afirmar que esse episódio deixará marcas profundas na humanidade. O período de angústia, sofrimento e perdas deve gerar um grande trauma em escala global. Toda a geração que passou por isso ficará marcada e sairemos dessas com novas visões de mundo.

É possível que a crise dure muito. Para administrar a velocidade de contágio e tentar evitar o colapso dos sistemas de saúde, autoridades de vários países manterão a população em estado de distanciamento social ou quarentena em sucessivas ondas de maior e menor restrição. Até a proporção de pessoas imunes reduzir o risco da doença. Ou até a chegada de uma vacina, que pode demorar anos para ser inventada e produzida em larga escala. Especialistas em epidemiologia começam a calcular que o período de exceção que vivemos pode se estender até o fim de 2022.

É um período longo de home office, restrição de atividades com multidão, redução de viagens aéreas e outras grandes alterações em nossos meios de produção, convívio familiar e entretenimento. Vai transformar radicalmente as economias, os serviços, as tecnologias, os hábitos, o nosso paradigma de sociedade. Naturalmente, qualquer exercício de futurologia agora é arriscado. Mas já é possível vislumbrar algumas grandes tendências do mundo que virá por aí. Muitas delas coincidem com a visão de uma humanidade que usa de forma mais sustentável os recursos naturais do planeta.

Talvez a crise do coronavírus, que deve durar alguns anos, acelere a transição da sociedade para formas de viver e produzir que nos ajudem a lidar com outra crise global – a das mudanças climáticas – que certamente vai durar pelos próximos séculos.

A seguir, uma tentativa de traçar 8 megatendências ecológicas para o mundo pós-coronavírus:

Maior credibilidade da ciência, principalmente em sua capacidade de antecipar perigos. Menos espaço para negacionistas
Isso já está acontecendo. Os cientistas alertaram que uma epidemia dessas poderia ocorrer. Também anteciparam algumas das consequências de deixar essa epidemia correr solta. Os que tentaram negar as evidências e estimativas dos cientistas foram obrigados a voltar atrás, rapidamente derrotados pelos fatos. Os cientistas vêm alertando para outros riscos, como na área ambiental. É provável que a lição trágica de tentar negar o conhecimento e os alertas científicos seja aprendida por muitos líderes e por cidadãos comuns.

Seria um grande ganho para todos, porque poderíamos parar de gastar energia tentando convencer um grande número de desinformados que o consenso científico não vem por acaso e dedicar tempo e recursos preciosos para resolver os problemas, ou reduzir seus danos. “Nós vimos as terríveis consequências daqueles que rejeitaram os avisos da pandemia. Não podemos mais arcar com as consequências da negação das mudanças climáticas”, afirmou por tuíte o ex-presidente americano Barack Obama no dia 31 de março.

Valorização das coisas simples versus consumismo
Estamos passando por momentos de grande angústia e incerteza. Estamos lutando por nossas vidas, e pela vida das pessoas que amamos. Estamos sacrificando nosso conforto (ficando em casa) e boa parte de nossas riquezas (optando por medidas com impacto econômico) para isso. Estamos todos fazendo a escolha de valorizar a vida antes de qualquer opção financeira. Mesmo assim haverá sofrimento. Depois disso viveremos dias difíceis e longos de empobrecimento generalizado, dificuldades materiais.

Mas será possível saber que superamos um desafio gigante. Essa experiência forte já está levando algumas pessoas a valorizar as relações humanas, a família, pequenos prazeres, objetos do dia-a-dia, aquilo que temos em casa. Para suportar a angústia e a incerteza, as pessoas estão buscando engrandecimento espiritual, pensando mais em aproveitar o presente. Haverá um resgate de estilos de vida simples, mais focados nas relações humanas, na saúde e na felicidade, e menos na acumulação de bens tidos como supérfluos.

A expansão das atividades humanas que dispensam o deslocamento físico
Sim. Quando o longo período de distanciamento social passar, voltaremos a nos encontrar, a viajar, a participar de eventos com multidões. Mas a conquista dos meios de comunicação remotos veio para ficar. Durante os longos meses de contenção da epidemia, desenvolveremos formas eficazes de trabalhar, fazer compras, falar com os amigos, tudo à distância. Descobriremos que muitas viagens de carro e de avião são desnecessárias mesmo. Empresas, negócios e trabalhadores vão se ajustar para trabalhar em casa.

Durante a retomada, com a economia retraída, será mais difícil encontrar posições de trabalho estáveis, e mais gente permanecerá em casa, com tarefas esporádicas remuneradas. Isso tudo trará um ganho de redução de trânsito. Queimaremos menos combustível à toa, perderemos menos tempo no congestionamento, deixaremos o ar das cidades mais limpo.

Aumento da solidariedade
A epidemia ameaça a todos. Controlar a velocidade de contágio não depende só de uma pessoa ou uma família. É um esforço coletivo. Toda pessoa que respeita o espaço do outro na fila do supermercado está ajudando. Quem deixa de sair de casa ou toma cuidado com a distância do outro na rua. Estamos vendo manifestações gerais de solidariedade com doações materiais, com esforços conjuntos de empresas para desenvolver material de higiene ou equipamentos médicos. Estamos vendo vizinhos se organizado para usar as áreas livres do prédio ou para fazer compras para quem está preso em casa.

É comprovado que hábitos e práticas mantidos com regularidade por um tempo sustentado, reforçadas por incentivos positivos como elogios e sensação de segurança, tendem a se firmar. Isso significa que a sociedade com um todo está adquirindo mais solidariedade. Quando a crise específica do Covid-19 passar, essa confiança recíproca adquirida – ou nosso capital social – será mantido.

Essa capacidade conjunta naturalmente será aplicada para resolver outras questões que afetam a todos, como muitos dos desafios ecológicos. Isso será importante para lidar com os problemas ambientais que envolvem o uso equilibrado de recursos compartilhados, como rios, oceanos, florestas ou mesmo a atmosfera da Terra no caso das mudanças climáticas.

Compreensão de que o mundo está conectado
Os países bem que tentaram fechar suas fronteiras, para reduzir a velocidade do contágio. Mas é uma medida paliativa. Só será possível eliminar o risco do Covid-19 quando todos os países conseguirem exterminar o vírus. Outras doenças também dependem a colaboração internacional para serem contidas e não se expandirem numa pandemia, como esta. As informações científicas e as experiências de estratégias para conter a epidemia também circulam entre os países. Esse é um problema claramente global. As grandes questões ecológicas da atualidade também têm essa característica.

As emissões dos SUV com um passageiro nos Estados Unidos e do desmatamento na Amazônia brasileira estão alterando o clima do planeta inteiro, provocando elevação desastrosa do nível do mar em Bangladesh e agravando os incêndios florestais na Austrália. Ainda estamos no início da crise da pandemia. Quando ela tiver passado, é possível que esteja mais claro que a segurança de cada país depende, em boa parte, na estabilidade do resto do planeta.

Crítica à produção industrial de animais que dá origem a novas doenças
Ninguém está falando muito disso agora. Mas muitos dos processos de produção industrial de animais criam vulnerabilidades para o surgimento de doenças potencialmente catastróficas. O Covid-19 provavelmente veio de práticas de armazenar animais selvagens presos em jaulas sem condições de higiene, para consumo humano na China.

Havia muitos alertas científicos que o consumo de animais silvestres com aquela falta de cuidados poderia dar origem a um patógeno desses. Mas não havia vontade política para agir. Agora, a prática foi abolida pelo governo chinês. Mas ainda precisamos lidar com as fábricas de proteína animal.

Os sistemas industriais de produção animal são fontes potenciais permanentes de novos vírus capazes de gerar pandemias piores do que a atual. A gripe suína H1N1 de 2009 parece ter surgido em uma operação de confinamento nos EUA. A gripe viária H5N1 de 1997 saiu de granjas na China. Outras gripes viárias perigosas surgiram nos EUA, na Índia e na China. Foram sufocadas com o sacrifício rápido de criações inteiras de frangos antes que se espalhassem pelos humanos. É um risco permanente.

As condições de criação envolvem animais com pouca variedade genética, submetidos a condições de baixa imunidade. A revista científica American Journal of Public Health alertou em editorial de 2007 que a produção industrial de animais poderia ser a origem da próxima grande pandemia. Nunca foram levados a sério. Agora, diante do trauma do Covid-19, as autoridades e, principalmente os consumidores, deverão questionar a necessidade de medidas de precaução. Elas envolvem grandes mudanças na lógica da produção em massa. Mas o mundo já está virando de cabeça para baixo de qualquer forma.

Menos ar condicionado e mais janelas abertas
O sol e o ar puro estão sendo louvados como fatores de prevenção ao contágio do Covid-19. Estamos sendo orientados a desligar o ar condicionado nas residências e áreas comerciais, abrir as janelas e deixar o ar de fora entrar. A mesma orientação vale para quem circula de carro. Desligue o ar e abra as janelas.

O uso excessivo de ar condicionado – com seus filtros de pólen nem sempre impecavelmente limpos – está associado a doenças respiratórias e alérgicas. É claro que o ar condicionado oferece conforto nos dias mais quentes. Ele será necessário para as cidades cada vez mais quentes com as mudanças climáticas.

Mas os meses de confinamento e cuidados com o ar viciado dos ambientes fechados provavelmente trarão a valorização de projetos arquitetônicos que aproveitam a circulação natural de ar, renovando o ambiente com o frescor de fora. Isso será bom não só para nossa saúde. A redução no uso do ar condicionado também diminuirá o consumo de energia e o vazamento para a atmosfera de gases refrigeradores com alto potencial de efeito estufa. Respiraremos melhor.

Valorização das áreas naturais
Semanas ou meses de confinamento dentro de apartamentos, olhando para a paisagem urbana na janela. Enfrentando angústia e perdas. As pessoas já estão manifestando desejo de maior contato com a natureza. As famílias que podem estão escolhendo passar o período de quarentena em casas de campo ou na praia, em contato com a natureza.

Passeios em áreas naturais ou perto de cenários como montanhas, lagos ou praias reduzem o estresse no período de distanciamento social. Os ambientes naturais sabidamente oferecem sensação de paz nos momentos difíceis. Observar o ciclo natural ou movimentos simples como uma formiga subindo uma árvore ajuda a oferecer conforto para quem perdeu uma pessoa querida.

O ar puro e a paisagem natural têm efeito reconhecido para a saúde mental, para recompor a imunidade. Muitas cidades fecharam o acesso aos parques públicos urbanos, privando os cidadãos desses espaços verdes. A privação irá aumentar a valor desses metros quadrados de natureza sobreviventes nas grandes cidades.

É claro que isso não compensa o imenso sofrimento humano que estamos vivendo e vamos viver. Também seria ingenuidade pensar que todas as lições dessa epidemia tornarão nossas sociedades mais saudáveis. Mas a resiliência das famílias, das comunidades e dos países reside em sua capacidade para aprender com a dor e buscar mais sustentabilidade. Com sorte, a humanidade sairá um pouco mais sábia desse episódio.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.