O Mundo Que Queremos estreia canal sobre clima e meio ambiente no Climatempo

O Mundo Que Queremos (OMQQ) lançou neste dia 5 de junho, data em que é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente, a iniciativa Clima Que Queremos. O canal é uma parceria da agência OMQQ com o site Climatempo. Pela plataforma serão produzidas notícias, análises e informação de qualidade para você saber mais sobre o clima que afeta sua vida, e como você pode ajudar a preservar um clima bom para todos.

“Não precisamos desmatar mais nada. Já existe uma área do tamanho de todo o Sul do Brasil desmatada e subutilizada. Temos tecnologia para produzir energia, bens, serviços e transporte sem lançar mais gases poluentes na atmosfera. O que precisamos é tomar boas decisões informadas, como consumidores e como cidadãos. Esse é nosso poder”, pontua o jornalista Alexandre Mansur, sócio da agência OMQQ.

Na estreia do espaço no Climatempo, foram abordados temas como os desafios colocados pelas crises sanitária, ambiental e econômica no Brasil, a necessidade de ação climática nos municípios e a relação entre as baixas temperaturas experimentadas nesta época do ano e o aquecimento global.

Os conteúdos podem ser acessados nos links abaixo. Boa leitura!

Nós criamos o clima que queremos, por Alexandre Mansur.

Muito além do jardim: respostas aos desafios do tempo atual, por Sérgio Guimarães (GT Infra)

Por que precisamos falar agora de ação climática nos municípios?, por Alice Amorim (ICS)

Que frio! Cadê o aquecimento global?, por Cinthia Leone (Climainfo)

Como podemos sair da crise do coronavírus preparados para a próxima

Investir em negócios verdes é a saída inteligente para recuperar a economia e ajudar a conter a tragédia já anunciada das mudanças climáticas

O coronavírus parou o mundo muito rapidamente. Apenas alguns loucos questionam que vivemos uma das maiores crises da história humana. Poucas tragédias se comparam na dimensão do trauma, nas perdas humanas e na destruição econômica. No entanto, por pior que seja a pandemia, sabemos que ela vai passar. Provavelmente por uma combinação de vacinas, tratamentos, profilaxia e (infelizmente) imunização involuntária, sairemos da fase aguda da epidemia e começaremos a normalizar a vida em até quatro anos. Já a outra crise global, provocada pelas mudanças climáticas em curso, estará aqui agravando-se e gerando também perdas humanas e econômicas por muitas décadas, provavelmente alguns séculos.

Com isso em vista, o maior grupo de investidores do mundo está se antecipando e divulgando orientações para que usemos nossos recursos de forma inteligente. Podemos canalizar os esforços para a recuperação da crise da covid-19 para começar a reduzir os impactos da crise do clima. A primeira boa notícia é que já temos conhecimento para isso. A segunda é que essa decisão de enfrentar a crise do clima junto com a recessão do coronavírus vai nos entregar um mundo bem melhor para viver. Apostar em soluções para a resiliência climáticas geralmente resulta em melhor qualidade de vida e justiça social para todos.

O CDP é uma organização criada pelos maiores fundos de investimento do mundo para incentivar as empresas de capital aberto a se preparar para as mudanças climáticas. O que eles falam representa a vontade de fundos que movimentam US$ 96 trilhões em ativos. No início de maio, o CDP lançou, em parceria com outras sete instituições, uma carta de recomendações para a recuperação econômica.

Escrita por investidores e direcionada aos governos, a carta ressalta a necessidade de mais investimento para negócios sustentáveis e verdes, acelerando a transição para a economia de baixo carbono. “A iniciativa The Investor Agenda se propõe a acelerar e ampliar ações essenciais para combater as mudanças climáticas e alcançar os objetivos do Acordo de Paris. Com todo cenário da pandemia e consequente recessão econômica, entendemos que é fundamental reforçar a retomada da economia baseada em ações de enfrentamento à crise climática, de maneira sustentável e socialmente inclusiva,” afirma o diretor executivo do CDP Latin America, Lauro Marins.

Projetos de infraestrutura são um caminho frequentemente usado para estimular economias, algo que será muito necessário após a pandemia. É o que explica o Gerente de Finanças Verdes e Relações com Investidores do CDP, Diogo Negrão. “Investir em um futuro pós-Covid está no topo da lista para muitos. E há recurso para isso”, completa. Os governos deveriam garantir que esses investimentos fossem direcionados para projetos de infraestrutura sustentáveis, tecnologicamente avançados e resilientes.

Com isso em mente, The Investor Agenda quer, de forma colaborativa, amplificar as vozes dos investidores e iniciativas que têm o Acordo de Paris como norteador de suas decisões. A ideia é engajar investidores, reguladores e formuladores de políticas para que eles trabalhem juntos alinhando o mercado financeiro à essa necessidade. “Devemos garantir que os pacotes de renovação de longo prazo acelerem nossa economia, tornando-a mais resiliente, inclusiva e carbono zero. Ela deve funcionar em harmonia com a natureza, e não nos levar de volta à produção e consumo que sabemos que são insustentáveis, nos deixando expostos ao risco de aumento de crises futuras”, explica o CEO do CDP, o britânico Paul Simpson.

A carta, que traz uma série de recomendações para uma recuperação sustentável, reforça que os investidores serão peça-chave para ajudar os governos e acelerar a recuperação econômica pós-covid. O documento pede que esse investimento privado seja canalizado para os ativos que levem em conta o risco climático que, a longo prazo, também tem impactos financeiros e econômicos. Outro pedido é que os governos priorizem, em seus planos de recuperação, a sustentabilidade e a equidade. “Os esforços de recuperação econômica são mais bem direcionados para onde a criação de empregos pode ser combinada com sistemas de energia, industrial, construção e de transporte de emissões líquidas zero, juntamente com medidas de resiliência climática e outras infraestruturas sustentáveis que fortalecerão nossas sociedades e manterão os sistemas naturais”, diz o documento.

Tem investidor que já está faz isso há algum tempo. Um deles é Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos. Fabio garante que, além de estarem mais alinhados com seus valores pessoais, investimentos que levem em conta as questões ambientais e sociais trazem menos risco e mais retorno, especialmente a longo prazo. “Até muito pouco tempo atrás esse tipo de assunto não era bem visto no mercado financeiro e, por isso, ainda estamos meio que na idade da pedra no que tange à sustentabilidade. Mas precisamos entender que isso não é papo de acadêmico, é realidade e afeta a todos.”

Para ele, o problema climático é centenas de vezes mais destruidor do que a covid-19. Por isso, deixa um recado aos colegas: “saiam só do mundo financeiro, há coisas muito relevantes acontecendo à sua volta, as decisões das empresas impactam o social e o meio ambiente e seremos cobradas por isso, especialmente por investidores estrangeiros. A pergunta básica daqui a alguns anos será: o que você fez em 2020?”

O CEO e fundador da fintech de créditos de carbono Moss.earth, Luis Felipe Adaime, lembra que o Brasil tem potencial reconhecido por organismos internacionais de investimentos. “A gestora global Schroder’s escreveu recentemente que o Brasil é a Arábia Saudita do crédito de carbono. O potencial do Brasil para geração e certificação de créditos de carbono, segundo esse estudo, é enorme: geramos 5 milhões de toneladas ao ano, mas como detemos 40% das florestas tropicais do mundo, temos o potencial de gerar 1,5 bilhão de toneladas ao ano. Se o preço destes créditos no Brasil se equiparar eventualmente ao preço atual europeu, essa venda de créditos geraria US$ 45 bilhões de exportações extras ao Brasil, ou um crescimento extra de 3% ao ano para o país”, explica.

Para ele, a crise do novo coronavírus escancarou o impacto humano no meio ambiente, aumentando o nível de solidariedade e coesão social. “Creio que ela também aumentará a predisposição a investimentos de impacto e esse aumento de demanda pode levar, finalmente, à realização da vocação brasileira como potência ambiental global”, completa.

A posição do CDP reflete uma tendência geral dos investimentos. Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS), afirma que a transição para um economia de baixo carbono certamente estará entre os impactos de longo prazo da crise. É um setor que já está em crescimento em todo o mundo, apesar de ainda pouco desenvolvido no Brasil. “A transição de muitos negócios para os meios digitais, por exemplo, acabou sendo uma aceleração desse processo, mesmo que pelas razões erradas”. Ele acredita que temos agora uma oportunidade de olhar para isso pelas razões certas, como o alinhamento dos investimentos com valores humanos e em conformidade com acordos internacionais.

Os organismos internacionais que orientarão a recuperação econômica já estão apontando na direção da economia boa para o clima. os governos precisarão de ajuda para se recuperar da crise e quem estiver alinhado a essa demanda pode sair na frente. O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que deve emprestar 1 trilhão de dólares aos países atingidos pela pandemia e sua CEO, Kristalina Georgieva, tem sinalizado que quem receber o dinheiro deve utilizar esse recurso para combater as mudanças climáticas.

A diretora do FMI sugeriu que os governos considerem a tributação do carbono para aumentar a receita neste momento de recuperação e, ao mesmo tempo, incentivem as empresas a reduzirem as suas emissões. “Estamos prestes a implantar um enorme e gigantesco estímulo fiscal e podemos fazê-lo de uma maneira que enfrentemos as duas crises ao mesmo tempo”, afirmou Kristalina, em reunião virtual sobre financiamento climático. “Se nosso mundo sair dessa crise mais resistente, precisamos fazer tudo em nosso poder para que essa seja uma recuperação verde”, concluiu.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Painéis solares: as perdas provocadas pelas mudanças climáticas tendem a ser muito maiores que aquelas trazidas pelo coronavírus (Depto. de Transporte do Oregon/Divulgação)

Onde estão os bons negócios para sair da crise do coronavírus?

A recuperação da crise pós-covid vai privilegiar negócios bons contra a crise do clima. As oportunidades para o Brasil já estão mapeadas

Ninguém sabe ao certo como será a recuperação econômica global depois da devastação gerada pela epidemia de coronavírus. Mas está cada vez mais claro que ela terá uma cor: verde. Cada vez mais economistas, instituições respeitadas e países deixam claro que o grande esforço para tirar a economia da crise da covid buscará prevenir a próxima grande crise: a do clima. Essa foi uma recomendação do Fundo Monetário Internacional. Países como Holanda e Alemanha também estão deixando claro que os investimentos para revigorar a economia visarão incentivar produtos e serviços com baixas emissões.

Isso abre uma oportunidade inédita para os empreendedores brasileiros. O Brasil é um celeiro natural para negócios bons para o clima. Isso graças a nossa matriz energética predominantemente limpa (hidrelétricas, álcool, eólicas), à nossa capacidade de criar uma boa economia florestal (que absorve carbono) e nossa capacidade de criar materiais alternativos (como o plástico de cana).

O mapa das oportunidades já está sendo traçado. Entre 2018 e 2019, a Climate Ventures analisou 552 negócios que geram impactos positivos no clima e promovem a economia regenerativa de baixo carbono. Esse trabalho resultou no Mapeamento de Bons Negócios Pelo Clima, um levantamento inédito, o maior já feito na América Latina sobre o assunto. É uma ferramenta relevante para nos ajudar a entender as oportunidades de atuação para o fortalecimento desse nicho no país. O que o estudo revela sobre o potencial do setor? Boas surpresas. Uma delas é desmentir a crença de que ainda não há no país um mercado qualificado para investimento, ou seja, bons negócios para quem quer investir. O mapeamento mostrou, entre outras coisas, que essas empresas estão nascendo e são promissoras.

No Brasil, a maior parte desses negócios está começando: 60% têm menos de cinco anos de fundação. “São novos, mas existem, têm muito potencial e precisam de investimentos”, afirma o diretor da Climate Ventures, Ricardo Gravina. No entanto, muitas dessas empresas sequer se percebem nesse nicho — não se vêem assim e não se vendem assim. Elas trabalham com eficiência e propõem soluções diferentes que possibilitam a transição para economia de baixo carbono, mas nem sabem que isso significa que são bons negócios para o clima. Isso se deve, especialmente, ao fato de ainda não termos um mercado forte na área, fato que, felizmente, também está prestes a mudar.

Partindo desse princípio, de que as empresas verdes existem e precisam de investimento, a pergunta que surge é: onde encontrar os recursos? Gravina explica que grande parte do dinheiro disponível no mercado não é adequado para elas. “Precisa ser um dinheiro um pouco mais paciente, disposto a tomar risco porque, afinal, são negócios novos”, explica. Por isso, de acordo com ele, o momento é de criar novos mecanismos para que o dinheiro chegue a essas empresas. Um exemplo de como isso pode ser feito é o trabalho da própria Climate Ventures, que está criando um mecanismo financeiro, onde os recursos entram na conta como filantropia e são emprestados para os negócios, a juros baixíssimos e correndo um risco maior.

“Não é mais o momento para investir, por exemplo, em uma empresa que trabalha com carvão ou petróleo e está construindo uma usina que fica pronta em 30 anos. Daqui a 30 anos, a tendência é que esse tipo de negócio deixe de existir”, explica Gravina. Muitos investidores ainda não estão vendo isso. Mas outros, como a Black Rock, maior empresa de gestão de ativos do mundo, já começaram a olhar com mais seriedade para a questão. E quem faz isso está correto porque, segundo o diretor da Climate Ventures, o mercado vai começar a precificar em todo o mundo. Isso significa que fica cada vez mais caro investir em negócios que não são bons para o clima e cada vez mais interessante investir em empresas climate friendly. Não só para o planeta, mas para o bolso. O mapeamento da Climate, mostrou, por exemplo, que 69% das empresas têm fins lucrativos. “Já são bons negócios, financeiramente falando”, garante.

A LiaMarinha, uma das finalistas da chamada de negócios da Climate em 2019, é um bom exemplo de negócio verde lucrativo. A ideia da startup é fornecer tecnologias sustentáveis e de baixo custo para melhorar a qualidade das águas, como tratar efluentes, revitalizar e descontaminar ambientes e manejar e reutilizar as chuvas, entre outras alternativas. As soluções misturam, desde paisagismo, até a construção de estações de tratamento e biorremediação, que é a aplicação de microrganismos vivos que aceleram o processo de despoluição de efluentes. Com ideias que podem atender a diversos segmentos, como indústrias, fazendas, empresas, hotéis e condomínios residenciais, a empresa mineira quer ser referência para a gestão sustentável das águas. E o público que ela pode atender só cresce, especialmente porque esta deve passar a ser uma exigência num futuro próximo.

Estamos falando de uma tendência global. Em países como o Canadá as indústrias já que têm que pagar impostos sobre o carbono que emitem. Se no Brasil as grandes empresas começarem a ser cobradas também, elas podem não conseguir competir. E é por isso que elas precisam se antecipar. Vai acontecer, cedo ou tarde. “Essa história de se vamos ou não para o mercado de carbono não faz mais sentido, agora é uma questão de quando”, assegura Gravina. Para ele, quem está pensando investimentos para o futuro, como os fundos, tem que começar a olhar para as emissões de carbono porque isso vai significar menos risco para o negócio, uma vez que a regulação é uma possibilidade cada vez mais certa. “Se hoje já vale à pena, imagina quando a regulação chegar para valer”.

A regulação, inclusive, tem tudo a ver com o surgimento de negócios que geram impacto positivo para o clima. No levantamento feito pela Climate, a área de gestão de resíduos aparece na primeira posição, com 34%, e isso não acontece por acaso. Esse é um mercado que já está mais regulado, o que significa que há mais pressão. “As grandes empresas já estão se preocupando com a gestão de resíduos há algum tempo, com prazo e meta. Ou encontra-se uma solução ou encontra-se uma solução”, explica Gravina. Em contrapartida, com menos pressão do mercado, os negócios que olham para florestas e biodiversidade são um pouco menos desenvolvidos. É uma área onde até existe regulação, mas as cobranças ainda não são tão objetivas.

O ideal, claro, seria contar com a consciência e não com a pressão do mercado, mas sabemos que as estruturas organizacionais não favorecem essa prática. “Acho complicado pensar que a consciência vai fazer um cara da área de compras optar por outro produto, se ele for mais caro. Então, o negócio não pode ser só bom, precisa ser melhor”. Apesar disso, estamos caminhando. Várias organizações já estão começando a se comprometer com zero emissão de carbono, até 2030. Entre elas, algumas grandes empresas, que estão se propondo a encontrar soluções. “E aí começam as políticas. Ou seja, existe uma oportunidade para quem quer empreender no clima e ela é crescente”, afirma Gravina.

Além da gestão de resíduos (34%), as outras áreas com maior incidência de negócios verdes são a Agropecuária (15%), Energia (14%), Uso de solo e florestas (13%), Gestão da água (8%) e Logística e mobilidade (3%). O estudo da Climate ainda revelou que o Sudeste concentra mais de 50% dos negócios verdes, seguido do Norte (15%). O Nordeste aparece com 12% do total, mesma porcentagem verificada no Sul. Por último, está o Centro Oeste, com 7%.

Para saber onde investir, precisamos entender quais são os desafios específicos desses negócios. Por isso, a Climate Ventures também está fazendo e deve lançar ainda este ano, um grande estudo para entender quais são os negócios com maior potencial de diminuir a emissão de carbono. Isso tem a ver com o quanto ele é bom climaticamente, mas também com o quanto ele é escalável e, claro, uma boa ideia de investimento. “Se uma empresa é um ótimo negócio e ele também é bom para o clima, essa é a empresa em que temos que investir”.

O potencial brasileiro é tão grande que o país foi destaque na maior competição global de ideias de negócios verdes, a ClimateLaunchpad, com mais soluções inscritas por dois anos consecutivos — 2018 e 2019. No ano passado, inclusive, três startups foram para a final mundial, em Amsterdã. A chamada de 2020, realizada pela terceira vez em parceria com a Climate Ventures, está com inscrições abertas até o dia 24 de maio e deve contar com a participação de mais de 50 países. Por conta da pandemia, pela primeira vez, toda competição vai ser realizada online e essa é uma oportunidade e tanto para os novos negócios. Os prêmios podem chegar a 10 mil euros, sem contar a oportunidade única de networking e de mostrar lá fora o que temos de melhor nessa área.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: (Climate Ventures/Divulgação)

Por que precisamos mais do que nunca exibir os atos de solidariedade

O Dia de Doar Agora celebrado internacionalmente em 5 de maio, é uma oportunidade para resgatar o orgulho das ações de generosidade

Segundo um tradicional ditado judaico, a caridade deve ser anônima. Do contrário é vaidade. O valor desse ditado é evidente. Ele busca reafirmar que a ajuda ao próximo – e ao distante – deve ser feita para atender aos nossos melhores impulsos solidários, e não para alimentar nossa vaidade. O ensinamento precioso desse ditado ajudou a formar poderosos e sábios filantropos anônimos. O ditado atravessou os séculos, incentivando pessoas de várias tradições religiosas ou laicas a manifestar, discretamente, o melhor de si. Por outro lado, vivemos tempos de exceção. Estamos atravessando uma emergência global que exige alta dose de solidariedade. Por isso, é preciso resgatar o orgulho do ato de doação.

No dia 5 de maio de 2020 o mundo celebra o Dia de Doar Agora, movimento global para comemorar as doações já recebidas e mostrar o poder de transformação que as doações têm quando feitas em conjunto. A ideia é celebrar a expansão da generosidade, o engajamento cidadão, a atuação forte no mundo dos negócios e das redes de filantropia. Isso tudo é mais do que oportuno diante do desafio da epidemia de covid-19.

Uma das estratégias para estimular a cultura de doação é tirar o doador da sombra. Ou melhor, convidar o doador a sair da sombra. Eles estão em toda parte. Uma pesquisa realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e pelo Instituto Gallup revelou que metade dos brasileiros doa regularmente de alguma forma. Metade! Por que isso não é mais divulgado ou evidente? Porque o doador brasileiro é tão discreto. “Talvez por uma culpa cristã, uma vergonha de falar sobre o ato”, analisa Marcelo Estraviz, diretor do Instituto Doar. “Pode ter algo a ver com o que aparece em Mateus, na Bíblia: que uma mão não saiba o que a outra fez. Outra explicação provável é vergonha mesmo.”

Para Estraviz, alimentar a cultura da doação passa por alimentar o orgulho do doador. “Ao aparecerem, os doadores passarão a comentar com os amigos para qual organização doam, a quanto tempo fazem isso, o que sabem, o que falta saber. Deixará de ser um assunto tabu, passará a ser conversa de bar. Uns contando aos outros o que conhecem sobre organizações no bairro. Alguns começarão a visitá-las, outros passarão a falar mais a respeito no Facebook”, afirma. Com isso, a cultura de generosidade se retroalimenta.

As empresas podem participar com força desse movimento. Precisamos cuidar para que a sociedade que sustenta nossos negócios e nossas vidas passe da melhor forma possível pelo desafio da pandemia. As empresas, nesse contexto, são poderosas forças criativas, de organização das pessoas para atingir objetivos. Assim como elas se organizam para cumprir tarefas produtivas, criando e entregando serviços e produtos de qualidade, que melhoram nossas vidas, elas também podem usar esse potencial organizativo para promover outros tipos de benefícios.

Em qualquer situação, dar parte do seu lucro ou dos seus recursos para boas causas, para além de fazer do mundo um lugar melhor, gera retornos que vão desde o engajamento dos colaboradores, passando pelas possibilidades de ações de marketing, até o apoio da comunidade e dos stakeholders em geral. Agora mais do que nunca.

Miguel Krigsner, um dos maiores e mais admirados empresários do Brasil, fundador e presidente do Conselho de administração do Grupo Boticário, pioneiro ao criar o modelo de franchising no país, vai além. Para ele, a solidariedade para as empresas não é apenas uma questão de imagem. É de sobrevivência. “As empresas privadas são grandes centralizadoras de interesses. Elas interferem na vida de seus funcionários, consumidores e comunidades. É importante que abracem responsabilidades relacionadas a todos esses atores, de modo a criar ambientes mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e também social. Não se trata de uma boa ação. É algo essencial para a sobrevivência dessas companhias. Ao assumir responsabilidades pela vida em seu entorno, elas garantirão a continuidade do próprio negócio. Serão premiadas pelos consumidores, que vão preferir comprar de empresas que fazem o bem”, explica.

A importância da solidariedade também é apontada por Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, especialmente na crise do novo coronavírus. Ele conta que, em abril, quando comunicou a doação de R$ 1 bilhão para o combate à Covid-19, criou-se o movimento Todos Pela Saúde, que recebeu apoio de colaboradores, clientes e do público em geral. O impacto foi tão grande, segundo ele, que o gesto ajudou a motivar a mídia brasileira a noticiar ações filantrópicas, estimulando sua multiplicação.

“Temos em nós, em nossa sociedade e em nossas instituições, os recursos necessários para responder à altura ao enorme desafio que se apresenta. Estimulando a cultura de doação e nos mobilizando para fortalecer nossos melhores valores, estaremos mais aptos a responder ao julgamento das futuras gerações. Doar não transforma apenas o ambiente à nossa volta. Transforma quem doa, transforma quem recebe”, afirmou.

Para quem quer doar, porém, não há limite mínimo de tamanho. No último dia 28, o Instagram lançou uma nova ferramenta, chamada “Live Donations”, que permite arrecadar doações através das transmissões ao vivo na plataforma. A intenção é direcionar os fundos adquiridos em lives de artistas e produtores de conteúdo para ONGs que podem auxiliar no combate ao novo coronavírus. Ao doar, o usuário consegue acessar adesivos “Eu doei” para serem utilizados nos Stories.

Se você ficar em dúvida para quem doar, há formas de confirmar a credibilidade da instituição recebedora. Uma delas é o Prêmio Melhores ONGs, que lista as organizações não governamentais que se destacam em capacidade de gestão, foco de atuação, governança, sustentabilidade financeira e transparência. Uma boa forma de saber para onde direcionar sua solidariedade. O Melhores ONGs é organizado pelo Instituto Doar, pela agência Mundo Que Queremos e pelo Instituto Filantropia, com apoio técnico da Fundação Getúlio Vargas.

No dia 18 de abril, Lady Gaga puxou uma iniciativa de grandes artistas para chamar atenção para a doação. Eles promoveram o festival One Word Together At Home com a ONG Global Citizen. Artistas brasileiros falam do orgulho de doar em suas lives. Outras iniciativas do tipo estão proliferando. É importante ter orgulho de doar. Assim como existe o consumismo, onde as pessoas exibem o que compram e definem parte de sua identidade pelo que consomem, vamos construir um ethos de orgulho da doação de quem se identifica pela forma como ajuda quem precisa.

Este artigo foi originalmente escrito por Thaísa Pimpão e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Lady Gaga: a cantora participou da iniciativa da ONG Global Citizen para incentivar a doação diante do coronavírus (YouTube/Reprodução)

Ladrões de terras públicas na Amazônia querem aproveitar coronavírus

Enquanto estamos presos em casa, circula no Congresso uma medida provisória que pode liberar a maior grilagem do país, prejudicando a economia legal

Os bandidos grandes não fazem home office. Enquanto estamos presos em casa para conter o avanço do coronavírus, circula no Congresso Nacional uma medida provisória que periga concretizar um dos maiores roubos da história do país. Ao premiar grandes quadrilhas criminosas, ela seria um desastre para o ambiente de negócios no Brasil, em especial na Amazônia.

É a Medida Provisória 910, editada pelo presidente da república no final do ano passado (aproveitando o período de distração do Natal). Sob o pretexto de ajudar na regularização fundiária, a medida não faz nada para desafogar os órgãos de terras sobrecarregados. O que ela faz é entregar terras públicas para quadrilhas de grileiros, bandos especializados em invadir e especular. Isso é particularmente nocivo para o futuro da Amazônia.

A Amazônia abriga diversas atividades econômicas: pecuária, mineração, madeira, agricultura, pesca, turismo, produção industrial, essências naturais, cacau, açaí. A lista é imensa. Os produtos da Amazônia são valorizados. A região já tem vários potenciais econômicos e pode oferecer oportunidades de desenvolvimento, geração de renda, lucro e empregos.

Tudo isso de forma racional, preservando os recursos naturais, mantendo de pé a floresta e conservando os rios, responsáveis pela manutenção do regime de chuvas em todo o continente e pelo equilíbrio do clima em todo o planeta. O problema é uma atividade econômica em especial, que é responsável pela maior parte do desmatamento ilegal, pela violência, pela corrupção e pelo clima geral de insegurança na região. Trata-se da indústria de roubo de terras públicas.

A maior parte das terras – onde estão as florestas – da Amazônia são terras da União e dos estados. Um dos negócios mais lucrativos na região é invadir essas terras, expulsar ou assassinar as populações locais, roubar a madeira, queimar o resto da floresta, forjar uma ocupação produtiva para pecuária e vender títulos falsos de propriedade. Ou simplesmente fazer pressão política para legalizar a invasão criminosa. Essa indústria de roubo de patrimônio público sustenta quadrilhas ricas e bem estruturadas. Ela mantém milícias armadas e comanda assassinatos em série. Naturalmente, afugenta os empresários que tentam investir de forma honesta na região.

As terras públicas, isto é, o patrimônio de todos os brasileiros, representam mais de 60% da área total da Amazônia. É lá onde a grilagem mais deixa rastros de destruição e prejuízos. Estamos falando de grupos que invadem, queimam, desmatam, falsificam documentos de posse e, depois, ganham milhões com a venda dessas áreas, que pertencem a todos nós. Essas pessoas são responsáveis por boa parte do desmatamento do território amazônico e por criar na região um ambiente de violência e corrupção, que intimida empresários, investidores e produtores.

Além da destruição dos recursos naturais, a ação dos grileiros mancha a imagem do agronegócio legal, aumenta a insegurança jurídica e a promove uma concorrência desleal de mercado, o que acaba afastando quem quer agir de acordo com a lei. Enquanto não acabarmos com a grilagem, não conseguiremos atrair bons negócios já que, na prática, estamos fazendo justamente o contrário. Em 2019, por exemplo, quando as queimadas e o desmatamento na Amazônia atingiram a maior taxa anual dos últimos dez anos, vários grupos de investidores que caminhavam para iniciar atividades econômicas na região, desistiram de fazer isso.

Portanto, adotar medidas para coibir a ação desses grupos criminosos, como manter as áreas de conservação do país e promover a destinação para conservação e usos sustentáveis das florestas públicas não destinadas, não só é melhor para o meio ambiente, como também mais lucrativo para o Brasil. Os ganhos são infinitamente maiores do que anistiar os bandidos.

O argumento furado de quem defende a MP da Grilagem é que os invasores, se legalizados, passariam a usar a terra de forma produtiva. Isso não é verdade. A terra já era produtiva antes. Uma das áreas com maior invasão é a Floresta Nacional de Jamanxin, no Pará, uma unidade de uso sustentável reservada especialmente para ser concedida a uma empresa privada que produz madeira e outros produtos da floresta de forma sustentável. Os criminosos impediram o uso econômico da área e só promoveram destruição para enriquecimento próprio.

Quem defende os bandidos sob argumento econômico também poderia pedir a anistia das quadrilhas de tráfico de drogas ou de armas, dos bandos de contrabandistas, alegando hipocritamente que eles geram emprego. Se um bando de criminosos invadir a Praia de Ipanema, cercar a área e lá criar um shopping de contrabando, quem vai defender que o terreno público seja entregue a eles?

Existem caminhos para acabar com o roubo de terras públicas na Amazônia. O primeiro passo não é anistiar mas punir os criminosos.. Para isso, temos várias formas. Uma delas é a Força-Tarefa Amazônia, do Ministério Público Federal (MPF), que trabalha muito, apesar da falta de estrutura, para acabar com a grilagem. Em atuação desde agosto de 2018, a Força-Tarefa já registrou pelo menos R$ 580 milhões em prejuízos documentados e mais de 80 pessoas indiciadas por crimes ambientais. Entre os acusados de desmatamento ilegal e grilagem está, por exemplo, um ex superintendente do Ibama no Acre, que ajudava grandes pecuaristas da região a fraudar documentos, o que, para os procuradores, escancara o quanto o Estado tem sido omisso.

Outro argumento fajuto para a MP da Grilagem é que ela favoreceria a regularização de pequenos produtores. Em nota da assessoria de imprensa do MAPA, Teresa Cristina afirma que a medida pode beneficiar 300 mil famílias e que a área média dos terrenos a serem regularizados é de 80 hectares. Só que a MP da Grilagem aumenta a área para regularização sem necessidade de nenhuma vistoria (o que facilita a fraude) para até 2,5 mil hectares. Estamos falando de áreas gigantes, ocupadas em escala industrial por quadrilhas especializadas.

O MPF tem avisado o quão ruim é a iniciativa do governo com essa Medida Provisória. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou uma nota técnica ao Congresso Nacional, ressaltando que a MP 910 coloca em risco uma série de bens jurídicos constitucionalmente tutelados, como o acesso justo e legítimo à terra, mediante reforma agrária, e os direitos de grupos étnicos e culturais. A nota também evidencia, entre outros pontos, que a flexibilização dos requisitos para a regularização fundiária aumenta o potencial de gerar condutas criminosas de invasão de terras públicas e questiona a necessidade de uma medida provisória para tratar desse assunto.

Outra carta, assinada conjuntamente pela 2ª Câmara (Criminal), 4ª Câmara (Meio Ambiente e Patrimônio Cultural), 5ª Câmara (Combate à Corrupção) e pela 6ª Câmara (Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais), também apresenta inconstitucionalidades na edição da Medida Provisória.

Segundo o documento, a flexibilização proposta, além de criar um cenário de estímulo a novas ocupações, ainda promove o acirramento de conflitos no campo. “Trata-se da jurisdicização do estado de natureza, com impacto desproporcional sobre agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais e sobre o meio ambiente, com toda coletividade que dele depende”.

Para a procuradora federal e coordenadora da Força-Tarefa Amazônia Ana Carolina Haliuc Bragança, o Estado tem, historicamente, falhado em suas políticas de proteção ao meio ambiente, reforma agrária e proteção à comunidades tradicionais. Ela afirmou, durante o Seminário “Amazônia: Desmatamento, Crime Organizado e Corrupção”, realizado no mês de fevereiro em Brasília, que essa incapacidade do poder público resultou em mais de milhares de hectares desmatados, mortes, desaparecimentos e casos de tortura, relacionados a disputas entre madeireiros, pecuaristas, grileiros, assentados e comunidades tradicionais nestas áreas. “Nenhum ator econômico foi efetivamente atendido, seja pelos projetos de regularização fundiária para atividade agropecuária, seja para uma eventual concessão de áreas para, por exemplo, manejo florestal. É uma área em que o estado, claramente, falhou em todas as políticas públicas”, concluiu.

Várias entidades ligadas ao meio ambiente também emitiram notas técnicas que apontam os riscos da aprovação definitiva dessa proposta. O Instituto Democracia e Solidariedade ressaltou os impactos negativos que a MP pode causar na Amazônia, com pelo menos mais 1,7 milhões de hectares desmatados ilegalmente somente por grilagem nos próximos cinco anos na Amazônia, perda que equivale a duas vezes a Região Metropolitana de São Paulo. “É preciso alertar à sociedade, ao setor privado e ao governo para o fato evidente de que ao premiar (com titulação facilitada) quem ocupou ilegalmente e desmatou ilegalmente, ou seja, não cumpriu o Código Florestal a partir de julho de 2012, a MP estará sinalizando que o crime de ocupação de terras públicas e desmatamento ilegal na Amazônia compensa”.

Já o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) pontua que a medida vai na contramão do que precisa ser feito para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Parte da destruição que ocorre na floresta amazônica é causada por pessoas que visam lucrar com a terra pública, pois invadem as nossas florestas e as desmatam esperando que o governo emita o título de terra cobrando valores abaixo do mercado.

Essa prática garante altos lucros com a venda do imóvel após a titulação. Assim, se aprovada, essa MP premiará com um título as invasões recentes (2011-2018) e poderá estimular um novo ciclo de ocupação, apostando que novas invasões também possam ser anistiadas no futuro. Além disso, a MP pode aumentar o risco já existente de perda de investimentos no Brasil, por conta da degradação ambiental na Amazônia”.

Um grupo com mais de cem organizações não governamentais divulgou uma carta no dia 13 de abril pedindo para o Congresso derrubar a MP. “Estamos sempre abertos para discutir regularização fundiária. Mas não é o caso dessa medida provisória”, diz Mario Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica. “Essa medida provisória estimula a farra da invasão de terra em larga escala no Brasil inteiro.

Punir o crime é fundamental, mas não é o suficiente. Precisamos garantir que os criminosos não sejam premiados. Foi partindo desse princípio e com o objetivo de barrar a MP da Grilagem que Greenpeace, GT Infraestrutura, Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Observatório do Clima (OC) e WWF Brasil se uniram na campanha #MP910NÃO. A iniciativa pede que as pessoas falem sobre o assunto e divulguem nas suas redes sociais o movimento, cobrando dos parlamentares que façam a sua parte para não entregar nossas terras.

Para os porta-vozes da campanha, a real solução passa pela busca de alternativas que defendam os interesses nacionais, tragam justiça social e preservem o meio ambiente. As organizações deixam claro que não precisamos de uma nova lei, mas de investimentos e trabalho para fazer valer a lei que já existe hoje (nº 11.952/2009) e dá direito à terra para que mais de 190 mil pequenos produtores possam trabalhar.

No site da campanha, o cidadão envia um e-mail para parlamentares pedindo que sejam pensadas outras soluções que de fato estejam à serviço dos interesses do Brasil e que protejam nosso patrimônio natural. O prazo final para votação da MP 910 no Congresso é maio. Mas como algumas votações estão acontecendo mais rápido, existe o risco de essa MP destrutiva passar sem a devida atenção. Nós estamos presos em casa, ocupados em lutar contra a epidemia. Legalizar o roubo de uma grande parte das terras do país não vai ajudar ninguém agora.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Amazônia: MP 910 entrega terras públicas para quadrilhas de grileiros (Wilson Dias/Agência Brasil)

Por que uma startup está contratando 800 pessoas no meio da pandemia?

Na contramão da crise provocada pelo coronavírus, uma empresa de call center em casa mostra como negócios para as pessoas e para o clima podem prosperar

Enquanto empresas se preparam para enfrentar a maior crise de sua história, uma dupla de empreendedores brasileiros está contratando e anunciou a abertura de 800 vagas. Eles estão na contramão da recessão provocada pela pandemia de coronavírus. Quando os amigos Ricardo Galdino e Geraldo Brasil tiveram a ideia da JobHome, em 2017, obviamente não imaginavam que pouco tempo depois o mundo iria enfrentar uma pandemia. Nem que as medidas de distanciamento social impostas para conter o avanço no número de casos de coronavírus iria obrigar as pessoas a ficarem em casa.

Mas eles já sabiam que o trabalho em casa era uma tendência promissora. E foi de olho nisso que os sócios fundaram a primeira empresa brasileira especializada em call center 100% home office. Ao criar um software, que permite a gestão tanto de projetos, quanto de operadores remotamente, eles anteciparam o que agora é uma necessidade.

A maior parte dos call centers ainda não tem sistemas home office. As justificativas mais comuns para que esse trabalho continue sendo presencial são os protocolos que, por segurança, só podem ser acessados de um local físico. Mas bastou um momento de necessidade para que as empresas percebessem que há soluções para isso. É o caso do serviço oferecido pela JobHome. Agora, por imposição de um vírus, pelo menos 800 operadores estão sendo contratados pela empresa e passarão por treinamento à distância. “Em 15 dias fechamos em negócios o que a gente demoraria o ano inteiro”, afirma Ricardo Galdino. “São empresas que estavam postergando o home office, o que acabou sendo inevitável nesse momento”, detalha.

Em um cenário onde sair de casa é um risco para a saúde coletiva, o home office se apresenta como alternativa para proteger as pessoas, fisicamente e financeiramente. Em casa, elas também podem cuidar dos filhos, já que as escolas também estão fechadas. A longo prazo, esse modelo de trabalho também pode ajudar a descentralizar a renda no país, que hoje ainda está concentrada basicamente nas grandes capitais, de modo que, remotamente, trabalhadores que moram em qualquer região podem ser incluídos.

Outra vantagem é dispensar um traslado desnecessário. Em média, um trabalhador de call center, por exemplo, perde entre uma hora e meia e duas horas de deslocamento, transtorno que pode ser evitado. De acordo com dados da JobHome, só em 2019, foram 57.856 horas a menos no trânsito, o que significa 53.9796 quilos em redução de emissões de gás carbônico.

O desejo de todos é que a pandemia seja controlada o mais rápido possível e que as pessoas possam voltar a sair de casa o quanto antes. Porém, a experiência de atravessar uma pandemia pode render algumas descobertas. A mudança de perspectiva das empresas, que até então eram resistentes com o home office, pode ser uma delas. O teste forçado pode fazer com que muitos empresários percebam este como um caminho a ser incluído nos planejamentos a longo prazo.

Eles vão perceber que é uma alternativa interessante no que diz respeito à produtividade e qualidade de vida do funcionários, mas também que precisam de ferramentas para implantar o modelo de forma eficiente. “É preciso ter muito cuidado e entender que home office não é só mandar o funcionário para casa, com computador e telefone. A parte de gestão precisa estar muito bem preparada para monitorar tudo isso”, explica Ricardo Galdino.

Além disso, segundo ele, o mercado tem espaço para todos. “Não vejo o fato de mais empresas investindo nisso como concorrência, mas como negócios que estão nos ajudando a disseminar o que a gente acredita. Estamos falando de uma mudança de hábitos que é melhor para as cidades, para o planeta, que é o que a gente precisa agora: pensar coletivamente”.

O home office, claro, é bom também para o clima porque há menos emissão de gases na atmosfera. A conta é simples: menos transporte, menos poluição. Com poucos dias de medidas de contenção, já é possível notar até mais estrelas no céu de São Paulo. Além de render boas fotos para o Instagram, isso é sinal de que a atmosfera está mais limpa. A qualidade do ar também tem melhorado, de acordo com plataformas de monitoramento e secretarias de meio ambiente locais. Fenômenos também têm sido notados em outras grandes cidades de todo o mundo: Itália e China divulgaram recentemente quedas notáveis na emissão de poluentes no primeiro mês de distanciamento social.

Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS), defende outro aspecto positivo da questão. Para ele, o momento é de dar uma resposta urgente à questão de saúde pública, em primeiro lugar. Como fazer isso? “Há bons exemplos de articulação público-privada que mostram que num momento de grande pressão, a sociedade brasileira consegue se organizar coletivamente, com empresas e pessoas se engajando em campanhas de solidariedade”, observa.

Já podemos começar a pensar nos impactos de longo prazo que essa mudança de mentalidade trará para diversos setores, incluindo a aceleração da transição para uma economia de baixo carbono. “Pelas razões erradas, isso agora está acontecendo muito rapidamente. A gente gostaria que fosse por consciência, por alinhamento do investimento com os valores humanos, conformidade com os acordos internacionais, como o Acordo de Paris”, afirma.

Gustavo Pinheiro lembra que os setores que investem em trabalho remoto e tecnologias de comunicação já estavam crescendo e, neste momento, apenas estão experimentando um salto. “A digitalização, inclusive do trabalho, é algo que já está em curso há, pelo menos, 30 anos. O que está acontecendo é que estamos vendo, em semanas, coisas que talvez fossem levar anos para serem realizadas”. Ele explica que, de modo geral, a economia digital emite menos gases do efeito estufa do que a economia tradicional e ainda tem o benefício de rodar com qualquer energia.

Grandes empresas de tecnologia, como Apple, Amazon e Facebook, já se preocupam há alguns anos em fazer uma transição para energias renováveis, pelo menos para abastecer todas suas operações digitais. E esse é outro fator importante que torna a indústria digital mais limpa e faz a gente torcer para que essas mudanças tenham chegado para ficar.

A operadora Jaqueline Isabella da Silva Orestes trabalha na JobHome há quatro meses e já relata uma mudança de vida. “No regime presencial minha vida era uma correria e tanto, eu passava mais tempo na rua do que em casa com a minha família e fazendo as minhas tarefas. Quando chovia, já chegava cansada no trabalho o que, claro, impactava na minha produtividade”. Para ela, o novo regime de trabalho mudou tudo. “Voltei a fazer faculdade e consigo dar a atenção necessária para a minha filha de três anos. Trabalho com mais ânimo e disposição”. Ela vê com bons olhos as tendências de mudança no mercado. “É bom tanto para a empresa quanto para o funcionário. As empresas precisam começar a pensar fora da caixinha e esse momento está aí para nos provar isso”.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Ricardo Galdino (esq) e Geraldo Brasil (dir), fundadores da JobHome (Divulgação/Divulgação)

Oito megatendências ecológicas para o mundo pós coronavírus

A epidemia será uma das experiências mais traumáticas da história moderna. Mas, com sorte, poderemos sair dela mais preparados para os desafios ambientais

O desenrolar da pandemia de coronavírus ainda é um mistério. Mas podemos afirmar que esse episódio deixará marcas profundas na humanidade. O período de angústia, sofrimento e perdas deve gerar um grande trauma em escala global. Toda a geração que passou por isso ficará marcada e sairemos dessas com novas visões de mundo.

É possível que a crise dure muito. Para administrar a velocidade de contágio e tentar evitar o colapso dos sistemas de saúde, autoridades de vários países manterão a população em estado de distanciamento social ou quarentena em sucessivas ondas de maior e menor restrição. Até a proporção de pessoas imunes reduzir o risco da doença. Ou até a chegada de uma vacina, que pode demorar anos para ser inventada e produzida em larga escala. Especialistas em epidemiologia começam a calcular que o período de exceção que vivemos pode se estender até o fim de 2022.

É um período longo de home office, restrição de atividades com multidão, redução de viagens aéreas e outras grandes alterações em nossos meios de produção, convívio familiar e entretenimento. Vai transformar radicalmente as economias, os serviços, as tecnologias, os hábitos, o nosso paradigma de sociedade. Naturalmente, qualquer exercício de futurologia agora é arriscado. Mas já é possível vislumbrar algumas grandes tendências do mundo que virá por aí. Muitas delas coincidem com a visão de uma humanidade que usa de forma mais sustentável os recursos naturais do planeta.

Talvez a crise do coronavírus, que deve durar alguns anos, acelere a transição da sociedade para formas de viver e produzir que nos ajudem a lidar com outra crise global – a das mudanças climáticas – que certamente vai durar pelos próximos séculos.

A seguir, uma tentativa de traçar 8 megatendências ecológicas para o mundo pós-coronavírus:

Maior credibilidade da ciência, principalmente em sua capacidade de antecipar perigos. Menos espaço para negacionistas
Isso já está acontecendo. Os cientistas alertaram que uma epidemia dessas poderia ocorrer. Também anteciparam algumas das consequências de deixar essa epidemia correr solta. Os que tentaram negar as evidências e estimativas dos cientistas foram obrigados a voltar atrás, rapidamente derrotados pelos fatos. Os cientistas vêm alertando para outros riscos, como na área ambiental. É provável que a lição trágica de tentar negar o conhecimento e os alertas científicos seja aprendida por muitos líderes e por cidadãos comuns.

Seria um grande ganho para todos, porque poderíamos parar de gastar energia tentando convencer um grande número de desinformados que o consenso científico não vem por acaso e dedicar tempo e recursos preciosos para resolver os problemas, ou reduzir seus danos. “Nós vimos as terríveis consequências daqueles que rejeitaram os avisos da pandemia. Não podemos mais arcar com as consequências da negação das mudanças climáticas”, afirmou por tuíte o ex-presidente americano Barack Obama no dia 31 de março.

Valorização das coisas simples versus consumismo
Estamos passando por momentos de grande angústia e incerteza. Estamos lutando por nossas vidas, e pela vida das pessoas que amamos. Estamos sacrificando nosso conforto (ficando em casa) e boa parte de nossas riquezas (optando por medidas com impacto econômico) para isso. Estamos todos fazendo a escolha de valorizar a vida antes de qualquer opção financeira. Mesmo assim haverá sofrimento. Depois disso viveremos dias difíceis e longos de empobrecimento generalizado, dificuldades materiais.

Mas será possível saber que superamos um desafio gigante. Essa experiência forte já está levando algumas pessoas a valorizar as relações humanas, a família, pequenos prazeres, objetos do dia-a-dia, aquilo que temos em casa. Para suportar a angústia e a incerteza, as pessoas estão buscando engrandecimento espiritual, pensando mais em aproveitar o presente. Haverá um resgate de estilos de vida simples, mais focados nas relações humanas, na saúde e na felicidade, e menos na acumulação de bens tidos como supérfluos.

A expansão das atividades humanas que dispensam o deslocamento físico
Sim. Quando o longo período de distanciamento social passar, voltaremos a nos encontrar, a viajar, a participar de eventos com multidões. Mas a conquista dos meios de comunicação remotos veio para ficar. Durante os longos meses de contenção da epidemia, desenvolveremos formas eficazes de trabalhar, fazer compras, falar com os amigos, tudo à distância. Descobriremos que muitas viagens de carro e de avião são desnecessárias mesmo. Empresas, negócios e trabalhadores vão se ajustar para trabalhar em casa.

Durante a retomada, com a economia retraída, será mais difícil encontrar posições de trabalho estáveis, e mais gente permanecerá em casa, com tarefas esporádicas remuneradas. Isso tudo trará um ganho de redução de trânsito. Queimaremos menos combustível à toa, perderemos menos tempo no congestionamento, deixaremos o ar das cidades mais limpo.

Aumento da solidariedade
A epidemia ameaça a todos. Controlar a velocidade de contágio não depende só de uma pessoa ou uma família. É um esforço coletivo. Toda pessoa que respeita o espaço do outro na fila do supermercado está ajudando. Quem deixa de sair de casa ou toma cuidado com a distância do outro na rua. Estamos vendo manifestações gerais de solidariedade com doações materiais, com esforços conjuntos de empresas para desenvolver material de higiene ou equipamentos médicos. Estamos vendo vizinhos se organizado para usar as áreas livres do prédio ou para fazer compras para quem está preso em casa.

É comprovado que hábitos e práticas mantidos com regularidade por um tempo sustentado, reforçadas por incentivos positivos como elogios e sensação de segurança, tendem a se firmar. Isso significa que a sociedade com um todo está adquirindo mais solidariedade. Quando a crise específica do Covid-19 passar, essa confiança recíproca adquirida – ou nosso capital social – será mantido.

Essa capacidade conjunta naturalmente será aplicada para resolver outras questões que afetam a todos, como muitos dos desafios ecológicos. Isso será importante para lidar com os problemas ambientais que envolvem o uso equilibrado de recursos compartilhados, como rios, oceanos, florestas ou mesmo a atmosfera da Terra no caso das mudanças climáticas.

Compreensão de que o mundo está conectado
Os países bem que tentaram fechar suas fronteiras, para reduzir a velocidade do contágio. Mas é uma medida paliativa. Só será possível eliminar o risco do Covid-19 quando todos os países conseguirem exterminar o vírus. Outras doenças também dependem a colaboração internacional para serem contidas e não se expandirem numa pandemia, como esta. As informações científicas e as experiências de estratégias para conter a epidemia também circulam entre os países. Esse é um problema claramente global. As grandes questões ecológicas da atualidade também têm essa característica.

As emissões dos SUV com um passageiro nos Estados Unidos e do desmatamento na Amazônia brasileira estão alterando o clima do planeta inteiro, provocando elevação desastrosa do nível do mar em Bangladesh e agravando os incêndios florestais na Austrália. Ainda estamos no início da crise da pandemia. Quando ela tiver passado, é possível que esteja mais claro que a segurança de cada país depende, em boa parte, na estabilidade do resto do planeta.

Crítica à produção industrial de animais que dá origem a novas doenças
Ninguém está falando muito disso agora. Mas muitos dos processos de produção industrial de animais criam vulnerabilidades para o surgimento de doenças potencialmente catastróficas. O Covid-19 provavelmente veio de práticas de armazenar animais selvagens presos em jaulas sem condições de higiene, para consumo humano na China.

Havia muitos alertas científicos que o consumo de animais silvestres com aquela falta de cuidados poderia dar origem a um patógeno desses. Mas não havia vontade política para agir. Agora, a prática foi abolida pelo governo chinês. Mas ainda precisamos lidar com as fábricas de proteína animal.

Os sistemas industriais de produção animal são fontes potenciais permanentes de novos vírus capazes de gerar pandemias piores do que a atual. A gripe suína H1N1 de 2009 parece ter surgido em uma operação de confinamento nos EUA. A gripe viária H5N1 de 1997 saiu de granjas na China. Outras gripes viárias perigosas surgiram nos EUA, na Índia e na China. Foram sufocadas com o sacrifício rápido de criações inteiras de frangos antes que se espalhassem pelos humanos. É um risco permanente.

As condições de criação envolvem animais com pouca variedade genética, submetidos a condições de baixa imunidade. A revista científica American Journal of Public Health alertou em editorial de 2007 que a produção industrial de animais poderia ser a origem da próxima grande pandemia. Nunca foram levados a sério. Agora, diante do trauma do Covid-19, as autoridades e, principalmente os consumidores, deverão questionar a necessidade de medidas de precaução. Elas envolvem grandes mudanças na lógica da produção em massa. Mas o mundo já está virando de cabeça para baixo de qualquer forma.

Menos ar condicionado e mais janelas abertas
O sol e o ar puro estão sendo louvados como fatores de prevenção ao contágio do Covid-19. Estamos sendo orientados a desligar o ar condicionado nas residências e áreas comerciais, abrir as janelas e deixar o ar de fora entrar. A mesma orientação vale para quem circula de carro. Desligue o ar e abra as janelas.

O uso excessivo de ar condicionado – com seus filtros de pólen nem sempre impecavelmente limpos – está associado a doenças respiratórias e alérgicas. É claro que o ar condicionado oferece conforto nos dias mais quentes. Ele será necessário para as cidades cada vez mais quentes com as mudanças climáticas.

Mas os meses de confinamento e cuidados com o ar viciado dos ambientes fechados provavelmente trarão a valorização de projetos arquitetônicos que aproveitam a circulação natural de ar, renovando o ambiente com o frescor de fora. Isso será bom não só para nossa saúde. A redução no uso do ar condicionado também diminuirá o consumo de energia e o vazamento para a atmosfera de gases refrigeradores com alto potencial de efeito estufa. Respiraremos melhor.

Valorização das áreas naturais
Semanas ou meses de confinamento dentro de apartamentos, olhando para a paisagem urbana na janela. Enfrentando angústia e perdas. As pessoas já estão manifestando desejo de maior contato com a natureza. As famílias que podem estão escolhendo passar o período de quarentena em casas de campo ou na praia, em contato com a natureza.

Passeios em áreas naturais ou perto de cenários como montanhas, lagos ou praias reduzem o estresse no período de distanciamento social. Os ambientes naturais sabidamente oferecem sensação de paz nos momentos difíceis. Observar o ciclo natural ou movimentos simples como uma formiga subindo uma árvore ajuda a oferecer conforto para quem perdeu uma pessoa querida.

O ar puro e a paisagem natural têm efeito reconhecido para a saúde mental, para recompor a imunidade. Muitas cidades fecharam o acesso aos parques públicos urbanos, privando os cidadãos desses espaços verdes. A privação irá aumentar a valor desses metros quadrados de natureza sobreviventes nas grandes cidades.

É claro que isso não compensa o imenso sofrimento humano que estamos vivendo e vamos viver. Também seria ingenuidade pensar que todas as lições dessa epidemia tornarão nossas sociedades mais saudáveis. Mas a resiliência das famílias, das comunidades e dos países reside em sua capacidade para aprender com a dor e buscar mais sustentabilidade. Com sorte, a humanidade sairá um pouco mais sábia desse episódio.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Sustentabilidade: o valor compartilhado traz lucro (weerapatkiatdumrong/Thinkstock)

Como preparar sua cidade para as chuvas de verão

As mudanças climáticas estão trazendo tempestades cada vez mais destrutivas. Oferecer soluções para evitar esses danos é um campo de negócio promissor

O volume de chuvas que atingiu a região Sudeste do país no início de 2020 deixou um saldo de destruição. Casas e ruas alagadas, veículos arrastados pela água e rodovias interditadas ainda são cenas que fazem moradores das áreas de risco perderem o sono sempre que o tempo fecha. Quem vive em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte sofreu na pele os estragos.

As baixadas santista e fluminense também ficaram em estado de alerta, com casos de soterramento e queda de barragens. Em Santos, Guarujá e São Vicente (no litoral paulista) houve deslizamento de encostas. Foram dezenas de mortos e desaparecidos, além de milhares de desabrigados, nos quatro estados da região que, juntos, somam quase 150 mortos, 70% a mais que no mesmo período de 2019.

Essas tragédias não são inesperadas. As chuvas destrutivas de verão são conhecidas. É normal no verão: chove muito e de forma mal distribuída. E também é sabido que essas tempestades tendem a piorar com as mudanças climáticas. José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), diz que as chuvas do início do ano não foram surpresa, mas a quantidade foi mesmo maior que a média, ultrapassando os 100 milímetros em alguns eventos. “Estimamos probabilidades de ocorrência, não de volume”.

O especialista acredita que é possível afirmar, baseado nesses acontecimentos, que o volume de chuvas dificilmente vai diminuir nos próximos verões e que podemos ter outros episódios parecidos ainda este ano. “Há uma tendência a longo prazo, por conta do aquecimento global, de que a incidência de eventos climáticos extremos aumente em todo o mundo.” Verões mais quentes, invernos mais frios e chuvas mais intensas.

Para Pedro Roberto Jacobi, que é professor titular sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), podemos dizer que esses eventos são tragédias anunciadas. “Em Santos a média anual de chuvas é 2.900 milímetros e choveu mil só no mês de fevereiro. É um volume de chuva que se torna absolutamente inadministrável quando temos ocupações em áreas de risco, um número enorme de pessoas morando em áreas inadequadas.”

Ele explica que é urgente melhorar a urbanização nessa áreas, mas que o ideal seria que pessoas não morassem nelas. “Se chove nessa proporção, a terra se fragiliza e, por mais que a Defesa Civil esteja atenta, desastres vão acontecer. Com esse volume de chuvas, a realidade é que o risco de deslizamentos em morros é muito elevada”.

Qual é a saída? Se adaptar a esse novo normal.

As cidades vão precisar modificar completamente o planejamento, especialmente no que diz respeito ao uso do solo. “Temos que reduzir essa impermeabilização, que é uma loucura, porque as águas não conseguem fluir. Fora a questão mais dramática, que é o saneamento”, afirma Pedro Jacobi.

“Basicamente, se você tem elevados volumes de chuva, precisa ter melhores condições de drenagem. Isso significa que precisamos uma mudança radical na forma como isso é tratado nas nossas cidades”, completa. Ele explica que as cidades também precisam encontrar maneiras de aumentar o volume de arborização urbana, que afeta a absorção de CO2 e a evapotranspiração, além de mudar as formas como tratam seus rios, especialmente nas áreas urbanas.

Nossas cidades não estão preparadas nem para o clima do passado, muito menos para o clima modificado. Isso significa que há muito trabalho pela frente. E necessidade de inovações. “Existe todo um campo de novos negócios que estão começando ou podem surgir levando essas mudanças em consideração”, afirma Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

No Brasil, essa ainda é uma discussão nova porque crescemos acreditando que somos um país livre de desastres naturais, o que, segundo ele, nunca foi verdade. “Mesmo antes da mudança do clima, o Brasil já tinha muitos desastres, enchentes, secas, inundações e deslizamentos, problemas de muito tempo”. Ele acredita que essa formação pode ser uma das causas de estarmos atrasados em relação a outros países, onde já existe uma estrutura bem mais desenvolvida, tanto de prevenção, quanto de resposta e recuperação de desastres.

Quem estiver de olho nisso, terá oportunidades diversas. Um exemplo é o monitoramento e a geração de informações confiáveis, que são o ponto de partida para qualquer ação. É o que faz a startup Pluvi.On ao instalar estações conectadas e de baixo custo, que disponibilizam informações precisas para monitorar riscos de desastres.

Este artigo foi originalmente escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Mudanças climáticas: região Sudeste foi atingida por alto volume de chuvas e temporais no início do ano (Fabiano Matos/Flickr)

Como o coronavírus pode afetar o clima da Terra

A pandemia empurrou outros grandes desafios da humanidade, como a emergência climática, para baixo na lista de prioridades. Quais serão as consequências

Um vírus microscópico tem o poder de influenciar no clima da Terra. Esse poder tem a ver com sua capacidade de direcionar os esforços humanos para priorizar e despriorizar os problemas. É por isso que a atual pandemia de coronavírus terá um grande impacto no curso das mudanças climáticas e como lidamos com ela.

E não é, por enquanto, um impacto positivo. A principal consequência da emergência global provocada pela epidemia é jogar a emergência climática para baixo na lista de prioridades – o mesmo na de itens a serem discutidos – no grande debate público.

As mudanças climáticas continuam sendo um problema grave enfrentado pela humanidade. Um dos maiores. A concentração de gases de efeito estufa já presente na atmosfera do planeta é por si suficiente para garantir o aumento da temperatura média da Terra por vários séculos, e mais emissões irão ocorrer nas próximas décadas, agravando o problema.

A pandemia é passageira, mas os efeitos das mudanças climáticas serão sentidos hoje e cada vez mais nos próximos séculos. No entanto, o apetite público para discutir isso seguramente encolheu diante da crise atual de saúde.

As mudanças climáticas estão associadas à problemas que também custam para a economia e para as vidas humanas. As enchentes e desabamentos mortais do verão estão ligadas às mudanças nos padrões de chuvas. Teremos mais eventos extremos, com consequências para as infraestruturas e para a produção de alimentos. Mas esses riscos, na escala de prioridades, desceram um pouco.

É como se você morasse numa casa e o telhado estivesse quebrado. Tem goteiras dentro dos cômodos, entra frio, até alguns bichos. O telhado pode desabar num futuro próximo, gerando estrago maior e ameaçando a vida da sua família. Mas se você tiver alguém com doença grave na família, provavelmente vai deixar o conserto do telhado para depois e cuidar do atendimento emergencial hospitalar antes.

O segundo motivo pelo qual a pandemia de coronavírus atrasa o debate e as ações pelo clima diz respeito à uma questão cognitiva. A pandemia de gripe está associada ao frio. Passamos a desejar que os dias quentes se prolonguem e o inverno demore a chegar. O sol é um aliado. Imaginar um mundo mais quente traz – mesmo que inconscientemente – conforto.

Seria bem diferente se estivéssemos atravessando uma epidemia de alguma doença transmitida por mosquitos, como dengue, chikungunya, malária ou zika. Essas estão se agravando e irão se agravar ainda mais com a ampliação de áreas tropicais no planeta, com as mudanças para verões mais quentes e chuvosos, e invernos mais amenos. E isso vai ficar evidente de novo acontecer quando a pandemia atual de coronavírus passar.

Se a prioridade para falar de clima vai ficar em suspenso, a evolução do problema também. Isso oferece uma oportunidade de ação. A desaceleração econômica provocada pela pandemia deve ter um impacto equivalente ou maior do que a recessão global de 2008 nas emissões. Ou seja, teremos uma queda absoluta nas emissões de carbono globais em 2020 e talvez em 2021 ou 2022.

Nem o aumento declarado na produção de petróleo anunciada pela Arábia Saudita deve mudar essa perspectiva de queda nas emissões. Isso significa que a humanidade ganha um tempo de respiro na escalada acelerada das emissões, que vinha acontecendo superando os piores cenários traçados pelos cientistas.

No ritmo que estávamos antes do freio indesejado provocado pela pandemia, havia pouca chance de conseguirmos limitar a elevação de temperatura na faixa de 1,5 a 2 graus centígrados, o máximo considerado seguro para evitar as grandes tragédias climáticas.

Agora, teremos tempo para rever os investimentos em infraestrutura (já que muitos deles serão suspensos por causa do impacto econômico da pandemia) que nos aprisionam numa economia intensiva em emissões de efeito estufa. Quando voltarmos a falar de crescimento e de medidas anticrise, para estimular o crescimento econômico, poderemos aplicar esse esforço na transição para formas de produzir bens, serviços e energia com menos impacto para o clima.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Coronavírus: Covid-19 já infectou mais de 130 mil pessoas no mundo todo (dowell/Getty Images)

Em Brasília, seminário da Seja Legal, MPF e Transparência Internacional propõe atuação conjunta para combater crimes e corrupção na Amazônia

Discussão envolveu órgãos ambientais e a sociedade civil na busca de soluções para a questão

Autoridades, órgãos ambientais e sociedade civil participaram na tarde desta quarta-feira (19) do Seminário “Amazônia: desmatamento, crime organizado e corrupção”, na sede da Procuradoria-Geral da República em Brasília. O encontro teve como propósito congregar esforços em busca de um objetivo comum: estabelecer medidas urgentes para conter o avanço do desmatamento no bioma amazônico. De acordo com o MPF, somente uma estratégia conjunta e articulada será capaz de combater os ilícitos criminais e ambientais em curso e que causam prejuízos irreparáveis ao meio ambiente e ao desenvolvimento socioeconômico da região, em especial o desmatamento.

O seminário foi realizado pela Câmara de Meio Ambiente do MPF, em parceria com a organização não-governamental Transparência Internacional – Brasil e com a campanha Seja Legal com a Amazônia. Dividido em três mesas de debate, o evento buscou esclarecer a relação entre os crimes observados, além de discutir as possíveis soluções para os problemas. A primeira mesa analisou as dinâmicas da corrupção e do crime organizado na Amazônia, apontando os atores e o modo como as quadrilhas operam na região. Com base no panorama apresentado, os participantes discutiram ações e metas para combate à criminalidade e à corrupção na região nos próximos anos. Por fim, abordaram a regularização fundiária como estratégia de prevenção à grilagem e ao desmatamento.

Articulação – Na abertura do evento, coordenador da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF (4CCR), subprocurador-geral da República Nívio de Freitas, explicou que o MPF tem realizado reuniões e estabelecido diálogo permanente com os órgãos ambientais, a fim de encontrar meios para garantir a preservação da Amazônia. Também destacou a importante atuação da Força-Tarefa Amazônia do MPF na investigação e no combate aos ilícitos ambientais que prejudicam o bioma.

Para Nívio, é essencial promover o debate contínuo sobre o tema, como forma de conscientizar a sociedade e estabelecer medidas eficazes de proteção ambiental. “Essa discussão serve para criar pontes e conjugar ações que nos permitirão, efetivamente, combater essas ilegalidades e defender a Amazônia”, ponderou.

Marcello Brito, presidente da Abag e porta-voz da campanha Seja Legal com a Amazônia. (Foto: Antonio Augusto/Secom PGR)

De acordo com Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e representante da Campanha Seja Legal com a Amazônia, é preciso estabelecer maneiras eficazes de controle de grilagem de terra e desmatamento, com maiores esforços do poder público na fiscalização e na regularização fundiária. “Não adianta multar por multar. É preciso mobilizar o poder público e a sociedade para que as sanções sejam suficientes para inibir este tipo de conduta”, defendeu.

Domenica Bumma, chefe da Seção Política da Delegação da União Europeia no Brasil, citou a experiência no âmbito do continente europeu no combate ao desmatamento e salientou a importância do acordo firmado entre a União Europeia e o Mercosul em 2019. De acordo com ela, o acordo vai ajudar a reforçar a cooperação internacional, resgatando os benefícios do comércio e os investimentos, além de fomentar o desenvolvimento sustentável em ambos os blocos.

O diretor executivo da Transparência Internacional Brasil, Bruno Brandão, focou na relação entre o desmatamento ilegal e a corrupção. Ele criticou as brechas da legislação que tornam brandas as sanções aos agentes criminosos. “A solução que defendemos está no fortalecimento do estado democrático de direito. Instituições de fiscalização e controle, processos regulatórios e de formulação de políticas públicas mais íntegros, eficientes e transparentes”, argumentou.

Joaquim Álvaro Pereira, diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), descreveu a estratégia do órgão para conter o desmatamento ilegal na Amazônia. De acordo com ele, o trabalho é composto por vários eixos, incluindo a regularização fundiária, com foco na redução da atividade ilegal na região. Um das iniciativas nesse sentido é a recente criação do Conselho da Amazônia. “Tais esforços buscam contribuir com o combate a criminalidade e reduzir a ilegalidade, criando um dinamismo econômico que alie o desenvolvimento à sustentabilidade”, sintetizou.

Representando o procurador-geral da República, o ouvidor-geral do MPF, subprocurador-geral da República Juliano Baiocchi, apontou para a necessidade da especialização dos agentes públicos e, principalmente, dos órgãos ambientais para lidar com assuntos como corrupção e criminalidade no contexto ambiental. Por fim, reiterou a responsabilidade compartilhada entre os atores para tornar mais equilibrada a disputa entre desenvolvimento e preservação no bioma amazônico. “O esforço conjunto permitirá dividir as tarefas entre os responsáveis para que tenhamos a paz nesse ambiente não só de negócios, mas de sustentabilidade social e ambiental na região Amazônica” ponderou.

Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e porta-voz da campanha Seja Legal com a Amazônia. (Foto: Antonio Augusto/Secom PGR).

Manual e Protocolo – O seminário marcou o lançamento do manual de atuação “Mineração Ilegal de Ouro na Amazônia: Marcos Jurídicos e Questões Controversas”. A publicação tem como objetivo esclarecer a regulamentação aplicável à extração de ouro, sobretudo sob a forma de garimpo na Amazônia, e diagnosticar as falhas legislativas que fazem dessa atividade econômica um terreno fértil para a criminalidade. O texto foi elaborado por integrantes da FT Amazônia.

Ao fim do encontro, houve a assinatura do Protocolo Unificado Pelos Acordos da Pecuária Sustentável. O protocolo é um desdobramento do caso Carne Legal, no qual o MPF firmou Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) com frigoríficos da Amazônia Legal para fins de comprovação da procedência da carne. Entre os objetivos dos TACs está coibir o desmatamento ilegal voltado ao aumento da área de pasto.

O protocolo assinado prevê a padronização desses TACs a fim de orientar os membros com atuação na temática e uniformizar ações de monitoramento e fiscalização. Mais de 100 empresas que vendem gado, carne ou couro bovinos produzidos na região amazônica já assinaram o TAC da Carne, que prevê, entre outras obrigações, a de não adquirir gado criado em áreas de desmatamento ilegal ou de fornecedores em desconformidade com a legislação trabalhista e ambiental.

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Procuradoria-Geral da República.