Por que é tão difícil juntar os pontos do clima?

Mais um verão extraordinariamente quente em curso no hemisfério norte. Incêndios florestais nos Estados Unidos, no Canadá e em vários países da Europa, deixando um rastro de mortes e destruição. Onda de calor estourando os termômetros. O que mais poderíamos esperar? Estamos vivendo a escalada do aquecimento global. O ano de 2014 bateu o recorde histórico de calor. Depois 2015 bateu de novo. E 2016 bateu mais uma vez. Depois dessa escalada, o ano seguinte foi mais frio. Sob efeito do fenômeno cíclico La Niña, que esfria o Oceano Pacífico, o coração do clima do planeta, o ano de 2017 interrompeu a sequência de recordes. Foi apenas o terceiro ano mais quente da história! Agora entramos em 2018 com o aquecedor a toda outra vez. As ondas de calor e os incêndios inspiraram a capa desta semana na influente revista britânica The Economist. A edição liga os pontos, mostrando como o aquecimento global descontrolado que estamos nos auto-inflingindo só poderia gerar esse tipo de tragédia.

Décadas de negociações internacionais penosas apenas produziram um Tratado de Paris que é, segundo cientistas, incapaz de manter a temperatura da Terra dentro do limite teoricamente seguro de 2 graus centígrados de aquecimento. É um número arbitrário. No fundo, como os gases de efeito estufa ficam na atmosfera por séculos, alterando o clima, e como as consequências são complexas, podendo provocar rupturas irreversíveis no equilíbrio natural, as emissões de carbono são como a fumaça do cigarro: não há níveis realmente seguros de consumo.

O Furacão Katrina, que atingiu os EUA em 2005, deixou um saldo de 1200 mortos e problemas econômicos até hoje não superados. Também fez parte do país e do resto do mundo acordar para os riscos das mudanças climáticas. Na esteira do furacão, o interesse público pelo tema cresceu. Os cientistas começaram a ser ouvidos. As empresas passaram a acelerar planos para reduzir suas emissões.

A onda de calor destrutiva deste ano também deveria provocar alguma elevação no interesse popular pelas mudanças climáticas. Principalmente nas regiões mais atingidas. Uma forma de tentar observar isso é pela quantidade de buscas pelo tema no Google. Mas uma pesquisa usando a ferramenta que mede isso, o Google Trends, parece mostrar que o interesse não esquentou com as temperaturas nas ruas desses lugares.

O gráfico acima mostra a curva de buscas pelo tema “global warming”, ou “aquecimento global” em inglês dentro do Google nos EUA. Apesar do calor que os americanos vivem agora e dos incêndios, não houve ainda um aumento sensível no interesse pelo tema. Podemos imaginar que é um fenômeno americano, onde a ciência virou uma questão partidária e os republicanos tendem a repudiar as evidências do aquecimento provocado pelos humanos. Mas algo parecido aparece na Espanha, um dos países com os piores incêndios florestais agora.

Curva de buscas por “cambio climatico”no Google da Espanha

As catástrofes ambientais infelizmente ainda são a mais poderosa ferramenta de convencimento para a necessidade de acelerar as medidas para conter as mudanças climáticas. Mas será que até elas estão perdendo sua capacidade para tirar nossa sociedade da inércia?

Os conservacionistas queimam diesel

Tela do Futurômetro mostra o resultado instantâneo da enquete no CBUC (foto: Alexandre Mansur) Um dado intrigante que surgiu no último Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, o CBUC, realizado em Florianópolis, entre 31 de julho e 2 de agosto. A organização do evento, da Fundação Grupo Boticário, fez uma pesquisa de opinião entre os participantes. É um grupo especial. Afinal, o congresso reuniu alguns dos principais ativistas e pesquisadores da conservação, além de centenas de profissionais dos órgãos de conservação e fiscalização de parques e reservas dos estados, além do ICMBio. A enquete apurou alguns hábitos pessoais, como uso de plásticos e envolvimento com a conservação para gerar um gráfico de respostas que indique as tendências daquele lugar: o Futurômetro. A enquete foi respondida por 448 dos participantes do IX CBUC. A maior parte das respostas revela, como era de se esperar, um alto grau de consciência ambiental e compromisso com práticas saudáveis de vida.

Uma das perguntas, porém, gerou um resultado interessante. Ao responderem a pergunta “Qual o tipo de combustível que você mais utiliza em seu veículo?”, cerca de 29% dos participantes revelaram usar combustíveis renováveis. Ou seja, responderam que usam etanol ou eletricidade ou que não usam veículo motorizado próprio. Isso significa que aproximadamente 70% da elite do conservacionismo brasileiro

queima combustível fóssil em seu veículo. Uma das pessoas responsáveis por auxiliar o preenchimento dos questionários disse que muitos dos respondentes disseram que usavam diesel. SUVs ou picapes a diesel, para ser mais exato. Pode ser que esse índice reflita a elevada proporção de agentes de parques ou de batalhões florestais, que andam de jipe por razões profissionais. Mas ainda assim é uma taxa alta de combustível fóssil.

Quem está envolvido com meio ambiente no Brasil pode ser dividido em dois grandes grupos: a turma das mudanças climáticas e a da conservação. Embora algumas pessoas e instituições atuem nos dois campos, são duas turmas bem diferentes. Os ativistas do clima muitas vezes vêm da área de negócios, vários trabalham em empresas. É comum encontrar quem têm formação em física ou alguma outra ciência equivalente. Predominam os argumentos científicos e econômicos em seus discursos. Já a galera da conservação tem uma alma mais hippie. Um grande número vem da biologia, da engenharia florestal ou de áreas próximas. Falam do valor intrínseco, da beleza dos ecossistemas e da biodiversidade, e de como uma experiência emocionante numa reserva natural pode transformar nossa vida. Talvez essa diferença de perspectiva entre esses grupos ajude a explicar a resposta no CBUC. Ou talvez seja outro fator. Provavelmente, os dois grupos precisam conversar mais.

As pessoas querem as florestas como solução natural para o clima

Imagem de uma floresta tropical ideal. Ela foi a preferida entre os entrevistados pela KRC (foto: reprodução do relatório)

A imagem acima mostra uma floresta tropical exuberante, com árvores imponentes, um lindo curso d’água encachoeirado que provoca desejos em alguns empreendedores hidrelétricos. Uma névoa ao fundo fornece a aura de mistério, talvez de pureza. Ou ao menos de umidade do ar, da evotranspriração que recarrega a atmosfera e sustenta o ciclo de chuvas.

A foto foi eleita como a melhor imagem para conquistar corações e mentes de uma campanha que mostre a importância de soluções naturais para a crise climática. Essa foi uma das revelações de uma pesquisa feita pela KRC Research, empresa de pesquisas, para testar mensagens que acendam mais neurônios ativos na cabeça de cidadãos preocupados com o clima. O estudo foi feito com adultos do Brasil, Indonésia e Estados Unidos. Foram ouvidos 1.504 pessoas, um terço em cada país em junho deste ano. Os cidadãos considerados preocupados com o clima foram aqueles que disseram prestar atenção às mudanças climáticas, acreditar que representam um problema sério e se importar pessoalmente com isso.

O objetivo do levantamento foi testar mensagens para avaliar quais podem ser usadas em campanhas para defender a conservação de florestas como uma solução imediata para o clima.

Os americanos, como era de se imaginar, estão defasados em conscientização climática. Apenas 36% disseram que prestam atenção nas mudanças climáticas, contra cerca de 50% no Brasil. Cerca de 84% dos brasileiros afirmaram que se preocupam pessoalmente com as mudanças climáticas, o percentual mais alto entre os países pesquisados.

Na hora de se dispor a apoiar medidas para domar o clima insano que estamos gerando, as opções preferidas circulam em torno da natureza. As alternativas incluiam a proteção de florestas, investimentos em energia limpa, leis que restringem as emissões, mudança no estilo de vida, taxação dos emissores e até adoção de alimentação vegetariana.

A solução preferida pelos respondentes foi “proteger e expandir as florestas”, com 66% do apoio pessoal. Cerca de 34% acham que essa medida é factível e pode ter grande impacto. A segunda medida preferida foi investimentos em “fontes renováveis de eletricidade como eólica, solar e geotérmica”, com 65% de apoio. Cerca de 39% acham que é um caminho viável e com grande impacto para melhorar o clima da Terra.

Há peculiaridades regionais. Para os americanos, a solução das energias limpas é a preferida. Já entre os indonésios, a preferida é a conservação de florestas.

Essa reposta poderia estar ligada a direção dos investimentos para que isso ocorra. Se o mundo se dedicar a preservar florestas, os beneficiários serão os países florestais, como Brasil e Indonésia. E os EUA, que também têm grandes extensões de florestas – e, ao contrário de indonésios e brasileiros – conservam bem seu patrimônio natural. Se a opção for investir em energia limpa, os grandes beneficiários incluiriam o EUA, que desenvolveram tecnologias solar e eólica (embora a China tenha assumido a liderança nas duas frentes) e o Brasil, com o maior potencial do mundo em biomassa. Mas, como se trata de uma enquete popular, mesmo considerando que os respondentes já acompanham o tema, é pouco provável que saibam dessas implicações. Ou que tenham pensado nelas na hora de responder.

Em geral, as pessoas se mostram pouco dispostas a mudar seu próprio estilo de vida. A tendência é transferir a responsabilidade para o outro. Seja outro país, seja o governo ou seja o vizinho. Entre as soluções possíveis, a que menos cativa os entrevistados é adotar um estilo de vida vegetariano. Só 14% dos ouvidos optou por isso. E só 3% acham que seja factível ou tenha grande impacto.

Outra opção impopular é fazer os poluidores pagarem impostos. Apenas 43% dos respondentes apoia a medida. E só 12% acham que teria impacto. Provavelmente, há o receio que taxar os poluidores torne os produtos mais caros, inviabilize negócios, deixe países e setores menos competitivos, leve a demissões. É um temor injustificado. A experiência da Europa com taxação de carbono não mostra nada disso. O continente adota limites de emissão há mais de uma década, sem nenhum impacto visível em seu crescimento. Na verdade, taxar os poluidores é uma das mais eficientes para a promoção de tecnologias novas e para repartir com equidade o esforço de redução nas emissões. Que exista tanta resistência popular a essa medida levanta a necessidade de um trabalho forte de conscientização. Contar mais sobre a experiência da Europa pode ajudar.

Os pesquisadores testaram mensagens também. Pesquisaram qual era o termo preferido entre as pessoas para descrever as soluções para as mudanças climáticas. As opções incluíam diversas combinações como: “soluções florestais, alimentícias e agrícolas”, “soluções de alimentos e uso da terra”, “soluções florestais e agrícolas”. E o termo genérico “soluções naturais para o clima” (ou “natural climate solutions” no original em inglês, que foi a preferida. Provalvelmente, remete à ideia que a conserto para o problema climático é investir em natureza, resgatar o equilíbrio natural da Terra.

O principal motivo para as pessoas quererem “soluções naturais para o clima” é que, para 67% delas, isso “aumenta nosso bem estar, oferece ar e água puros, e age como grandes esponjas que absorvem a poluição de carbono”.

E que imagens mais brilham nos olhos dos nossos potenciais ativistas? Os pesquisadores ofereceram várias: uma mostra um orangotango da Indonésia, outra exibe uma área arrasada pela queimada, mais uma mostra uma vista aérea da devastação. Havia fotos de povos indígenas e de cultivos sustentáveis (cacau, que nos dá gostosos chocolates). Mas a foto campeã foi a que mostrava uma floresta maravilhosa e intacta. A imagem que ilustra esse post. A pergunta era: “Que imagens podem ser

usadas para conseguir atenção e apoio?”. O fato de uma bela foto de floresta ser a preferida sugere que as pessoas desejam o sonho do ecossistema intacto. Provavelmente acreditam no valor do patrimônio natural conservado, mesmo que não tenha nenhum ser humano na imagem, mostrando uso turístico ou de exploração sustentável. Todo poder às florestas, então.

Agora, quem conserva as florestas também pode dar sua ajudinha segurando a queima de diesel…

Como conseguir mais água com menos chuva

Recuperação de um dos canais de abastecimento com água do córrego Guariroba (foto: Tony Winston/Agência Brasília)

A população de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, tem boas razões para lutar pela recuperação das florestas. Uma nova pesquisa mostrou que o trabalho de preservação e regeneração da mata na bacia do córrego Guariroba aumentou a vazão de água. O córrego, na verdade um rio, é a principal fonte de água para abastecer a população de Campo Grande.

Um estudo feito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul mostrou que um programa de pagamento por serviços ambientais ajudou os agricultores ao longo da bacia do rio a cuidarem melhor dos mananciais entre 2012 e 2016. Os pesquisadores conseguiram isolar fatores como erosão do solo, capacidade da absorção das chuvas, e oscilação no volume de precipitação do período. Conclusão: mesmo com

uma redução nas chuvas no período avaliado, a vazão do rio aumentou graças ao trabalho de conservação da floresta. Houve uma redução de aproximadamente 1 milímetro por mês na quantidade de chuva no período. Apesar disso, o fluxo de água do rio aumentou cerca de 0,018 metro cúbico por segundo. A pesquisa foi publicada na revista científica Science of the Total Environment. >> A saúde das pessoas é um bom argumento para preservar o meio ambiente

O Guariroba é responsável por 50% da água de Campo Grande. Ao longo do seu curso, a principal atividade agrícola é a pecuária. O cerrado natural cobre apenas 13% da bacia. Ainda há 6% de floresta plantada com eucalipto. A expansão do gado reduziu a água do rio por causa da degradação do solo e do uso de reservatórios subterrâneas. Para evitar maior degradação do rio, o município de Campo Grande lançou o programa Manancial Vivo em 2009. O programa remunera os agricultores que colaboram para que o solo absorva mais água das chuvas, reduzem erosão e preservam biodiversidade. As práticas são simples, como manter o gado preso (para não pisotear áreas de mata preservada), recuperação da mata ciliar, manutenção de estradas etc. >> As florestas do cerrado começam a ganhar atenção

O estudo é importante porque confirma a eficácia dos programas de pagamento por serviços prestados pela natureza. “Esse é um trabalho único onde constatamos de forma quantitativa o aumento de vazão no rio em função de práticas de conservação, como formação de terraços e revegetação de áreas degradadas”, diz Paulo Tarso Oliveira, coordenador do grupo de pesquisadores. “Essas práticas foram subsidiadas por um programa de pagamento por serviços ambientais.” O resultado mostra como um bom trabalho para estimular os agricultores a cuidar melhor dos recursos naturais traz benefícios palpáveis para a população. As florestas são fábricas de água. Fundamentais para nossa sobrevivência. Deveríamos proteger os mananciais como se fossem parte da nossa família. >> Os brasileiros querem florestas preservadas

A pesquisa reforça a importância de manter uma rede de monitoramento nas bacias hídricas que abastecem grandes centros urbanos. Os resultados positivos obtidos com a conservação das florestas são um argumento poderoso para que o trabalho continue, com apoio político e sustentação da população. >> A solução está na floresta

O parque nacional que estão querendo tirar de você

O impressionante Cânion do Funil está na área que os políticos querem tirar do parque (foto: Anders Duarte)

O Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, recebe milhares de visitantes por ano. Alguns têm a sorte de flagrar os dias que uma camada de neve cobre a paisagem impressionante. Mas isso não comove um grupo de políticos, que vem tentando destruir o patrimônio natural do país.

A seleção de fotos deste post mostra o que esse grupo de políticos quer tirar dos brasileiros. O parque é patrimônio de todos. Como nem todo mundo teve oportunidade de ir visitá-lo – e curtir suas cachoeiras – as fotos ajudam a entender o que estão tentando tirar de nós. As imagens foram compartilhadas pela Rede Pró Unidades de Conservação

Um dos remanescentes da floresta com araucária também corre o risco de sair do parque (foto Raphael Sombrio)

Um bloco de deputados e senadores votou uma medida provisória para reduzir três Unidades de Conservação. A MP trata sobre gestão de imóveis da União, que é um assunto completamente diferente. Mas os políticos deram um jeito de colocar lá disfarçadamente um item para

destruir três Unidades de Conservação. Esse tipo de manobra é comum para tentar aprovar sem alarde medidas que vão contra o interesse da população. Principalmente no conturbado período de fim de ano.

O Parque Nacional de São Joaquim é um dos alvos da manobra. A proposta pode ser aprovada até março pelo plenário da Câmara e do Senado. O plano é tirar 20% da área do parque.

O ataque visa uma das mais lindas atrações turísticas do Sul do Brasil. O parque que os congressistas querem destruir fica na região serrana de Santa Catarina. É um dos pontos onde os turistas correm no inverno para ver neve. Tem uma bela geologia que atrai visitantes para pontos especiais como o Morro da Igreja, a Pedra Furada e os Cânions das Laranjeiras. Cerca de 100 mil pessoas visitam o parque todo ano, alimentando a economia local, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação a Biodiversidade, órgão federal que gere os parques do país. Além disso, o Parque Nacional de São Joaquim guarda mananciais essenciais para a região e é habitat de espécies ameaçadas.

A vista aérea do Cânion do Funil com os campos de altitude e manchas de floresta mostra um pedaço do parque que os políticos querem desproteger (foto: Anders Duarte)

O Parque também preserva um dos últimos remanescentes da mítica floresta com araucárias, a floresta temperada de pinheiros do Brasil, que cobria quase todo o Sul do Brasil e parte do Sudeste.

Apesar de todo esse valor para o país, o Parque Nacional de São Joaquim vem sendo alvo de ataques de deputados catarinenses, com apoio de outros congressistas contra o meio ambiente. A tentativa de destruir esse patrimônio foi forte o ano passado. Conhecer o que está em risco pode nos ajudar a proteger nossa riqueza.

Segundo a Rede Pró UCs, a Medida Provisória 852 é inconstitucional. As unidades de conservação não podem ser alteradas, excluídas ou reduzidas via MP, conforme decisão do Superior Tribunal Federal. Há uma petição para evitar que a medida inconstitucional e predatória vá adiante.

2018 – O ano que as startups invadiram a ciclovia

Ciclovia na Avenida Paulista, em São Paulo (foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

Existem boas evidências que 2018 marcou uma virada decisiva na mobilidade urbana em São Paulo. Em um ano só, diversas novas opções de transporte chegaram ao país. Num espaço de poucos meses, ciclovias e ciclofaixas viraram um mercado disputado por startups com todo tipo de proposta inovadora para locomoção.

A expansão das faixas dedicadas a bicicletas, skates, patins e outros meios de locomoção ativa (onde você, em tese, usa de alguma forma os próprios músculos) vem avançando há décadas em São Paulo, assim como em outras cidades do país. Mas neste ano houve uma passagem de marcha nessa evolução da mobilidade ativa. Num espaço de meses, várias novidades criaram opções de locomoção para atender a perfis de usuários ou momentos de uso ainda não contemplados. A YellowBike lançou em São Paulo sua frota de bicicletas de aluguel sem estação fixa. Elas ficam soltas. Você destrava com um aplicativo, anda com ela e deixa onde quiser. A empresa ainda limita o raio de ação a uma região mais central da cidade, mas promete expandir. Nessa área da cidade, as Yellows estão em toda parte. É difícil olhar ao redor e não ver uma disponível.

O aluguel de bicicletas elétricas se popularizou em 2018, com várias empresas oferecendo serviços. Em agosto, a Movida, terceira maior locadora de carros do país, entrou no negócio em parceria com a E-Moving para multiplicar as bikes disponíveis. O resultado foi sentido nas ruas. Principalmente para subir as ladeiras da cidade.

Depois disso tudo veio a invasão dos patinetes elétricos de aluguel. Primeiro foi a própria Yellow que lançou essa opção de serviço, e encheu o centro expandido (região central da cidade) com os patinetes amarelos. Depois o popular aplicativo de entregas Rappi fez uma parceria com a mexicana Grin para oferecer patinetes elétricos pela cidade. O novo meio de locomoção pegou imediatamente. Os patinetes parados na calçada disponíveis para o aluguel ficaram onipresentes na região nobre da cidade.

Um cronista da cidade, em sua coluna via Facebook chamada “Baita infra memes for Insper boys” comentou as novidades. Postou um “review” das opções de transporte da Avenida Faria Lima, uma das mais congestionadas e valorizadas da cidade. O texto dá tom da efervescência hipster com as novidades urbanas. Reproduzo um trecho abaixo, respeitando o estilo linguístico do original:

“Para quem ainda está perdido nesse mar de opções de transporte que a nossa querida Faria Lima oferece, fizemos um review de cada uma para vc poder decidir melhor como chegar no job. Carro – Lame, ultrapassado, quem ainda dirige em 2018? Ônibus – Kkkkkk pfvr Bicicleta Itaú – Segura e confiável, pq não ir com o bom e velho Itaú? Mesma marca que seu banco, afinal, quem usa Bradesco como banco? Isso seria tipo usar Claro de operadora. É chato ter que usar estação fixa, mas a porra da ciclovia vai de

alto de pinheiros até o itaim, que mais que existe em SP além disso?? Bônus que a bicicleta é da mesma cor que seu partido preferido Bicicleta Yellow – Bicicletinha fraca, parece que vai quebrar na sua mão. Banco não ajusta direito, não tem marcha, é desconfortavel… A grande vantagem é a flexibilidade mesmo, da pra largar em qualquer lugar, entao vamo da um credito Patinete Yellow – Esse sim, a verdadeira joia da empresa, estável, rápido e ousado. Eles falam que só pode ir até 20 km/h mas todo mundo sabe que na retona da pra chegar nos seus 25, ir cortando as bikes, ventinho na cara… Patinete Grin – Um pouco pior que o da Yellow mas mais comum, então ok. Seria melhor se o QR code funcionasse, parece ingresso de festa essa porra Monociclo elétrico – Aquela rodona unica entre as pernas, disparado o transporte mais ousado da Faria Lima, recomendamos 10/10, reúne estilo, velocidade, conforto e estilo Motoquinha de ciclovia – Mto chato, só atrapalha quem ta na ciclovia, tinha que acabar, ta achando que ta em amsta carai”

Todas essas opções de transporte não lotaram apenas a Faria Lima mas intensificaram a ocupação de ciclofaixas e ciclovias em outras vias, que até então estavam ociosas.

Sim. Embora alguns serviços como os patinetes da Grin e as bicicletas do Itaú estejam disponíveis em outras cidades, a superoferta de opções ainda é um fenômeno reservado para uma elite paulistana ou para quem frequenta a região da cidade. Mas é o início. Em termos de inovação urbana, São Paulo virou um espaço de experimentações e lançamentos de novos serviços, que depois se expandem para o resto do país. E o maior valor da chegada de todas essas novidades num espaço de meses é o lado simbólico. As novidades de transporte adotadas na região nobre de São Paulo costumam ganhar um caráter aspiracional para o resto do país.

Nem mesmo as disputas políticas locais em torno da autoria das ciclovias conseguiram reverter o avanço das ciclovias. Nem em São Paulo, onde polarização política fez um prefeito eleito ameaçar desfazer as ciclovias e ciclofaixas criadas pelo antecessor. A ameaça não passou da bravata. A população desejava aquelas faixas. A criação de espaços dedicados à bicicletas faz parte, no imaginário do eleitor, daqueles sinais de progresso. É coisa de Primeiro Mundo. Por isso, poucos eleitores realmente apoiariam a destruição das faixas e ciclovias.

É interessante observar como esses avanços de política pública de mobilidade, que tornam nossas cidades mais sustentáveis e resilientes (que contribuem para reduzir a dependência em combustíveis fósseis responsáveis pelo aquecimento global) acontecem num momento de aparentes retrocessos ambientais. Por mais que algumas forças políticas com visão obtusa tentem invocar o passado, não há espaço para o retrocesso quando a população experimentou os benefícios de uma inovação social ou tecnológica. Algumas coisas simplesmente não andam para trás. Todo mundo sabe que bicicletas e patinetes não dão marcha ré.

Quem sustenta as ONGs?

Troféus do prêmio Melhores ONGs (foto: Alexandre Mansur)

De onde vem o dinheiro que sustenta as organizações não-governamentais (ONGs)? Essa é uma questão que mexe com o imaginário de algumas pessoas. Certamente, é um fator importante para quem se preocupa com a sustentabilidade financeira de organizações que atuam em várias causas fundamentais para a sociedade.

O Brasil ainda não tem uma cultura de filantropia madura como outros países. As doações para organizações envolvidas com trabalhos de causas não correspondem ao que se esperaria de um PIB como o nosso. Parte disso pode ser atribuído à alta carga de impostos que recai sobre os brasileiros. Mas há outros fatores. Uma pesquisa realizada há alguns anos pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) constatou que o principal motivo alegado pelos brasileiros para não contribuir é falta de conhecimento ou confiança nas ONGs. Para ajudar a remediar isso criamos o Prêmio Melhores ONGs, uma parceria da agência O Mundo Que Queremos com o Instituto Doar e o Instituto Filantropia. Pelo segundo ano seguido, destacamos as 100 melhores ONGs do Brasil em vários quesitos como transparência, governança e eficiência. É a maior premiação do Terceiro Setor brasileiro.

Os resultados do Melhores ONGs podem ajudar a lançar luz sobre o financiamento do Terceiro Setor. Fernando Nogueira, professor da Fundação Getúlio Vargas, e um dos coordenadores do comitê de avaliação do Melhores ONGs, se debruçou sobre os dados da pesquisa em relação à origem dos recursos.

Seu levantamento revelou que a maior parte do dinheiro vem de fontes privadas e brasileiras. Os recursos de empresas, de indivíduos, de eventos ou de venda de produtos são o principal ganha-pão de 56% das organizações listadas. Apenas 25% das premiadas dizem que dependem de recursos dos governos (estaduais, municipais e federal). Outras 9% afirmaram que têm recursos internacionais. E 10% citaram outras categorias como principais fontes de recursos.

Dentro do conjunto de ONGs que se sustentam com dinheiro privado nacional, o maior grupo (22%) destacou como fonte principal as empresas. Em seguida vêm indivíduos (18%), venda de produtos (10%) e eventos (6%).

“É bom ver que captação com indivíduos está entre as fontes mais comuns”, diz Fernando Nogueira. “Em especial das 100 melhores.”

É saudável a presença dos indivíduos como uma das três principais fontes de recursos para o Terceiro Setor. Arrecadar recursos direto das pessoas dá mais legitimidade para a organização. Ela realmente se posiciona em nome de um conjunto grande de cidadãos. Também obriga quem coordena a ONG a prestar atenção aos humores da sociedade. Acompanhar de perto as demandas da base social que contribui para aquela causa.

Também é interessante observar que os recursos internacionais – que assombram alguns nacionalistas temerosos – são relevantes para apenas 9% das ONGs premiadas.

A liberdade para o cidadão se organizar e agir coletivamente dessa forma foi uma das maiores conquistas da redemocratização do Brasil nos anos 1980. As organizações não-governamentais têm um papel insubstituível na sociedade. Elas agem para resolver – ou atenuar – problemas que estão fora do alcance dos governos e da iniciativa privada. Nascem da vontade de pessoas ou grupos para agir em campos mais diversos, como meio ambiente, saúde, direitos humanos ou educação. É através das ONGs que as pessoas descobrem que têm o poder para transformar um pouco de sua realidade de forma direta, sem depender do governo. Elas também funcionam como equilíbrio de forças diante dos poderes oficiais. Por isso, o desenvolvimento das ONGs é um indicador confiável do estado de uma sociedade democrática. E a saúde financeira delas é essencial para isso. Artigo publicado originalmente na coluna Ideias Renováveis da revista Exame em 6 de dezembro de 2018

O Triângulo das Bermudas de São Paulo

Não. Ele não fica no Caribe, embora tenha um clima quente. O novo Triângulo das Bermudas está em São Paulo. Ele apareceu neste verão. Sua localização ainda não é precisa. Aparentemente está em expansão. Hoje é possível traçar sua área com linhas unindo os três vértices: o Parque Villa-Lobos, o Parque do Ibirapuera e o Memorial da América Latina. Dentro dessa área estão os bairros de Pinheiros, Perdizes, Vila Madalena, Jardins e Pompéia. O fenômeno característico dessa região é a misteriosa invasão dos homens de bermudas.

Ninguém sabe exatamente o motivo. Não há – é preciso reconhecer – indicadores precisos desse fenômeno. Não existe estatística ou índice, muito menos pesquisa científica. Mas basta caminhar nas ruas dessa região nobre de São Paulo e fazer uma contagem amostral para constatar que praticamente metade do público adulto masculino, inclusive em horário e locais de trabalho, estão vestindo bermudas. São várias combinações. Bermuda com camiseta, com polo ou com camisa (para

dentro ou fora). Com Havaianas, com tênis, com meia ou sem, com sapato. Muitos com sandálias franciscanas. Vários com Bierkenstok.

Pode ser pura coincidência. Pode ser uma onda passageira. Ou podemos estar vivendo uma transição de comportamento. Seria mais do que uma moda. A adoção de bermudas pelos homens, no lugar de calça comprida, representa uma evolução cultural.

No auge do verão, com a cidade batendo recordes de calor, o traje adaptado ao clima têm várias vantagens ambientais. Primeiro, permite uma redução na dependência de ar condicionado. Também permite mais flexibilidade para o transporte coletivo e para a locomoção ativa. Não é por acaso que justamente agora estamos vivendo uma explosão no uso de ciclovias, aluguel de bicicleta e patinetes elétricos.

É possível arriscar vários motivos para essa transformação cultural. A disseminação do estilo visual hipster – com bermudas e tênis de skatista – pode ser parte da explicação (inclusive as fotos deste post receberam um filtro). Ou um aumento na proporção de profissionais em esquemas flexíveis de trabalho, com contratos esporádicos – sem um chefe ou empresa com código de vestuário – e trabalhando em home office.

Independente do motivo, adequar o vestuário ao clima é um avanço civilizatório. E ambiental. O próximo passo é criar o Dia Mundial Sem Terno.