Por que as empresas não recebem os fiscais ambientais com flores?

Fiscais do IBAMA fazem operação contra agrotóxicos ilegais na Bahia

É menos estranho do que parece. Em vez de encarar a fiscalização como um obstáculo à produtividade, pode-se enxergá-la como um serviço gratuito de mapeamento de riscos

O Brasil tem uma legislação ambiental bastante abrangente. Para alguns ufanistas, é a lei mais avançada do mundo; para alguns críticos, é a mais rigorosa. Como explicar então que esse poderoso arcabouço legal não consiga melhores resultados em barrar a devastação do cerrado ou da floresta Amazônica? Ou, mais premente, impedir tragédias como a de Mariana ou Brumadinho?

Uma parcela da resposta está na forma como boa parte das empresas lida com a fiscalização. Embora as companhias mais bem estruturadas tenham setores de sustentabilidade, compliance, responsabilidade corporativa ou o nome que você preferir, a principal interação delas com o órgão fiscalizador se dá na área da contestação jurídica. Isso quando não ocorre alguma negociação com instâncias políticas superiores para reverter ou aliviar determinada autuação.

A judicialização do relacionamento com os órgãos ambientais têm razões estruturais. Existem procedimentos preestabelecidos dentro das empresas para lidar com uma notificação ou autuação ambiental recebida. Normalmente, várias áreas são informadas, mas, de fato, frequentemente, o departamento jurídico lidera a decisão sobre como a autuação será respondida e o que precisa ser feito – e ele olha para a notificação do ponto de vista legal. “Não há nada de errado nisso. Cada área deve dizer, diante de um evento como esse, o que, considerando suas responsabilidades, deve ser feito”, afirma Nelmara Arbex, fundadora da Arbex & Company, empresa de consultoria internacional em gestão de negócios e sustentabilidade. “Porém, o que está sendo discutido no momento é se a resposta jurídica é considerada a mais importante a ser dada, ou mesmo a única. Isso significaria que as razões da autuação, ou a análise sobre a que aspectos da operação ela está ligada, ou a que riscos, se avaliações mais profundas devem ser feitas, ficam em segundo plano. E acabam, aparentemente, sendo deixadas de lado”, diz.

A razão para esse tipo de procedimento virar rotina, o jeito normal de proceder, tem a ver, entre outros fatores, com um entendimento sobre onde deve estar o foco dos executivos que tomam as grandes decisões das empresas. “Normalmente o foco deles está na estratégia, em como fazer negócios financeiramente bem-sucedidos”, afirma Nelmara. O problema dos tempos atuais é que fazer negócios financeiramente bem-sucedidos tem cada vez mais a ver com questões éticas, reputacionais, impactos socioambientais, transparência. “São temas que não fazem parte do radar cotidiano dos principais tomadores de decisões”, diz. Eles precisam ter isso em mente, ou se rodear de pessoas que tenham. Executivos precisam cuidar do capital intangível, que hoje representa a maior parte do valor das empresas no mercado.

Num universo paralelo, os fiscais seriam recebidos com flores, e não com advogados, pelas empresas. Já pensou? Hoje soa mais irreal do que duendes e fadas na linha de produção. Se você recebeu uma notificação de irregularidade por parte de algum órgão ambiental, aceite-a com carinho. Se recebeu uma multa, agradeça. Cumprimente o fiscal e seja grato ao presente que ele está lhe dando. A direção da empresa devia agradecer as autuações, as multas, as condicionantes. É um serviço de mapeamento de risco gratuito oferecido pelo órgão público. Prestar atenção a ele ajuda a evitar problemas infinitamente maiores.

A mensagem do coelhinho da Páscoa aqui é que a autuação ambiental tem como função enviar uma mensagem para a empresa de que há algo a ser melhorado, algo que apresenta riscos. E que ela precisa parar para entender o que precisa ser feito no curto e no longo prazo, não somente legalmente, mas em vários aspectos da operação.

O que precisa mudar na organização interna da empresa para ela aproveitar esses sinais de alerta em seu benefício e em benefício da comunidade na qual ela opera? Um caminho seria desenhar e implementar procedimentos que garantam que as notificações e autuações sejam dirigidas a um fórum interno composto por várias áreas. Inclusive o jurídico, mas não somente. E que nesse fórum se discuta quais são os riscos em torno da notificação/autuação e quais as recomendações para os executivos e o conselho. Isso facilitaria a discussão fora dos silos empresariais e o compartilhamento de várias perspectivas com os tomadores de decisão.

Isso depende, é claro, do apetite da empresa para realmente se preparar para o futuro. Existem empresas que vão além dos requisitos legais. “Elas procuram identificar em seus processos e relacionamentos, de forma correta e ética, riscos e oportunidades, e com base nessa análise, traçar estratégias e planos de atuação que as diferenciem dos concorrentes, possibilitando novos mercados, fidelidade dos clientes e respeito da sociedade”, afirma David Canassa, diretor das reservas do Grupo Votorantim. “Essas empresas estão pensando em sustentabilidade, talvez sem utilizar o termo.”

O que complica a construção de uma boa relação de confiança entre os órgãos ambientais e as empresas é um capricho legal do Brasil. Os técnicos dos órgãos do governo respondem na pessoa física, caso exista algum “erro” na sua análise. Isso torna tudo mais explosivo. O sujeito entra no órgão ambiental, cai na mão dele um processo de licenciamento e, para se precaver, ele começa a pedir um monte de estudos, informações, que podem protelar a licença. Afinal, se algo sair errado, ele vai pagar tudo sozinho. A postura da atual administração federal de tentar criminalizar a fiscalização também não ajuda. Até o desastre em Brumadinho, o discurso oficial do presidente e do ministro do Meio Ambiente era que o Brasil tinha excesso de fiscalização. O ministro, condenado por improbidade administrativa por tentar facilitar licenças de mineradoras na bacia do rio Tietê em São Paulo, defendia flexibilidade com a aplicação da lei ambiental.

Um caso real ocorrido recentemente nos Estados Unidos ajuda a ilustrar como pode funcionar um ambiente de parceria entre o órgão fiscalizador e o setor produtivo. Ocorreu com uma mineradora. A equipe estava trabalhando na mina quando apareceu um fiscal caminhando, sem aviso prévio. Ele procurou o encarregado, fez algumas perguntas e deu uma notificação para ele sobre um processo produtivo. Disse o seguinte: na próxima semana volto para inspecionar. Tal como disse, na próxima semana ele apareceu da mesma maneira, pediu que lhe mostrassem os esclarecimentos. Sentiu-se satisfeito e solicitou a cópia da notificação que ele mesmo tinha lavrado. Imediatamente ele a anulou e foi embora. A operação ficou mais segura, sem burocracia e atrito desnecessário.

Este artigo foi originalmente publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Fiscais do IBAMA fazem operação contra agrotóxicos ilegais na Bahia (Vinícius Mendonça/Ibama)

O Brasil pode ser o herói do clima

Uma boa reputação ambiental não é apenas uma questão política. Ela é crucial para quem faz negócios

 

Agricultura brasileira está diante de uma encruzilhada. De um lado, pode se consolidar como a grande vilã do mundo, uma destruidora das florestas do Brasil e do equilíbrio climático de todo o planeta. De outro lado, pode ser vista como a grande salvadora da biodiversidade da floresta e mantenedora do aquecimento global em níveis administráveis. A decisão sobre o caminho a seguir será tomada nos próximos meses.

É patente que a imagem do Brasil no exterior vem se deteriorando aceleradamente desde o início do governo Bolsonaro. Sem entrar nos méritos dos motivos, a política ambiental do governo atual tem sido associada a redução de áreas de conservação, desmanche dos órgãos de fiscalização, flexibilização de leis ambientais, anistia a quem cometeu irregularidades, defesa da caça de animais, cancelamento de parcerias internacionais para conservação, ataque às organizações de defesa do meio ambiente, corte de verbas para o desenvolvimento sustentável e, no caso recente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, críticas aos pesquisadores que monitoram o desmatamento. Tudo isso supostamente em nome de algum benefício para a agricultura brasileira.

A conta dessa percepção já está chegando. Diversos governos de outros países têm manifestado preocupação com a política ambiental do Brasil e os custos para o planeta de uma eventual destruição da floresta Amazônica – que é brasileira, sem dúvida, mas cuja saúde é fundamental para o resto do planeta. A Amazônia não é apenas a fábrica de chuvas do resto do país e guardiã da maior biodiversidade do mundo. Também é um estoque de carbono decisivo para manter o equilíbrio do clima da Terra diante do aquecimento global em curso. Por isso, diante das declarações pró-devastação ambiental do presidente do Brasil, a revista britânica The Economist resumiu a expectativa global ao batizá-lo de “o chefe de estado mais perigoso do mundo em termos ambientais”. É como se o Brasil detivesse armas de destruição em massa ambientais. E é como se o nosso presidente estivesse sendo visto – o jogo aqui é o da percepção – como uma versão climática de Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte.

Essa conta já foi percebida por quem faz negócios. Em uma palestra recente, Marcello Brito, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, alertou para o risco de restrições comerciais caso a imagem do Brasil lá fora continue se degradando. O tão sonhado acordo do Mercosul com a União Européia pode virar cinzas muito antes da floresta. Até a China, maior cliente do Brasil, deu seu recado. A China cada vez mais se posiciona como a líder global em tecnologias verdes. O governo chinês começou a combater as mudanças climáticas por interesse próprio. O órgão responsável por comprar do Brasil já alertou para cuidarmos das práticas sustentáveis na agricultura, sob pena de embargo. Como lá é uma ditadura, nem dá para dizer que foi alguma ONG que soprou maledicências nos ouvidos deles.

O risco não é apenas para o setor agrícola. Executivos de mineradoras que operam no Brasil relatam que os acionistas vêm expressando cada vez maior preocupação com o risco socioambiental de trabalhar num país onde os cuidados ambientais estão se degradando.

É claro que não precisa ser assim. Entre 2005 e 2015, o Brasil reduziu 70% do ritmo de desmatamento na Amazônia. Foi resultado de um mix de políticas públicas como a suspensão do crédito agrícola nos municípios campeões de destruição, melhora na fiscalização e no monitoramento, criação de unidades de uso sustentável em áreas críticas como as margem da BR 163, a Cuiabá-Santarém. Sabe qual foi o impacto da redução no desmatamento para a produção agrícola do país? Nenhum. Ao contrário: nesse período, o Brasil bateu recordes sucessivos de produção e de exportação, também de geração de emprego e de crescimento econômico. E de redução da pobreza e da fome. Além disso, o Brasil ganhou reconhecimento internacional. Teve acesso à doação de bilhões de euros da Europa em programas de geração de empregos sustentáveis no Fundo Amazônia, com recursos para os governos estaduais, municipais e federais. O Brasil virou uma das grandes potências diplomáticas nas negociações dos acordos do clima, sob o guarda-chuva da ONU, que incluem não só metas mas também investimentos em obras de adaptação às mudanças climáticas e transferências de tecnologia.

O passo seguinte nesse círculo virtuoso seria buscarmos os pagamentos por serviços ambientais. O Brasil tem tudo para ser um dos grandes beneficiários dos recursos destinados para premiar quem conserva o carbono na terra. Empresas como a Permian Global captam investimentos para compensar a conservação de florestas. Há outras frentes mais ambiciosas. Novas empresas estão se organizando para remunerar os agricultores que, por meio de boas técnicas, preservam a integridade do solo e aumentam o acúmulo de carbono embaixo da terra. Uma delas, a americana Indigo, está montando um mercado internacional para pagar aos agricultores que estocam carbono no solo.

Isso sem falar nos produtos da floresta em pé. Um potencial econômico que mal começamos a explorar. A floresta preservada no Pará e na Bahia tornam o Brasil um dos maiores produtores mundiais de cacau. Se a destruição ambiental deixa um gosto amargo na boca, a preservação é doce como um chocolate.

É esse tipo de benefício que precisamos buscar. A experiência recente do Brasil mostrou que somos capazes de ser os heróis da luta global pelo clima. Mas heróis não abandonam a luta.

Este artigo foi originalmente publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

A agricultura é aliada do clima

O setor do agronegócio pode não só preservar as florestas como reduzir o excesso de carbono na atmosfera, estocando nos solos cultivados 

É completamente falso o pretenso dilema entre desenvolvimento agrícola e preservação ambiental. Ao contrário, a agricultura brasileira pode ajudar a salvar o clima da Terra. E de várias formas – uma delas, que pouca gente conhece, deve começar a conquistar o interesse dos agricultores e empresas do setor pelo potencial de retorno financeiro. Para começar, é bom lembrar que o principal movimento da agricultura a favor do clima é fazer sua parte para acabar com o desmatamento ilegal. Nos últimos meses, graças a explosão do desmatamento da Amazônia, o agronegócio do país tem sido associado (em parte pelo apoio dado ao governo) a práticas que estimulam a devastação ambiental. Isso preocupa porque o desmatamento da Amazônia é sozinho a terceira maior fonte global de emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento da Terra. O desmatamento é a maior contribuição do país para a mudança do clima. Por causa da derrubada de florestas, que guardam carbono, o Brasil é um dos cinco maiores emissores dos gases de efeito estufa.

Não precisa ser assim. Primeiro, a agricultura brasileira não precisa de mais desmatamento. Existe o equivalente a três vezes o estado de São Paulo já desmatados e mal utilizados. As florestas derrubadas não dão lugar a cultivos relevantes para o país, mas a uma pastagem pobre que sustenta poucos bois por menos de dez anos antes de se esgotar. A área aberta e desperdiçada no Brasil é mais do que suficiente para atender toda a demanda de produtos que o país pode produzir. Ajudar a interromper esse ciclo de destruição inútil seria a maior contribuição do setor agro do Brasil para nossa economia, nossa sociedade, e também para o resto do mundo.

Mas não é só. A segunda oportunidade para o agro brasileiro ajudar a salvar o mundo é menos badalada mas pode ser bem lucrativa. Os agricultores brasileiros podem ajudar a tirar o excesso de concentração de gás carbônico na atmosfera da Terra. Como? Adotando práticas para guardar carbono no solo. Os solos agricultáveis, em todo o mundo, guardam em sua composição 1% de carbono. Esse é o material orgânico de vegetais, bactérias, fungos ou matéria decomposta. Antes da agricultura industrial esse volume chegou a ser de 3%. É perfeitamente possível fazer a concentração de carbono estocada no solo voltar aos níveis ancestrais com um pacote de boas práticas de manejo como plantio direto (que não deixa o solo descoberto), uso racional de defensivos e fertilizantes ou a rotação de culturas.

Uma startup americana, a Indigo AG, tem a ambição de impulsionar em todo o mundo essas práticas para estocar carbono no solo. A principal iniciativa da empresa é a criação do Indigo Carbon, um mercado global onde os produtores rurais podem vender os créditos pelo carbono guardado sob seus cultivos. O valor pago será determinado pelo mercado, mas a estimativa é seja entre 15 e 20 dólares por tonelada de carbono sequestrado. É um valor menor que o atualmente pago em outros projetos de compensação, mas suficiente para atrair os agricultores, que hoje estão fora desse mercado (com exceção de projetos pontuais ligados à área florestal preservada de algumas grandes propriedades).

Outras iniciativas da empresa são o Terraton Experiment, um laboratório colaborativo global, onde os produtores rurais autorizaram a coleta de dados em suas propriedades para avaliar os efeitos das melhores práticas e seus resultados no sequestro de carbono. E duas outras iniciativas do tipo competição, uma para pesquisadores que apresentam evoluções técnicas (Terraton Challenge), outra para agricultores que conseguem os melhores resultados (Terraton Cup). A Indigo está mirando no mercado brasileiro.

Para aumentar o estoque de carbono no solo, o agricultor precisa mudar suas práticas. “Mudanças significativas não acontecem aos poucos, substituindo um tipo de cultivo por outro”, afirma David Perry, CEO da Indigo. “É preciso mudar todo o sistema de plantio.” O que ele chama de “práticas regenerativas” incluem várias medidas simultâneas. “Os agricultores mais bem sucedidos serão aqueles que fizerem a transição para um sistema mais benéfico, que incorporem um pacote de técnicas: cobrir o cultivo (com árvores ou cobertura artificial), fazer rotação de culturas, não revolver o solo e aumentar a diversidade de plantios. Além disso, no caso da pecuária, fazer um manejo integrado do rebanho com a área plantada, usando os animais para enriquecer o solo. Nesta técnica, além de produzir os grãos que costuma plantar, o produtor também planta alguma gramínea para servir de pasto e inclui o gado em sua cesta de produtos.

Cada tipo de cultivo e cada região do Brasil tem uma solução específica de rotação de cultivos para deixar a terra sempre coberta, e uma camada de palha que protege o solo, afirma João Carlos de Moraes Sá, professor do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa. No Cerrado, por exemplo, ele recomenda usar a safrinha de milho, após a soja, com a braquiária ou o milheto para manter o solo permanentemente coberto e proporcionar o maior sequestro.

Desde o lançamento da iniciativa, no ano passado, vários produtores rurais, principalmente nos Estados Unidos, já se inscreveram. Somam cerca de 2 milhões de hectares.

É claro que para conseguir um crédito pelo estoque de carbono no solo o agricultor precisa estar em dia com as regulações ambientais. Ou seja, precisa respeitar a regra do bioma para manter reserva legal, e manter as áreas de preservação permanente (encostas de morros e margens de rios).

Este artigo foi originalmente publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Crédito  Unsplash/Roman Synkevych

Seu dinheiro ajuda o clima?

As mudanças climáticas representam um risco também para os investimentos. Vários gestores de fundos já estão pensando em como proteger seu capital ­– e ajudar a financiar a economia de baixo carbono

Para quem trabalha no mercado financeiro e tem dois olhos abertos, a crise climática significa que uma grande tempestade está começando a cair. A maior que a humanidade já viu. E que os gestores de fundos de investimento estão correndo por aí tentando descobrir como proteger os 70 bilhões de dólares sob sua guarda dos raios e trovões. Essa realocação de dinheiro para se garantir diante dos impactos previstos pelas mudanças climáticas em curso terá consequências para os investidores, gestores, empresas e para a sociedade em geral.

Para ajudar nessa transição do mercado financeiro no Brasil, a Sitawi, organização especializada no desenvolvimento de soluções financeiras para impacto social, lançou no dia 16 de outubro, em São Paulo, o IPC – Investidores pelo Clima. A iniciativa visa a capacitar e engajar os brasileiros na temática da descarbonização de portfólios. Atualmente, a maior parte dos investimentos brasileiros não leva em consideração a captação de carbono e os riscos socioambientais envolvidos nos negócios; apenas os rendimentos são priorizados. Carla Schuchmann, consultora sênior de finanças sustentáveis da Sitawi, diz que o IPC pretende ajudar a mudar esse quadro. Os investidores e gestores de fundos que aderirem ao IPC ganharão por uma avaliação dos seus portfólios e terão acesso a estratégias traçadas junto a uma consultoria de como aderir à descarbonização, para reduzir sua exposição à tempestade do clima.

Esse dinheiro em busca de abrigo diante da crise climática tem um papel fundamental para acelerar a transição das economias para reduzir as causas da crise climática (diminuindo emissões de carbono) e para se adaptar ao que for inevitável (preparando a infraestrutura para os novos padrões, ou para a falta de padrões, de eventos climáticos).

As mudanças climáticas, ou a crise climática, está em curso no planeta. Suas consequências incluem a intensificação e o aumento da frequência de eventos extremos destrutivos. Tempestades, secas, ressacas. A infraestrutura atual não foi construída para aguentar a transição do padrão climático que vigorou nos últimos 2 000 anos e agora virou coisa do passado. Embarcamos num mundo novo onde não há mais padrão seguro para chuvas, estiagens, mudanças de temperatura. Até mesmo as grandes nevascas no norte dos Estados Unidos e no Canadá têm relação com as mudanças no clima. São resultado de mudanças na circulação atmosférica do Ártico (causadas pelo derretimento da calota polar). Elas facilitam a saída de grandes massas que antes ficavam aprisionadas no Ártico. Todas essas transformações e essa imprevisibilidade significam mais riscos para quem administra portfolios de investimento. Ao mesmo tempo, cresce a responsabilização das empresas que trabalham com combustíveis fósseis ou têm desmatamento ilegal em suas cadeias. Porque suas atividades estão ligadas às causas da crise climática.

Um sinal do risco para os investidores foi dado pelo Federal Reserve Bank of San Francisco. Trata-se de um banco federal que cobre os estados do Alasca, Arizona, Califórnia, Havaí, Idaho, Nevada, Oregon, Utah e Washington. Em um relatório publicado no dia 17 de outubro, o banco avisa que a crise climática pode provocar desvalorização de imóveis, que é preciso parar de emprestar dinheiro para comunidades vulneráveis a inundações e que as cidades podem perder os impostos necessários para construir proteções contra a elevação do nível do mar. Um artigo de Michael Berman, ex-presidente da Associação de Bancos Hipotecadores dos Estados Unidos, também alerta para o risco de desvalorização violenta de imóveis.

Raul Pomares, fundador da empresa de gestão de investimentos americana Sonen Capital, usa um exemplo pessoal para dar uma dimensão do risco. “Imagine que os impactos do clima não poupam nem o Vale do Silício, uma das áreas com maior concentração de riqueza e tecnologia do mundo”, dele diz. “Eu passei quatro dias sem eletricidade em minha casa numa região ao norte de São Francisco por causa de um blecaute gerado pelos incêndios florestais”, conta. Os incêndios de proporções inéditas que varreram a Califórnia foram associados à estiagem recorde que atinge a costa oeste americana, um dos efeitos das mudanças climáticas em curso. “Os incêndios e o blecaute geraram bilhões de dólares de prejuízos para as distribuidoras de energia da região.”

A especialidade da Sonen é criar e aplicar soluções para medir e reduzir o risco de portfolios de investimento à crise climática. Também ajudam a dirigir investimentos para fomentar a economia de baixo carbono. Será preciso repensar os critérios de segurança e retorno financeiros dos investimentos para se adaptar à instabilidade do clima. Também para ajustar os investimentos para melhorar a infraestrutura e apoiar a mudança para uma economia mais segura, que evite os piores desastres para a sociedade e para a natureza. Isso significa reduzir as atividades que causam a crise.

“Muitos investidores acham que para investir em negócios bons para o clima é preciso ter tolerância ao risco e liquidez bastante para apostar em novas tecnologias limpas revolucionárias”, diz Pomares. “Mas existe uma carteira enorme de oportunidades de investimento tradicional que também são a favor de segurança climática”, afirma.

Essas oportunidades envolvem a modernização de centrais elétricas, promoção de eficiência em transportes, manejo de lixo e resíduos (para reduzir emissões de metano), reflorestamento, ações para evitar desmatamento. Isso sem falar em obras de adaptação como reformas na infraestrutura de cidades, estradas, portos etc. para lidar com secas e chuvas fora do padrão, além do avanço do mar.

Esse cuidado de proteger os recursos da crise climática também está ao alcance do investidor individual. “Tenho colegas que deixaram de investir em fundos que não se preocupam com o clima”, afirma Carla. “Em alguns casos, se o agente diz que parte da taxa de administração vai para projetos verdes, esses clientes mais exigentes não acham bom o bastante”, diz. Afinal, o conteúdo da carteira de investimentos continua o mesmo, sem diferenciar quem tem maior ou menor risco climático e quem está contribuindo para a economia de baixo carbono. Se preocupar com o futuro não deve ser exclusividade dos profissionais do mercado. “Investidores de grandes fundos e gestores de produtos estão pensando nisso. Cobre você também”, aconselha Carla.

Este artigo foi publicado originalmente na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Tempestade no interior da França. As mudanças climáticas trazem alterações perigosas nos padrões de eventos extremos, como as chuvas destruidoras ( Thomas Bresson/Flickr. Legenda)

A grande solução da logística está errada

Megaprojetos para escoar commodities pela Amazônia têm alto impacto socioambiental e nem atacam os principais gargalos logísticos do país 

Grandes obras de logística vem sendo planejadas, discutidas e criticadas no Brasil. Boa parte delas é prevista para acontecer na Amazônia Legal. A lista de empreendimentos inclui projetos como a ferrovia Transoceânica (que ligaria o Brasil ao Peru), a Ferrovia Paraense (de Santana do Araguaia a Barcarena, de sul a norte do estado) e a Ferrogrão (de Sinop no MT a Itaituba no PA) são apenas alguns dos empreendimentos que, com financiamento da China, mudariam a paisagem da Amazônia.

Megaprojetos como esses pairam há anos nas mesas dos planejadores de infraestrutura no país. As premissas para escolher uma solução de logística em detrimento da outra não ficam claros para a sociedade, que arca com as consequências. Essas obras custam caro. Muitas só se viabilizam com subsídios oficiais, que significam que nós contribuintes acabamos pagando o pato por decisões que não tomamos. São objeto de lobby de grandes empreiteiras. Quando saem do papel, costumam envolver pequenas fortunas de corrupção. Também geram grandes impactos sociais e ambientais sobre as populações locais, que não necessariamente são os maiores beneficiados.

O grande argumento para priorizar essas grandes obras, muitas vezes ignorando alguns sinais de alerta, é que o Brasil precisa resolver seus gargalos de transporte. Afirma-se que essas obras reduziriam os custos de nossa produção. Que tornariam o país mais competitivo. Que contribuiriam decisivamente para reduzir o custo de transporte que pagamos embutido nas coisas que consumimos. Que poderiam diminuir o chamado custo Brasil. Que essas obras também reduziriam as nossas emissões de gases de efeito estufa derivadas da queima de diesel.

Todos esses efeitos positivos são desejáveis. Mas será que essas grandes obras na região Norte para escoar grãos ou minérios realmente são a prioridade para reduzir os custos e as emissões da nossa logística?

Quando pensamos em transporte de carga no país a primeira coisa que vem à mente de muitos são os caminhões enfileirados parados à espera de uma vaga para descarregar no porto de Santos. Isso acontece porque quando falamos de logística pensamos imediatamente na parte exportadora de nossa economia. Mas um levantamento do volume de carga transportado pelas regiões do país revela um outro quadro.

O gráfico abaixo ilustra as movimentações de carga por origem e destino no Brasil em 2015. Ele foi feito pelo Instituto Energia e Meio Ambiente (IEMA) a partir de dados da Empresa de Planejamento e Logística (EPL). A divisão por tipo de modal de transporte revela que 65% das cargas vão de caminhão. O nó está aí, no excesso de concentração da carga na caçamba dos caminhões. Precisamos de alternativas. Mas se a ideia é construir grandes corredores ferroviários para escoar os grãos, vale lembrar que eles representam apenas 4,4% da carga brasileira (em toneladas).

Cerca de 49% da carga do país sai do Sudeste, sendo que 34% roda dentro da própria região e 33% vai para exportação nos portos e aeroportos do Sul e Sudeste. Esses são os caminhões que atravancam as estradas, jogando fumaça negra tóxica, produzindo material particulado que entope os pulmões, queimando diesel e gerando gases do aquecimento global. Toda a carga que sai do celeiro agrícola no Centro-Oeste representa apenas 8% do total. Ou seja, construir obras gigantescas para levar os grãos pela Amazônia certamente beneficiaria bastante algumas traders de commodities. Mas teria efeito bem limitado sobre o transporte de cargas no país. É o que mostra o gráfico do IEMA e da EPL abaixo.

O maior desafio para reduzir custos e impactos ambientais (como emissões de carbono) do transporte de cargas no Brasil é bem menos óbvio do que grãos ou minérios. A maior parte do que está congestionado nas estradas é composto pelo que se chama “carga geral”. Isso inclui um pouco de tudo, como roupas, remédios, aparelhos de TV, material de construção, móveis de mudança, cerveja ou até sorvetes em caçambas refrigeradas. Resolver o nó desse tipo de carga, que vai de qualquer lugar para qualquer canto, é bem complexo. Porque elas fazem percursos diversos. Tem carga de São Paulo para o Rio de Janeiro, carga de Belo Horizonte para Curitiba, ou de Campinas para Santos. A maior concentração está dentro das regiões Sul e Sudeste.

Melhorar isso não pede soluções ambiciosas, com nomes imponentes, subsídios oficiais, facilidades aos empreiteiros, oportunidades para desvios de verba e usos eleitoreiros. Desatar esses nós deve exigir várias pequenas intervenções inteligentes, que combinam redistribuição da produção com obras localizadas. Não é fácil. É certamente menos vistoso e marqueteiro. Mas esse é o desafio real para cortar o custo Brasil e as emissões de carbono da nossa logística.

Este artigo foi publicado originalmente na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Vamos imitar a África do Sul?

 

Nos anos 1990, o país fez como os EUA: passou a encarar a conservação da natureza como uma atividade produtiva, fonte de renda e empregos de qualidade

O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar e de café, o segundo maior de soja, o terceiro maior de minério de ferro. O que pouca gente percebe é que o Brasil também é uma potência em outro produto ainda não tão bem explorado sob o ponto de vista econômico, para geração de emprego e de negócios locais. Nosso país é de longe o maior produtor de natureza do mundo.

Depois de décadas acompanhando projetos de conservação em várias partes do mundo, o biólogo espanhol Ignacio Jiménez Pérez fez, mais uma vez, uma reflexão sobre um dos maiores desafios de quem luta pela conservação da natureza: como mudar a forma como a natureza é contabilizada na nossa visão pragmática do mundo. Ou seja: como tirar a natureza da linha de custo e passar para a de investimento. Ou como fazer o grande patrimônio natural de um país sair da coluna de ativos imobilizados para a de meios de produção.

Ignacio é um dos criadores de uma expressão que começa a ser empregada para designar uma atividade econômica importante: a produção de natureza. No passado, as grandes áreas naturais – dominadas pela vida selvagem – eram predominantes na superfície do planeta. Na medida que a civilização humana foi ocupando e alterando as paisagens dos continentes, as áreas naturais foram encolhendo e hoje ocupam fragmentos cada vez menores do planeta. Cada vez menores e mais valorizados.

As grandes áreas naturais não ocorrem mais espontaneamente. Elas são fruto de trabalho de reconstituição e manutenção. É preciso limpar os rios, repovoar as florestas, demarcar os limites, zelar contra os invasores, evitar o fogo, administrar os visitantes e mapear os recursos presentes na região. Tudo isso, diz Ignacio, é um tipo de produção. Atrai investimentos, gera emprego, traz retorno financeiro.

O conceito de produção de natureza ocorreu a Ignacio nos anos 1990 quando estava trabalhando para o casal americano Doug e Kristine Tompkins na criação de grandes áreas de conservação na Argentina. Doug foi o fundador das empresas The North Face e Esprit, duas gigantes globais de roupas esportivas. Ele casou com Kris, CEO de outra gigante da moda esportiva, a Patagonia. Apaixonados por natureza, os dois criaram um fundo para comprar terras na Patagônia do Chile e da Argentina e doar para a criação de parques nacionais. O desafio de Ignacio era articular a criação das áreas naturais com os interesses das comunidades locais, incluindo governadores, prefeitos, comerciantes, fazendeiros e camponeses.

“Foi surpreendente para mim que a ideia de doar um grande parque nacional para a sociedade fosse recebida com resistência”, conta Ignacio. “Isso nos obrigou a buscar uma nova forma de comunicação com a sociedade. Passamos a explicar para que serve uma área natural protegida. Um ponto importante é que não estávamos propondo um jeito de conciliar a conservação com a produção. Nada disso. Nossa proposta era uma nova forma de produção, onde os ecossistemas naturais restaurados servem como base para o desenvolvimento local, principalmente com atividades de turismo.”

Em 2016, Ignacio foi estudar a experiência dos países do Sul da África. Embora tenha menos áreas naturais do que o Brasil, a África do Sul ganha mais dinheiro com turismo de natureza do que nós. Isso foi fruto de investimento realizado nos anos 1990, na onda da redemocratização. A África do Sul recuperou reservas naturais e criou novos parques nacionais na região de Maputaland, na fronteira com Moçambique, onde as montanhas encontram planícies na costa do Oceano Índico, com toda a incrível megafauna africana, como girafas, rinocerontes, guepardos e leões. No parque da zona úmida de iSimangaliso, o trabalho incluiu desde a construção de pousadas e estradas para turistas até a reintrodução de animais nativos. O número de estabelecimentos turísticos aumentou 60% nos últimos anos. Hoje, são cerca de 7 mil empregos permanentes e 3 mil temporários ligados ao turismo do parque.

Hoje a grande potência mundial do turismo ecológico são os Estados Unidos. Os americanos inventaram os parques nacionais em 1872 com a criação do Parque Nacional de Yellowstone e em 1890 criaram os parques Sequoia e Yosemite. O país promoveu a cultura de visitação de carro como um programa de família dos parques nos anos 1940 a 1950. Assim, as instituições da família, do automóvel e dos parques nacionais se tornaram sagradas na cultura americana. Só em 2017, a visitação aos parques americanos rendeu US$ 887 bilhões, com a manutenção de 7,6 milhões de empregos. Os parques americanos receberam 300 milhões de pessoas naquele ano. Compare isso com os 10 milhões de visitantes dos parques brasileiros no mesmo ano e imagine quantos empregos e renda a produção de natureza pode gerar no Brasil.

As ideias completas de Ignacio estão no livro “Produção de Natureza”, que acabou de ganhar uma versão em português editada pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), ONG que trabalha com a recuperação e o desenvolvimento econômico de grandes áreas de Mata Atlântica no Paraná.

Este artigo foi publicado originalmente na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.