Comunicação para a transformação socioambiental

O que nossa relação com a biodiversidade na Terra pode ensinar sobre sinais de vida inteligente em outros planetas

Cuidado. O texto a seguir contém uma dose alta de spoiler para os apreciadores de Cixin Liu, o gênio chinês de ficção científica contemporânea, autor da trilogia “O problema dos três corpos”.

Você está numa floresta escura. É noite. Não dá para enxergar absolutamente nada em nenhuma direção. O silencio da floresta é enganador. Ela está cheia de atiradores solitários emboscados fortemente armados. Nenhum deles conhece uns aos outros. Ninguém se fala. Ninguém revela sua posição. Ninguém sabe quem é amigo ou inimigo. A prioridade de cada um é lutar pela própria sobrevivência.

A vida do outro não vale nada. De repente algum inocente acende uma luz, revelando sua existência e localização. Será que ele está armado também? Será que ele vai avançar e matar você? Será que ele é pacífico? Devo eliminá-lo ou esperar mais um pouco? Você se pergunta. Pode ser que mais um ou outro dos atiradores emboscados também faça essas considerações. Não importa. São milhares de atiradores.

Basta que um deles aponte o fuzil na direção da luz e dispare uma rajada mortal. O incauto que acendeu a luz está condenado.

Essa metáfora descreve a Teoria da Floresta Escura, uma respeitada explicação para a ausência de sinais de vida inteligente no espaço. A teoria, presente na trama da trilogia de Cixin Liu, é uma resposta para o famoso Paradoxo Fermi, batizado em homenagem ao físico Enrico Fermi.

O paradoxo pare de uma conta feito pelo astrônomo Frank Drake em 1961. Ele estimou as variáveis necessárias para o desenvolvimento de civilização em outro planeta, levantou as probabilidads e calculou a chance de encontrarmos algumas entre as 200 bilhões de estrelas da Via Láctea. Estimou que deveríamos ser capazes de receber sinais de pelo menos 10 mil civilizações, sendo que 20 delas relativamente perto. Mas não recebemos nada. Operações de escuta de sinais de rádio não encontram nada. Talvez porque elas já tenham compreendido a lógica inexorável da Teoria da Floresta Escura. Basta uma civilização com capacidade para destruir outras estrelas à distância para silenciar o universo próximo.

É apavorante. Pause. Pense um pouco. O que nós humanos estamos fazendo ingenuamente mandando sinais de rádio para o espaço? Ou enviando sondas com códigos que explicam como somos e dão nosso endereço no espaço. Em 2010, o físico britânico Stephen Hawking alertou para o risco de enviar mensagens ao espaço sem saber das intenções de quem está do lado de lá. Outro físico britânic, Martin Ryle (Nobel em 1974) disse o mesmo. Um grupo de pesquisadores assinou um manifesto pedindo a interrupção dos programas de busca por vida inteligente porque podemos encontrar civilizações bem mais avançadas com más intenções.

Entre os assinantes está o empresário americano Elon Musk, pioneiro na exploração privada do espaço.

A base para a Teoria da Floresta Escura é uma razão ecológica. O que acontece quando qualquer espécie começa a crescer, se multiplicar em um ambiente de recursos limitados? Sua prioridade é a própria sobrevivência. Mesmo que para isso seja necessário eliminar os rivais.

Uma galáxia tem recursos limitados. Uma floresta também. Isso nos leva a outro pensamento. Vamos ver o que nossos ancestrais fizeram na Terra. A espécie humana cresce, se multiplica, ocupa cada vez mais espaço e consome uma proporção cada vez maior de recursos da biosfera. Nos últimos 200 mil ou 300 mil anos exterminamos todos os outros hominídeos: Neanderthalensis, Homo Erectus, Florensienis, Denovosianos.

Também massacramos outros primatas. Nossos parentes mais próximos vivos – os bonobos e chimpanzés – estão à beira da extinção. As outras espécies selvagens mais inteligentes, como as de elefantes (o africano e o asiático) e as de cetáceos (baleias e golfinhos) também chegaram ao limite.

Mas existe uma outra lógica ecológica, pelo menos no ambiente da floresta: a interdependência. A floresta é uma teia de relações. Você pode não saber, mas depende do equilíbrio que até o seu rival ajuda a manter. Em parte por isso, os mesmo povos que eliminaram outras espécies na Terra também têm relações de respeito com algumas delas.
Povos tradicionais de hoje também.

Os esquimós do Alasca reverenciam e também caçam baleias, num ritmo que permitiu a sobrevivência das duas espécies por milhares de anos.

Estamos mudando. A sociedade moderna discute cada vez mais os direitos dos animais e a necessidade de existência de outras espécies em ambientes selvagens sem nossa interferência.

Ao mesmo tempo que provocamos uma das maiores ondas de extinção em massa também aprendemos que precisamos conviver com as outras espécies no planeta. Talvez isso nos ofereça uma esperança se algum dia encararmos nossos caçadores no espaço.

Este artigo foi originalmente escrito por Alexandre Mansur e publicado na coluna Ideias Renováveis da revista Exame.

Foto: Floresta escura nos Estados Unidos: a luta pela sobrevivência cria suas próprias lógicas” (Hannes Flo/Flickr)

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