Comunicação para a transformação socioambiental

Ciclovia na Avenida Paulista, em São Paulo (foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

Existem boas evidências que 2018 marcou uma virada decisiva na mobilidade urbana em São Paulo. Em um ano só, diversas novas opções de transporte chegaram ao país. Num espaço de poucos meses, ciclovias e ciclofaixas viraram um mercado disputado por startups com todo tipo de proposta inovadora para locomoção.

A expansão das faixas dedicadas a bicicletas, skates, patins e outros meios de locomoção ativa (onde você, em tese, usa de alguma forma os próprios músculos) vem avançando há décadas em São Paulo, assim como em outras cidades do país. Mas neste ano houve uma passagem de marcha nessa evolução da mobilidade ativa. Num espaço de meses, várias novidades criaram opções de locomoção para atender a perfis de usuários ou momentos de uso ainda não contemplados. A YellowBike lançou em São Paulo sua frota de bicicletas de aluguel sem estação fixa. Elas ficam soltas. Você destrava com um aplicativo, anda com ela e deixa onde quiser. A empresa ainda limita o raio de ação a uma região mais central da cidade, mas promete expandir. Nessa área da cidade, as Yellows estão em toda parte. É difícil olhar ao redor e não ver uma disponível.

O aluguel de bicicletas elétricas se popularizou em 2018, com várias empresas oferecendo serviços. Em agosto, a Movida, terceira maior locadora de carros do país, entrou no negócio em parceria com a E-Moving para multiplicar as bikes disponíveis. O resultado foi sentido nas ruas. Principalmente para subir as ladeiras da cidade.

Depois disso tudo veio a invasão dos patinetes elétricos de aluguel. Primeiro foi a própria Yellow que lançou essa opção de serviço, e encheu o centro expandido (região central da cidade) com os patinetes amarelos. Depois o popular aplicativo de entregas Rappi fez uma parceria com a mexicana Grin para oferecer patinetes elétricos pela cidade. O novo meio de locomoção pegou imediatamente. Os patinetes parados na calçada disponíveis para o aluguel ficaram onipresentes na região nobre da cidade.

Um cronista da cidade, em sua coluna via Facebook chamada “Baita infra memes for Insper boys” comentou as novidades. Postou um “review” das opções de transporte da Avenida Faria Lima, uma das mais congestionadas e valorizadas da cidade. O texto dá tom da efervescência hipster com as novidades urbanas. Reproduzo um trecho abaixo, respeitando o estilo linguístico do original:

“Para quem ainda está perdido nesse mar de opções de transporte que a nossa querida Faria Lima oferece, fizemos um review de cada uma para vc poder decidir melhor como chegar no job. Carro – Lame, ultrapassado, quem ainda dirige em 2018? Ônibus – Kkkkkk pfvr Bicicleta Itaú – Segura e confiável, pq não ir com o bom e velho Itaú? Mesma marca que seu banco, afinal, quem usa Bradesco como banco? Isso seria tipo usar Claro de operadora. É chato ter que usar estação fixa, mas a porra da ciclovia vai de

alto de pinheiros até o itaim, que mais que existe em SP além disso?? Bônus que a bicicleta é da mesma cor que seu partido preferido Bicicleta Yellow – Bicicletinha fraca, parece que vai quebrar na sua mão. Banco não ajusta direito, não tem marcha, é desconfortavel… A grande vantagem é a flexibilidade mesmo, da pra largar em qualquer lugar, entao vamo da um credito Patinete Yellow – Esse sim, a verdadeira joia da empresa, estável, rápido e ousado. Eles falam que só pode ir até 20 km/h mas todo mundo sabe que na retona da pra chegar nos seus 25, ir cortando as bikes, ventinho na cara… Patinete Grin – Um pouco pior que o da Yellow mas mais comum, então ok. Seria melhor se o QR code funcionasse, parece ingresso de festa essa porra Monociclo elétrico – Aquela rodona unica entre as pernas, disparado o transporte mais ousado da Faria Lima, recomendamos 10/10, reúne estilo, velocidade, conforto e estilo Motoquinha de ciclovia – Mto chato, só atrapalha quem ta na ciclovia, tinha que acabar, ta achando que ta em amsta carai”

Todas essas opções de transporte não lotaram apenas a Faria Lima mas intensificaram a ocupação de ciclofaixas e ciclovias em outras vias, que até então estavam ociosas.

Sim. Embora alguns serviços como os patinetes da Grin e as bicicletas do Itaú estejam disponíveis em outras cidades, a superoferta de opções ainda é um fenômeno reservado para uma elite paulistana ou para quem frequenta a região da cidade. Mas é o início. Em termos de inovação urbana, São Paulo virou um espaço de experimentações e lançamentos de novos serviços, que depois se expandem para o resto do país. E o maior valor da chegada de todas essas novidades num espaço de meses é o lado simbólico. As novidades de transporte adotadas na região nobre de São Paulo costumam ganhar um caráter aspiracional para o resto do país.

Nem mesmo as disputas políticas locais em torno da autoria das ciclovias conseguiram reverter o avanço das ciclovias. Nem em São Paulo, onde polarização política fez um prefeito eleito ameaçar desfazer as ciclovias e ciclofaixas criadas pelo antecessor. A ameaça não passou da bravata. A população desejava aquelas faixas. A criação de espaços dedicados à bicicletas faz parte, no imaginário do eleitor, daqueles sinais de progresso. É coisa de Primeiro Mundo. Por isso, poucos eleitores realmente apoiariam a destruição das faixas e ciclovias.

É interessante observar como esses avanços de política pública de mobilidade, que tornam nossas cidades mais sustentáveis e resilientes (que contribuem para reduzir a dependência em combustíveis fósseis responsáveis pelo aquecimento global) acontecem num momento de aparentes retrocessos ambientais. Por mais que algumas forças políticas com visão obtusa tentem invocar o passado, não há espaço para o retrocesso quando a população experimentou os benefícios de uma inovação social ou tecnológica. Algumas coisas simplesmente não andam para trás. Todo mundo sabe que bicicletas e patinetes não dão marcha ré.

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